150. População

O excesso populacional de seres humanos, ratos, chimpanzés,
os estudos feitos e as lições para o futuro. 

Nestes últimos 12 mil anos, a população mundial tem crescido imenso. A população atual é 1860 vezes maior do que era há 12 mil anos, quando era apenas de 4 milhões. O grande salto deu-se nos últimos 250 anos, tendo a população até ao século XIX crescido muito lentamente. Em 1800 sensivelmente era cerca de mil milhões com uma taxa de crescimento anual de perto de 0,04%. Atualmente é cerca de 7,6 mil milhões e projeta-se que cresça até 9,6 mil milhões até 2050 tendo cerca de 108 mil milhões de pessoas vivido ao longo da existência da nossa espécie. Este crescimento sem precedentes traz sérias preocupações sociais e vários cientistas têm procurado determinar de que forma este crescimento nos afetará. A Ilha da Páscoa foi uma experiência não planeada de sobrepovoamento humano. Outras situações de sobrepovoamento humano são estudadas em prisões ou em escolas.

Em 1947, o psicólogo estado-unidense John Bumpass Calhoun (1917-1995) estudou, ao longo de 28 meses, uma colónia de ratos-castanhos Rattus norvegicus para avaliar o efeito do excesso populacional nos ratos. Colocou cinco fêmeas grávidas num recinto aberto ao ar livre com 930 m², que calculou poder conter até 5 mil ratos. Teoricamente, cinco fêmeas podem dar à luz 5 mil crias nesses dois anos que durou o estudo mas Calhoun verificou que a população nunca ultrapassava um máximo de 200 indivíduos e rondava geralmente cerca de 150 espalhados por 12 ou 13 colónias com doze ratos cada. Quando uma colónia ultrapassava esse valor, as pressões sociais e psicológicas levavam à separação do grupo e criação de uma nova colónia.

Rato doméstico mus musculus

    As espécies de roedores que fazem parte do género Rattus são geralmente conhecidas como ratazanas enquanto as espécies que fazem parte do género Mus são geralmente conhecidas como ratos. Esta não é uma definição científica pois há espécies Rattus conhecidas como ratos (nomeadamente os chamados ratos de laboratório são Rattus norvegicus domesticus) ou como a ratazana preta Rattus rattus. Geralmente, os ratos ditinguem-se das ratazanas pelo seu menor tamanho.

“Rato” de Laboratório

   Em 1968, John Calhoun criou a experiência pela qual é mais conhecido, tendo colocado, no dia 9 de Julho de 1968, num recinto com aproximadamente 650 centímetros quadrados, 8 ratazanas brancas de laboratório sendo 4 do sexo masculino e 4 do sexo feminino. Água e comida eram regularmente fornecidas e todos os ratos existentes tinham alimentação amplamente disponível. A temperatura era mantida constante e as paredes possuíam inúmeros ninhos artificiais para permitir a procriação. Nos primeiros 104 dias, registou a agitação social decorrente da ambientação dos ratos ao novo ambiente (Fase A). Ao fim desses 104 dias nasceu a primeira cria e a população aumentou exponencialmente a partir de então, duplicando de tamanho a cada 55 dias (Fase B). Aquando do 315.º dia, a população era constituída por 620 ratos e a população diminuiu o ritmo de crescimento para uma duplicação a cada 145 dias (Fase C).

   A partir desta Fase C, os níveis de violência aumentaram e a estrutura social deteriorou-se, em que as fêmeas em período de aleitamento rejeitavam e abandonavam as crias recém-nascidas, apesar da abundância de comida, até 96% das crias recém-nascidas eram mortas e os cadáveres crias eram devorados por outros ratos, uma fêmea adulta era perseguida por grupos de machos, ocorriam graves problemas de obstetrícia e ginecologia (ocorriam frequentes mortes das fêmeas durante e após o parto). Entre os machos, registavam-se 4 tipos de personalidade: os dominantes (altamente agressivos), os homossexuais (insinuavam-se a membros do mesmo sexo ou a fêmeas estéreis e eram atacados pelos dominantes), os passivos (moviam-se por entre a população completamente apáticos) e os sondadores (hiperactivos, hipersensuais, bissexuais e canibais). As interacções sociais tornaram-se de curta duração e os instintos de corte sexual e parentesco desapareceram No 560.º dia, a população atingiu os 2 mil e 200 ratos, tendo a partir daí decrescido pelas razões acima apontadas levadas ao extremo. Nenhuma cria nascida depois do 600.º dia sobrevivia além da infância. O último nascimento registou-se no 920.º dia. A 22 de Junho de 1972 existiam 122 ratos sobreviventes.

Cervo nipónico

   Esta experiência foi depois realizada por outros investigadores noutras espécies animais como lémingues, lebres (falou-se na diferença entre lebres e coelhos no artigo Sabedoria noturna), cervos, macacos e gatos (Chitty 1967, 1996; Christian e Davis 1964; Leyhausen 1965; Snyder 1968; Southwick 1971; Wynne-Edwards 1965). Entre os gatos, regista-se o aumento da violência e assassinato colectivo de indivíduos escolhidos arbitrariamente. Na maioria dos animais (primatas incluídos) registam-se, além destas situações, maior susceptibilidade às doenças e diminuição da estatura dos adultos.

   Um colega no mesmo laboratório, o ecologista John Christian, estudou as consequências fisiológicas do sobrepovoamento, nomeadamente as respostas mal adaptadas a situações de tensão emocional e social extremas ou prolongadas, levando à falha dos sistemas corporais. Esta falha expressava-se numa tríade de alterações físicas como hipertrofia da glândula suprarrenal que produz adrenalina, atrofia das estruturas linfáticas (que conduz à maior suscetibilidade a doenças) e úlceras no estômago e duodeno.

   Nos chimpanzés (que têm 99,6% de parecenças genéticas com o ser humano) a população torna-se mais assustadiça e ligeiramente mais agressiva. Mas não muito mais. Há medida que a população aumenta, os chimpanzés fazem um esforço concertado para manterem a paz. Têm mecanismos naturais e linguísticos que lhes permitem compensar o sobrepovoamento. As fêmeas têm um papel activo ao acalmar situações de sobrepovoamento. No estado selvagem, os machos chimpanzés-comuns copulam com as fêmeas que e quando quiserem.

   Há duas espécies Chimpanzés, os chimpanzés-comuns (‎Pan troglodytes) e os bonobos (Pan paniscus), que se separaram há cerca de um milhão de anos. Os chimpanzés separaram-se dos seres humanos num processo longo entre há 13 milhões de anos e 4 milhões de anos. Foi o explorador português Duarte Pacheco Pereira (1460-1533), que fez parte da delegação portuguesa que assinou o Tratado de Tordesilhas (de que se falou no artigo Canárias: Portugal horizontal), a  primeira descrição conhecida do uso de ferramentas por chimpanzés. A palavra “chimpanzé” vem da língua africana Vili, falada no norte de Angola e no Gabão ci-mpenzi que significa «falso-humano»; Pan era a divindade gregaligada à Natureza; Troglodita vem do Antigo Grego Τρωγλοδύται «Troglodytae», um povo mitológico que morava em caverna das palavras gregas trōglē «caverna» e dytes «habitantes». 

Os chimpanzés-comuns são fisicamente maiores e mais agressivos, os grupos são dominados pelos machos, regularmente caçam macacos e combatem fisicamente com grupos rivais. Os bonobos são mais graciosos e pacíficos, com pernas mais longas, lábios cor-de-rosa, face mais escura, o pêlo da cabeça é dividido ao meio e os grupos são dominados pelas fêmeas. Os bonobos e os seres humanos são os únicos primatas que acasalam face-a-face, na posição geralmente conhecida como “de missionário”.

   O estatuto social das fêmeas nas duas espécies levam a estratégias diferentes de lidar com o sobrepovoamento. Nos bonobos, as tensões entre indivíduos é resolvida através de relações sexuais, tanto em situações normais como em situações de pressão populacional. Nas alturas de sobrepovoamento, as fêmeas chimpanzés têm o direito (que normalmente exercem) de negar as investidas sexuais dos machos. O aumento do estatuto social das fêmeas leva, não a maior agressividade dos machos mas a períodos de calma social. Em situações de agressividade entre os machos, as fêmeas procuram apaziguá-los.

   Se os seres humanos fossem ratos, esperar-se-ia, nas cidades actuais sobrepovoadas, um aumento de episódios de violência urbana e doméstica, abuso sexual e negligência infantil, aumento da mortalidade de mães e recém-nascidos, violações em grupo, psicoses, aumento da hipersexualidade, violência para com os homossexuais, alienação e desenraizamento sociais e diminuição das aptidões domésticas masculinas e femininas.

   Os seres humanos não são ratos, nem gatos, nem chimpanzés. Mas as sociedades em que o sexo feminino desfrutam de igualdade social são também sociedades que beneficiam dos seus dotes político-sociais. Haja então esperança de que a a igualdade de géneros nas sociedades humanas, iniciada a meio do século passado se aprofunde e que a espécie humana possa vir a gozar de uma pax femina duradoura.