129. Questão Cor-de-rosa

Da independência do Brasil e a divisão de África ao regicídio, luta do poeta pela glória da pátria, ultimatos, questões, casino e suicídio.

   Corria o ano de 1871, num pacato jardim à beira-mar plantado. Descontentes com o rumo que o seu país tem vindo a tomar, um grupo de jovens escritores decide reunir-se e, durante alguns dias, publicamente discutir as causas para o seu declínio e as soluções para lhe devolver a glória. Preocupadas com as ilações que estavam a ser tiradas e as suas consequências para o seu prestígio internacional, as autoridades proibiram a realização de mais encontros. Somente 5 foram realizados (dos 10 planeados) mas, pouco tempo depois, os acontecimentos vieram a dar razão à preocupação dos intervenientes e o resultado viria a mudar, 40 anos depois, para sempre o seu país.

   Tudo isto aconteceu, em Portugal, nas últimas décadas de Monarquia (no final do século XIX): um grupo de jovens artistas reuniu-se para pensar sobre o país e as conclusões a que chegaram revelaram-se premonitórias. Como o encontro se deu no Casino Lisbonense (no actual Largo Rafael Bordalo Pinheiro, em Lisboa), ficou conhecido como Conferências do Casino. Entre 22 de Maio e 19 de Junho, discursaram Antero de Quental (poeta açoriano), Augusto Soromenho (escritor aveirense), Eça de Queiroz (romancista de Póvoa de Varzim) e Adolfo Coelho (pedagogo coimbrense). Nessa altura, vivia-se ainda no choque da independência do Brasil (de que se falou no artigo Estrela Verde) e a Guerra Civil Portuguesa que se lhe seguiu que se seguiram às Invasões francesas (de que se falou nos artigos Legião Laranja e Olivença: Portugal esquecido). E tudo ocorreu num dos séculos mais turbulentos e complicados da História de Portugal: o século XIX.

   A Aliança Anglo-Portuguesa tinha sido celebrada em 1373 (no reinado de D. Fernando) e foi reforçada pelo Tratado de Windsor, datado de 1386 (no reinado de D. João I). O Tratado de Windsor foi firmado pelo casamento de D. João I com Filipa de Lencastre (filha do Duque de Lencaster). Com a ajuda inglesa providenciada pelo sogro, D. João conseguiu derrotar as tropas espanholas do marido da sua sobrinha (a princesa herdeira Beatriz), tornou-se Rei e foi pai da Ínclita Geração, os príncipes portugueses que se destacavam pelos seus dotes pessoais e que impulsionaram Portugal para a sua Época de Ouro: os Descobrimentos (em particular D. Henrique que trouxe para Portugal uma das duas cópias do Mapa-Mundo de Fra Mauro, como visto no artigo A pizza de Fra Mauro). Em 1500, o navegador português Pedro Álvares Cabral, desembarcou nas costas de uma terra desconhecida a que deu o nome de Terra da Vera Cruz, que tem agora o nome de Brasil e, em 1640, a princesa Catarina de Bragança casou com o rei inglês Charles II com o intuito de trazer o apoio inglês à Restauração portuguesa depois de 60 anos de reis espanhóis. O dote de Catarina, como visto no artigo Pegadas no Chá, incluiu as cidades de Tânger e Bombaim. 200 anos depois, Portugal sobreviveu à Guerra Civil portuguesa (1828-1834) que se seguiu à independência brasileira, mas emergiu um reino mais pobre (perdera a maior e mais rica das suas colónias) e exangue da luta fraticida que acabara de vivenciar.

   Simultaneamente a população portuguesa via-se com mais direitos e com novos sentimentos de liberdade e vontade de se exprimir. E é neste reino empobrecido, habituado a viver do ouro brasileiro e mais ainda amarrado ao comércio inglês, como a sua única fonte de riqueza, que surge a Geração de 70. Este foi um grupo de estudantes de Coimbra (liderado intelectualmente por Antero de Quental) que se rebelou contra a arte que se fazia na altura, contra a sociedade em que viviam, contra pesadas e estagnadas as concepções históricas, sociais e filosóficas da sua época. Este grupo de escritores viria a fazer as supracitadas Conferências do Casino, onde discutem, aberta e publicamente, as causas para o declínio de Portugal e para a sua tão grande dependência do que obtinha da sua colónia brasileira.

   Nascido em Ponta Delgada, na ilha de S. Miguel, arquipélago dos Açores, evidenciou-se um jovem de nome Antero Tarcínio de Quental (1842-1891). Era filho de Fernando de Quental, que lutou ao lado de D. Pedro IV na Guerra Civil (de que se falou no artigo Estrela Verde) e neto de André da Ponte Quental, que lutou contra as invasões francesas (ver o artigo Legião Laranja) e foi amigo do poeta Bocage. Provinha, por isso, de uma família de arreigados defensores da pátria e do liberalismo, tradição que Antero de Quental prosseguiu na sua vida. Teve sempre um espírito lutador e idealista, pugnando pela igualdade e pela justiça social. Em 1852, com 13 anos, vem viver com a mãe para Lisboa e, em 1858, com 18 anos, ingressa na Faculdade de Direito de Coimbra (tendo-se formado em 1864, com 22 anos). No ano seguinte à sua formatura em Direito, envolveu-se numa disputa literária com o seu antigo professor, António Feliciano de Castilho, que viria a ser conhecida por Questão Coimbrã (pela cidade onde ocorreu). Castilho advogava uma poesia ultra-romântica que, aos olhos de Antero de Quental, era decadente, torpe e beato. Para Antero, a poesia deveria ser realista, a descrição da vida tal como é, com todo o sofrimento, pobreza e injustiça que contém. Dessa forma, a poesia tem um papel mais do que decorativo ou estético: é também uma arma de combate à injustiça social. Nesta disputa animada, foi o Realismo de Antero que saiu vitorioso sobre o Ultra-Romantismo de Castilho.

   No ano seguinte, em 1866, foi para Lisboa, para exercer a profissão de tipógrafo, profissão que exerceria, em 1867 e 1868, em Paris, para onde se mudou. Nesse ano, 1868, regressa a Lisboa, onde forma o Cenáculo (também conhecido como a Geração de 70), um grupo de intelectuais (maioritariamente escritores) que se tinham conhecido em Coimbra nos seus anos estudantis. O Cenáculo era contestatário, apontando o dedo à sociedade, aos seus costumes decadentes e ao servilismo social que se vivia, nesses anos após a independência do Brasil e a cada vez maior dependência do comércio com a Inglaterra. Decidem, então, realizar uma série de conferências, que ficaram conhecidas como Conferências do Casino, onde expunham as suas ideias e denúncias para a decadência social portuguesa. Foram realizadas 5 conferências: “O Espírito das Conferências“, por Antero de Quental; “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares“, por Antero de Quental; “Literatura Portuguesa“, por Augusto Soromenho; “O Realismo como nova expressão da arte“, por Eça de Queiroz; “O Ensino“, por Adolfo Coelho.

   Antero culpava, para o atraso português, a contra-reforma religiosa, que aprofundou o atraso intelectual e científico do país; a centralização política, herdada do Absolutismo e a que o liberalismo não tinha posto cobro, mantendo o país subdesenvolvido e dependente da capital; a herança económica dos Descobrimentos, que tornou o país dependente dos bens que lhe chegavam das suas colónias. Mas as autoridades políticas e religiosa não apreciaram as Conferências e estas foram proibidas, havendo mais 5 que não chegaram a se realizar. E o país não ligou aos conselhos e avisos do Cenáculo…

    Em 1890, os avisos do Cenáculo concretizam-se, com o Ultimato Inglês que exigia, a Portugal, que se abstivesse das pretensões de ligar, por terra, as colónias de Angola e Moçambique (o território que agora é o Zimbabué), o chamado Mapa Cor-de-Rosa. A Inglaterra pretendia unir, com uma linha ferroviária, as suas colónias no Sul da África com as do Norte de África. A Inglaterra, sentindo a fraqueza portuguesa, optou por exigir e ameaçar os portugueses, enquanto se entendia com a França, que tinha já uma linha ferroviária que se estendia da costa oriental à costa ocidental africanas (após longos séculos de animosidade entre os dois países, este acordo estreitou os laços entre os dois países, levando a que estes, tradicionais inimigos e rivais, se tornassem os aliados que o século XX testemunhou, na I.ª e II.ª Guerras Mundiais). A humilhação nacional foi sentida por todos os portugueses e viria a levar, em 1908, ao regicídio (onde morreu o rei português D. Carlos) e, em 1910, à abdicação de D. Manuel II e à implantação da República.

   Entre 1884 e 1885, os exploradores portugueses Hermenegildo Capelo, Roberto Ivens e Serpa Pinto fizeram a travessia a pé de Angola a Moçambique, no intuito de cartografaram a região e reforçarem as pretensões portuguesas na região mas, 5 anos depois, a Inglaterra ultimou Portugal a abandonar essas pretensões. Em 1891, Antero de Quental, já doente de Doença Bipolar (uma psicose maníaco-depressiva), muda-se para a sua nativa Ponta Delgada, nos Açores, onde acaba por se suicidar, num banco encostado à Igreja do Santo Cristo, a 11 de Novembro de 1891.  Existe um outro jardim a que foi dado o nome de Jardim Antero de Quental que tem um memorial em hora de Antero, um dos filhos mais ilustres da região (a par de Manuel de Arriaga, primeiro presidente da República, a poetisa e deputada Natália Correia, entre outros vultos nacionais).

Banco junto à Igreja do Santo Cristo, assinalado com uma âncora, onde se suicidou, a 11 de Setembro de 1891, Antero de Quental.