89. A dança do Leão

   No século XXI, um dos temas de relevância internacional (a par com o terrorismo e o aquecimento global) tem sido a Globalização e as suas consequências para a diversidade da experiência humana. Mas esta não foi a primeira Globalização a que o Mundo assistiu e vive-se ainda com as consequências das anteriores enquanto se discute a atual. Quantas de facto existiram, depende da definição que se use de Globalização e do que se pretende avaliar. Desde as trocas culturais que se estabeleceram entre a Europa grega e o Oriente persa com as conquistas de Alexandre Magno no século IV AEC (de quem também se falou no artigo Grande Saber), ou o império romano que unificou norte europeu, norte de África e médio Oriente, ou a rota da seda que uniu China e Europa, muitas foram as épocas históricas classificadas como Globalizações.

   Uma delas, que verdadeiramente uniu regiões antípodas do planeta, foi a que foi iniciada pelos Portugueses no início do século XV: os Descobrimentos. Muitas foram as motivações que levaram os Portugueses a olharem para o Oceano e a sonhar com o que estaria para lá do horizonte: a presença moura (ver o artigo Península de Ismael para a diferença entre «Mouros», «Sarracenos», «Árabes», «Berbéres» e «Muçulmanos») tinha desaparecido de Portugal no século XIII (persistiu mais um século no Sul de Espanha, no Reino de Granada), pelo que nenhuma guerra absorvia os recursos do país; as relações com a vizinha Espanha estavam estabilizadas (enquanto esta se unia e combatia o Reino mouro de Granada); o resto da Europa vivia ainda a «ressaca» da Peste Negra (que dizimou cerca de metade da população europeia em meados do século XIV) e com a Guerra dos Cem anos (nome colectivo dado a uma série de conflitos entre meados do século XIV e meados do século XV que opôs a Inglaterra dos Plantagenetas e a França dos Valois e onde se notabilizou a célebre Joana D'Arc; o rei português D. Sebastião esteve para se casar com uma Valois, como visto no artigo A vida num sopro); as Cruzadas ainda continuavam na sua busca por reconquistar o Médio Oriente aos Árabes e reverter a expansão muçulmana.

   Portugal, reino pequeno no canto  ocidental do continente europeu, com as suas fronteiras bem definidas, relações comerciais com Mouros e Espanhóis consolidadas, com uma área arável limitada, estava nas condições ideais para embarcar com sucesso na grande aventura dos Descobrimentos, faltando apenas uma força aglutinadora e motivadora que o «empurrasse» para o mar. Este foi o papel desempenhado pelo Infante D. Henrique, filho do rei Português D. João I. A partir da conquista da cidade moura de Ceuta (a cidade é agora espanhola sem nunca ter sido conquistada após os portugueses o terem feito, em 1415), Portugal foi alargando a sua zona de influência na América, África e Ásia, contornando os mercadores italianos e mouros e estabelecendo ligações entre povos tão distantes como os povos da Amazónia e do Japão ou os Aborígenes australianos. Para mais sobre o Império Colonial português, ver o artigo Portugal: império perdido. A par com as motivações culturais e económicas, as motivações religiosas nortearam grande parte do esforço de expansão portuguesa, levando-os a procurar aliados e circunstâncias geográficas, económicas e políticas que os favorecessem na luta contra o «grande inimigo muçulmano», finda que estava o sua presença no território nacional. Foi nesse contexto que uma figura mítica se destacou na imaginação portuguesa (e europeia): Preste João.
   Durante a Idade Média, tornou-se popular na Europa a história de um Imperador cristão, sábio e poderoso, que governava um reino para lá do império muçulmano, algures a Oriente (da Europa). Sendo bastante poderoso (rezavam as múltiplas histórias que circulavam e se avolumavam), seria um valioso aliado para os cristãos europeus contra as invasões muçulmanas. Havia quem o situasse algures no Médio Oriente, outros em África, outros em plena Ásia. Seria descendente de um dos Três Reis Magos (ver o artigo Os Medos dos Magos para mais informações sobre estas três enigmáticas figuras), seria um governante justo e amado, o seu vasto reino continha vários animais incríveis, a fonte da juventude existiria lá (e mantinha o Imperador Preste João permanentemente jovem) e ainda estaria situado ao pé do Paraíso terrestre (palavra que vem do persa pairi-daeza, que designa um jardim com uma disposição geométrica como a do Taj Mahal).
   Entre os anos 632 e 750, o Império Muçulmano estendeu-se da Península Arábica ao longo do Norte de África até abranger a Península Ibérica. Isto significa que passou de 2,6 milhões de km2 (a Península Arábica) para 7 milhões de km2 (com a inclusão da Península Ibérica) em 118 anos. Ou seja, 7/2,6 =2,69 vezes o seu tamanho em 750-632 =118 anos. Para se ter uma ideia da rápida expansão do Islamismo, os 92 milhões de km2 de Portugal Continental foram conquistados aos Mouros em 1139-1249 =110 anos. O Império Muçulmano expandiu 7-2,8 =4,4 milhões de km2 em 118 anos. Foram 4,4/118 = 0,037 milhões de km2 ou 37 mil km2 por ano. A cada 2,5 anos conquistaram uma área do tamanho de Portugal, que nos demorou 110 anos!
   Apesar da rápida expansão muçulmana, que apenas num século quase triplicou de área, os povos etíopes permaneceram fiéis à sua religião não-islâmica, mantendo-se cristãos ortodoxos. A Etiópia foi das primeiras nações em todo o Mundo a converter-se ao Cristianismo (no século 4), na mesma altura em que o Império Romano se converteu oficialmente também.

   A Etiópia foi uma Monarquia ao longo da sua longa História e a Casa Imperial Etíope afirma descender do Rei Salomão e da Rainha do Sabá através do filho de ambos Menelik I. Entre o século IV AEC e 1970, esta dinastia Salomaica governou a Etiópia (só entre 1137 e 1270 é que uma outra dinastia, chamada Zagwe, a substituiu) e só foi derrubada em 1974, quando um golpe de estado depôs o último Imperador etíope Haile Selassie I e estabeleceu a presente república. Os Etíopes afirmam até terem, na sua posse, a famosa «Arca da Aliança», que era guardada no Templo de Salomão e que desapareceu entre as conquistas militares que Jerusalém sofreu ao longo da sua História. Como afirmam que a sua casa imperial descende do filho de Salomão com a Rainha do Sabá, explicam dessa maneira que a «Arca Perdida» na verdade foi guardada e está na Etiópia. O primeiro filme da saga «Indiana Jones» coloca-o na senda (em confronto com os Nazis) dessa mítica arca. Daí o nome do filme ser Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida (Portugal) ou  Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida (Brasil).

   Haile Selassie nasceu com o nome de «Tafari Makonnen» e, por ser da casa imperial, recebeu o título de «Ras» (cujo equivalente será «barão» ou «príncipe»). Assim, até se ter tornado Imperador e mudar de nome, era conhecido como Ras TafariA semelhança entre o nome do ex-monarca etíope e o movimento Rastafariano da Jamaica, não é mera coincidência. Ras Tafari subiu ao trono da Etiópia em 1930 (depois de confusas lutas pelo poder), adoptando o título real de «Sua Majestade Imperial Haile Selassie I, Rei dos Reis, Senhor de Senhores, Leão Conquistador da Tribo de Judá e Eleito de Deus» e tornando-se Negus (rei). Durante o seu reinado (de 44 anos), a Etiópia foi atacada e conquistada pelas tropas fascistas do ditador italiano Mussolini (de 1935 até 1942), participou na Guerra da Coreia ao lado dos EUA (que resultou no impasse que deu origem às duas Coreias que se conhecem hoje), integrou a Eritreia na Etiópia (tendo depois conduzido uma guerra infrutífera contra a Eritreia para a manter), procurou reformar o sistema feudal em que a Etiópia ainda vivia em pleno século XX, a região de Wollo (no nordeste do país) passou por um período de fome que se tornou mundialmente conhecido e denegriu bastante a reputação do país em termos internacionais. Em 1974, uma revolução, feita por militares de baixa patente, depôs Haile Selasie (tal como alguns meses antes tinha acontecido em Portugal), que foi preso e morreu um ano depois (o movimento Rastafariano sustenta que Haile Selasie não morreu, já que é a reencarnação de Jesus Cristo).

   O Movimento Rastafariano surgiu na década de 1930, na Jamaica, como um movimento de inspiração cristã, Pan-Africano (união de todas as pessoas de origem africana), tendo África (Zion) como centro, a rejeição do Mundo moderno ocidental (Babylon) centrado nos EUA, o uso religioso da marijuana (cannabis) como meio de expansão da consciência e a veneração de Haile Selasie (Ras Tafari) como a segunda reencarnação de Jesus Cristo. Aquando do fim da I.ª Guerra Mundial, realizou-se a Conferência de Berlim, que colocou todos os países africanos sobre «administração» de países europeus (na verdade, colonialismo com  outro nome). Apenas dois países (a Etiópia e a Libéria) ficaram independentes e «auto-administrados». Ainda que a Libéria fosse um país livre, os seus laços com os EUA eram grandes, já que o país fora fundado por ex-escravos libertos dos EUA (daí o nome do país) Apenas a Etiópia permanecia, aos olhos de muitos, firme e independente de ligações ou dependências externas. Fazendo, além disso, parte da «Dinastia Salomónica», com ligações ao Velho Testamento e à Bíblia, Haile Selasie emergiu como a encarnação de todas crenças pan-africanas. Para isto, contribuíram os seus títulos dinásticos como «Leão de Judá» (o leão é também uma forte imagem no Rastafarismo) e «Senhor dos Senhores», títulos encontrados na Bíblia. O movimento rastafariano refere várias vezes, nas letras das músicas, palavras como: Jah (diminutivo de Jeová), Babylon, Zion, Lion (leão), ganza (marijuana), além de usar a bandeira de Haile Selassie (que era usada como bandeira etíope até ser derrubado) como bandeira do movimento e as cores da Etiópia (verde, amarelo e vermelho) para se representarem.

   Apesar de muito associadas aos Ratafarianos, as «dreadlocks» não fazem parte da sua ideologia. Também crêem na origem de toda a Humanidade em África, o que é apoiado pela Arqueologia e pela Genética. Veja-se as letras da mais famosa banda de Reggae: Bob Marley e os Wailers.

A banda reggae portuguesa Kussondulola - Nós somos Rastaman

   Este país africano, tão ligado às tradições religiosas do Médio Oriente, foi a resposta às aspirações de Portugal quando, em plenos Descobrimentos, encontrou um país cristão (ainda que ortodoxo) nas «costas» dos inimigos muçulmanos. O aliado cristão parecia ter chegado e Portugal ainda participou em batalhas de apoio aos Etíopes (principalmente contra o Império Otomano) sendo os soldados portugueses altamente valorizados (não apenas pelas armas de fogo, já que o Império Otomano as tinha também, como referido no artigo Um por todos sobre os 3 Mosqueteiros). Mas a lenda foi morrendo, à medida que ia sendo confrontado com a realidade. Mas ainda continuou e continua a inspirar muitos com os seus relatos de riquezas imensas, fonte da juventude e cultura ímpar.

   A título de exemplo, veja-se o romance de 2000 Baudolino, de Umberto Ecco, onde um grupo de aventureiros parte em busca do fabuloso Reino de Preste João, tendo encontrado mais do que antecipavam.