41. Os Medos dos Magos

  Uma das mais antigas civilizações do mundo, a Suméria, surgiu entre os rios Tigre e Eufrates, onde é o moderno Iraque e Kuwait (a famosa Mesopotâmia, do grego Μεσο – “entre” e ποταμία “rios”). Os Sumérios escreviam em placas de argila, que eram depois cozidas para conservar os seus registos. Muitas dessas placas foram descobertas, contendo textos em escrita cuneiforme (literalmente «em forma de cunha», pois consistia numa série de símbolos feitos com uma ponta afiada). Há registos escritos com poemas de amor, tratados de Matemática, Medicina, Astrologia/Astronomia (naqueles tempos não havia distinção entre as duas).

   Em algumas dessas placas, há o registo dos mitos religiosos sumérios. Um deles narra a história de Ziusudra, o rei da cidade de Shuruppak (a moderna cidade iraquiana de Tell Fa’rah, 200 quilómetros a sudoeste de Bagdad). Este rei foi avisado pelo deus sumério Enki que os deuses iam destruir a Humanidade por meio de um dilúvio (a razão para a decisão dos deuses perdeu-se). Enki ordena então a Ziusudra que construa um grande navio (perdeu-se igualmente o que seria embarcado e salvo). Há vestígios arqueológicos de uma grande enchente na região, por volta de 2 750 AC. A história da Arca de Noé surgiu baseada no mito de Ziusudra. O Islamismo baseou-se no Cristianismo e o Cristianismo no Judaísmo. Mas não são geralmente conhecidas as origens do Judaísmo.

   O Monoteísmo ocidental está intrinsecamente ligado ao Médio Oriente. O primeiro registo de um monoteísmo na região surgiu com o Zoroastrismo, fundado por Zaratrusta (cerca de 1 500 AC), conhecido pelos gregos como Zoroastro, no que é agora a parte oriental do Irão e a parte ocidental do Afeganistão, a Terra dos Medos, conhecida como Média e habitada por um povo de origem ariana (que não eram nem louros nem de olhos azuis mas falavam uma língua indo-europeia) conhecido como os Medos. O Império dos Medos coexistia com o Império dos Persas, dos Lídios, dos Fenícios e dos Egípcios, todos mais a ocidente. Medos e Persas emigraram, para a região, vindos da Ásia Central, em sensivelmente mil AC. Os Medos instalaram-se no que é agora o norte do actual Irão (com capital na cidade de Ecbátana) e os Persas no que é agora o sul do Irão (com capital na cidade de Persépolis), na actual Fars, uma das trinta províncias do Irão. A proximidade dos dois povos levou a grandes contactos e a casamentos entre as casas reais dos dois (como aconteceria, milhares de anos depois, entre Portugal e Espanha).

   O império cresceu em cultura e ciência. Durante muito tempo, foram politeístas, até que Zaratrusta fundou o Zoroastrismo, o primeiro monoteísmo conhecido. Esta nova religião foi conquistando muitos devotos ao longo do tempo. A máxima do Zoroastrismo era «faz aos outros o que gostavas que te fizessem» e adoravam Ahura Mazda, o Deus Criador. Em 552 AC, Ciro o Grande, de ascendência real persa e meda, subiu ao trono persa que libertou os Judeus dos babilónicos (que os mantinham na Babilónia desde Nabucodonosor II). As suas relações com a Judeia e a Fenícia eram excelentes. Ciro, o Grande, foi o fundador do vasto Império Persa, o maior império terrestre da altura. Foi um descendente de Ciro, o rei persa Dário I (521 AC-486 AC), que reconheceu oficialmente o Zoroastrismo.

   Um dos povos Medos era os Magi (plural de Magus), uma tribo responsável pelos ritos funerários e religiosos. Também os Magi se converteram ao Zoroastrismo e, durante muitos séculos, foram aprofundando os seus conhecimentos astronómicos, religiosos e científicos. Foi de Magi que evolui a palavra «mago» e as vestes tradicionais dos Magi (o chapéu alto e pontiagudo e as roupas longas e largas) tornaram-se as vestes tradicionalmente associadas aos feiticeiros (como, por exemplo, o mítico Merlim do Rei Artur). As semi-luas e estrelas são uma referência aos extensos estudos astronómicos dos Magi. Foram 3 homens da tribo Magi que, segundo a Bíblia, estudaram os céus e visitaram Jesus no seu berço. Por isso são designados «3 Reis Magos».

  Os 3 Reis Magos estão enterrados, em sarcófagos de ouro, na Catedral de Colónia, na Alemanha. Em 1164, o Arcebispo da cidade comprou estas «relíquias sagradas» e colocado-as na Catedral, construída para os receber. A Catedral de Colónia tem uma estrela no seu topo (em vez de uma cruz) e o brasão da cidade tem 3 coroas em honra das ossadas dos 3 Reis Magos lá enterrados.

   Na mesmo altura em que Zoroastro pregava na Pérsia, no reino vizinho do Egipto, a classe sacerdotal passava por grandes mudanças. O Faraó Amen-hotep III (1389AC – 1351AC) decidira limitar o poder dos sacerdotes de Amon, a principal divindade egípcia. Em vez de se declarar «filho do Amon», este faraó declarou-se «filho de Aton». Apesar de serem ambas divindades ligadas ao sol, Amon era uma figura com aspecto humano, enquanto Aton era simplesmente o disco solar. A diferença poderá parecer pouca aos olhos modernos, mas a decisão do Faraó levou a grandes conflitos sociais. Quando Amen-hotep III morreu, subiu ao trono o seu filho Amen-hotep IV. Este era fortemente adepto de «Aton», tendo levado ao extremo o afastamento da classe sacerdotal de Amon. Mudou o seu nome para Akenaton «O que trabalha por Aton» e fundou o Atonismo (ou Atenismo), o culto a Aton (ou Aten. Os Egípcios não tinham vogais, pelo que é uma questão especulativa se seria um «o» ou um «e»). A principal esposa de Akenaton era Nefirtiti «A beleza que chegou», de quem teve 6 filhas. Teve também outras esposas, de quem teve mais filhos. De uma dessas esposas teve um herdeiro, a quem deu o nome de Tutankaton «Imagem viva de Aton». Este, após a morte do pai, restabeleceu o culto a Amon, os privilégios da antiga classe sacerdotal e mudou o nome para Tutankamon «Imagem viva de Amon». Fez todas estas alterações com apenas 9 anos, tendo morrido com 19 anos, o que indicia manipulação por parte de outros, nomeadamente pelo antigo vizir do pai, de nome «Ay» e que o sucedeu como Faraó. A máscara funerária de Tutankamon está cravejada de lápis-lazuli, que deu o nome à cor azul como visto no artigo Palavras coloridas

  O Judaísmo terá assim sido duas influências monoteístas: o Zoroastrismo persa e o Atonismo egípcio. Amenhotep III fundou as bases do Atonismo entre 1389 AC a 1351 AC. Zaratrustra fundou as bases do Zoroastrismo em cerca de 1 200 AC. O Zoroastrismo terá influenciado os Judeus que viviam na escravidão na Babilónia, desde 587 AC. Foi depois levada para a Judeia, após serem libertados (em 539 AC) por Círo, o Grande. Além disso, o Atonismo terá influenciado os seus vizinhos Judeus (há várias passagens, no Antigo Testamento, que são cópias exatas dos textos religiosos «atónicos»: o Cântico dos Cânticos é textualmente uma prece do Atonismo a Aton, com o nome deste último mudado para Jeová ou para Deus). Apesar dos cálculos baseados na Bíblia datarem Abraão em cerca de 1 800 AC, evidências arqueológicas sugerem que não poderá ter surgido antes de 650 AC. De qualquer maneira, seguramente o Zoroastrismo e o Atonismo deixaram as suas perenes marcas no Judaísmo, através dele no Cristianismo e através dos dois no Islamismo.

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