66. A vida num sopro

   Há um líquido amarelo, venenoso, com um cheiro desagradável e persistente (porque penetra facilmente na pele e no cabelo). Em 2016, de acordo com a  WHO (World Health Organization, organismo da ONU ligado à saúde), 6 milhões de pessoas morreram por o ingerirem (5 milhões por o ingerirem diretamente e 600 mil indiretamente). O seu consumo pesa no orçamento governativo devido a custos hospitalares e diminuição da produtividade. Todos os anos, 4,3 milhões de hectares de terra arável (cerca de metade da área de Portugal ou cerca da área do estado brasileiro de Paraíba ou a do maior distrito português: Beja) é usado para o cultivar e a sua produção resulta em 2 milhões de toneladas de desperdício sólido. Apesar disto, projeta-se que, em 2030, o número de mortes provocadas por ele aumente para 8 milhões de mortes anuais.

   Este líquido venenoso amarelo dá pelo nome de Nicotina, uma substância produzida pelas plantas como pesticida natural, como no caso da cafeína (é produzida pela planta para exterminar os insetos que a consumam). Apesar de ser um potente gás dos nervos, em pequenas quantidades é um estimulante. A fonte mais conhecida de nicotina é a planta Nicotiana tabacum (mais conhecida como a planta do tabaco), uma planta da família das solanáceas (família de plantas que inclui o tomate «Solanum lycopersicum», a batata «Solanum tuberosum», a beringela «Solanum melongena», a pimenta e os pimentos «Capsicum annuum» , num total de 2 700 espécies diferentes). A nicotina é sintetizada nas raízes e concentra-se nas folhas, totalizando até 5% do peso seco da planta. Outras espécies de plantas da família das solanáceas também contêm nicotina nas suas folhas mas em muito menores quantidades. As folhas da planta de coca «Erythroxylum coca» também contêm nicotina.

   A substância nicotina, bem como o nome do género Nicotiana, advêm de Jean Nicot de Villemain, o embaixador francês em Portugal de 1559 a 1561. Nicotin veio a Portugal para arranjar o casamento do rei português de 5 anos, D. Sebastião, com uma princesa francesa de 6 anos, Marguerite de Valois. (O casamento acabaria por não ir em frente e esta acabou por casar com o futuro rei de Inglaterra, Henrique IV). Em Portugal, entrou em contacto com a planta e enviou algumas semente para o rei francês como substância terapêutica. A planta era originária das Américas e era consumida pelos nativos na ilha Hispaniola (que inclui modernamente os países República Dominicana e o Haiti) perto de Cuba. Em 1535, o governador da ilha descreveu como os nativos da ilha aspiravam um fumo a que chamavam tabaco através de um pequeno «cachimbo» que enfiavam em ambas as narinas e cheias com uma planta que queimava no seu interior. Fumavam até caírem num torpor inconsciente semelhante ao causado pelo álcool (os cigarros modernos têm 30% de nicotina mas a planta selvagem tem cerca de 90%).

   A planta (e o seu consumo) fez sucesso rapidamente e a planta recebeu o nome popular de nicotina (que se preserva na designação científica do género) mas eventualmente o nome passou a designar a substância activa que continha. Em pequenas doses, a nicotina tem um efeito estimulador, aumentando o nível de actividade, alerta, prontidão e memória no corpo humano, tal como a cafeína. Mas, como esta, também aumenta a pressão sanguínea, os batimentos cardíacos e reduz o apetite (os consumidores frequentes apontam geralmente como sintoma da sua ingestão um relaxamento dos músculos). Os níveis tóxicos para o organismo humano são entre 40 e 60 mg (um cigarro tem cerca de 1 mg de nicotina). Os sintomas da interrupção do fluxo de nicotina para o corpo de alguém dependente da substância incluem irritabilidade, dores-de-cabeça, ansiedade, distúrbios cognitivos e perturbações do sono. Estes sintomas têm um pico de intensidade entre 48 e 72 horas após a interrupção e geralmente desaparecem ao fim de 2 a 6 meses. (Tempo mínimo geralmente necessário para se acabar com «o vício do tabaco»).

   A nicotina é vulnerável à temperatura, sendo destruída facilmente pelo calor. Assim a quantidade de nicotina que penetra no corpo através do fumo do tabaco é pequena mas, como tem um elevado grau de criação de dependência, essa pequena quantidade é suficiente para despoletar o vício. Após penetrar no corpo (pelos pulmões ou pela pele), a nicotina entra rapidamente na corrente sanguínea e, ao chegar ao cérebro (em média 7 segundos após a entrada na corrente sanguínea), ultrapassa facilmente a barreira que o separa do sangue. No cérebro, actua sobre alguns receptores que controlam a libertação de adrenalina. Se em pequenas quantidades, a nicotina leva a um aumento da produção da estimulante hormona adrenalina no cérebro. Mas, em quantidades elevadas, a nicotina bloqueia os receptores, o que origina a sua toxicidade e o seu uso como insecticida (pelas plantas e também pelo Homem!) Além disso, como também o faz a cafeína, a nicotina aumenta os níveis de dopamina no cérebro, o que activa artificialmente os circuitos de bem-estar no cérebro. Dessa forma pode causar o bem-estar (?!) referido pelos fumadores e também explica como surge o vício. (As drogas viciadoras funcionam dessa forma, aumentando os níveis de dopamina no cérebro, o que conduz à necessidade da sua permanente ingestão para manter esses níveis elevados).

   Os efeitos carcinogénicos da nicotina são ainda objecto de estudo mas a nicotina bloqueia a apoptose das células com defeitos genéticos. A apoptose é o mecanismo natural de morte auto-programada das células. Quando existe essa necessidade, as células auto-destroem-se (para além da auto-destruição de células com defeitos, ocorre, por exemplo, durante o desenvolvimento do feto, quando as células que ligam os dedos da mão se auto-destroem para permitir a sua individualização). Dessa forma, a nicotina poderá (ainda não está claramente estabelecido se sim ou não e não tendo em consideração os restantes químicos presentes num cigarro) permitir a sobrevivência de células com defeitos genéticos, abrindo assim caminho para o surgimento de cancro. O conjunto de todos os químicos presentes num cigarro é cancerígeno e a nicotina inibe a capacidade do corpo eliminar as células potencialmente cancerígenas. A combinação é, sem dúvida, letal, como o atestam as estatísticas internacionais.

   A título de curiosidade, foi verificado que entre 75% e 90% das pessoas diagnosticadas com esquizofrenia fumam. Poderá ser uma forma de aliviar a tensão psicológica que a doença provoca, aumentando os níveis de dopamina no cérebro…