42. Lágrima do Leão

As armas e os barões assinalados

Que, da ocidental praia lusitana,

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana, (…)

   Quem seja lusófono (215 milhões no Mundo inteiro. Ver o artigo Palavras coloridas para mais sobre a Língua Portuguesa) ter-se-á já cruzado com estas estrofes iniciais d’Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. A muitos terá ficado a questão de saber o que é ou o que foi exatamente a «Taprobana». Alguma cidade mitológica? Algum monstro marinho rival do Adamastor? Um continente? Uma ilha? Um rei? Uma nação? Uma cidade?

   A Taprobana é uma ilha, com a forma apropriadamente de uma lágrima. Esta ilha é conhecida desde a Pré-História: 2 mil e 500 anos de História (escrita, portanto, que antes da invenção da escrita é Pré-História) e cerca de 125 mil anos de Pré-História. Curiosamente, esta ilha é vista como o berço da Humanidade pelas 3 principais religiões monoteístas do Mundo. Pensa-se geralmente em Jerusalém como o local considerado sagrado por 3 religiões diferentes. No entanto, nesta ilha, existe um monte considerado sagrado por 4 religiões diferentes: o Judaísmo (ver o artigo Os Medos dos Magos para as origens do Judaísmo), o Cristianismo, o Islamismo e o Budismo. Nesse monte (conhecido como «Sri Pada» ou «Pico de Adão») existe uma pegada (de um pé esquerdo) que as 3 religiões monoteístas consideram como sendo a pegada do primeiro Homem (Adão para as 3) e, para o Budismo, é a pegada deixada por Buda quando ascendeu aos Céus. Durante milhares de anos a ilha foi governada pelos seus habitantes. Uma das dinastias, a Dinastia Sinha, governou 2 mil anos, e a ilha foi conhecida durante muito tempo como Sinhala. No século 3 AC, um geógrafo grego de nome Megástenes viajou por toda a Índia, descrevendo a Cordilheira dos Himalaias e uma grande ilha, existente a sudoeste do continente indiano, a que Megástenes deu o nome de Taprobanê (do nome indiano «Tâmraparnî», que significa «Folha de Cor de Cobre», devido à vegetação da ilha).

   Quando os Portugueses lá chegaram (em 1506), na sequência de uma tempestade no mar, encontraram uma ilha dividida em (pelo menos) 4 reinos principais: Kotte, o mais importante e aonde aportaram os barcos portugueses, Sitawaka, Kandy (no centro montanhoso da ilha) e Jaffna (no norte da ilha). A expedição portuguesa era liderada por Lourenço de Almeida, filho do primeiro Vice-rei da Índia, Francisco de Almeida e deixou, no porto da cidade que encontraram (a actual Colombo, capital financeira da ilha, vizinha da capital administrativa, Kotte) o típico Padrão que os nossos navegadores deixavam nas praias desconhecidas a que aportavam. Alguns anos depois, o terceiro Vice-rei português, Lopo Soares de Albergaria, enviou um grande contingente militar, dando início à conquista da maior parte da ilha. A conversão dos nativos da ilha à religião católica e repressão da religião budista começou também (e, ainda hoje, muito depois da presença portuguesa na ilha, 3% da população é católica e tem nomes portugueses próprios e de família). Os Portugueses chamaram à ilha Ceilão, nome derivado de Sinhala, o nome que os habitantes locais davam à ilha (em consequência da dinastia bimilenar Sinha, como visto acima). Camões, quando escreveu os Lusíadas, recorreu à designação da Antiguidade Clássica grega, chamando à ilha Taprobana. Um dos nomes pelo qual a ilha é também designada, oficiosamente, é «A lágrima da Índia», devido à sua forma e localização.

 A ilha foi sendo progressivamente colocada sob domínio português até que, aquando da união dinástica das coroas portuguesa e espanhola (como consequência da derrota de D. Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir), os inimigos da coroa espanhola passaram a ser inimigos da coroa portuguesa. Além dos ingleses, um outro acérrimo inimigo dos espanhóis (e consequentemente dos portugueses sob domínio filipino) era o povo holandês. Durante o reinado de Filipe (I de Portugal e II de Espanha), os holandeses revoltaram-se contra o domínio espanhol, eventualmente conquistando a sua independência. Em consequência da guerra Hispano-Holandesa, as possessões ultramarinas dos espanhóis (incluindo as portuguesas) passaram a ser atacadas pelos navios holandeses (e também ingleses), em especial da Companhia Holandesa das Índias Orientais (em holandês “Vereenigde Oost-Indische Compagnie” ou VOC).

   Ceilão tornou-se um dos alvos militares dos Holandeses. A ilha, desde que os Filipes governavam Portugal, passou a viver num estado de anarquia e violência, devido a negligência. Por isso, a presença holandesa foi acolhida com agrado pelos habitantes de Ceilão. Estes, em 1638, assinaram com os holandeses o Tratado de Kandi, que dava a esta nação europeia o título de protectora da ilha. A guerra entre os Portugueses e os Holandeses (que durou de 1588 a 1654) passou a incluir o Reino da Kandi. Eventualmente, a presença portuguesa na ilha terminou e os Holandeses passaram a dominar a ilha, até 1798 (quando a ilha foi integrada no Império Britânico). Na Guerra Luso-Holandesa, os Portugueses saíram vitoriosos nas Américas e em África (apesar das temporárias conquistas holandesas no Brasil) mas os Holandeses saíram vitoriosos na Ásia, com a Indonésia e Ceilão (e Nagasaki no Japão) a ficarem sob domínio exclusivo holandês.

   Ao longo dos sucessivos impérios europeus na ilha (Português, Holandês e Britânico) a ilha foi chamada de Ceilão e depois por Ceylon. Em 1948, a ilha ganhou a sua independência dos ingleses, em consequência do fim da II.ª Guerra Mundial (3 anos antes). Em 1972, mudou o seu nome para Sri Lanka (que, em sânscrito, significa «ilha resplandecente»). Hoje a ilha, com perto de 67 quilómetros quadrados, tem 20 milhões de habitantes, é cultural e religiosamente diversificada (devido ao seu passado colonial) e é um popular destino de férias, devido também ao seu clima e geografia.

   Uma das exportações mais conhecidas do Sri Lanka é o «Chá de Ceilão». O inglês James Taylor (1835-1892) introduziu o cultivo do chá na ilha em 1852. Comprou um terreno de 310 metros quadrados e fez a primeira plantação de chá na ilha. Um outro inglês, Thomas Lipton visitou a ilha e passou a vender o chá de Taylor na Europa e América. O chá é ainda hoje conhecido como Chá de Ceilão (o nome da ilha quando Taylor e Lipton iniciaram a sua comercialização), apesar do nome da ilha ter mudado para Sri Lanka.

   Hoje, a bandeira da ilha é uma das mais curiosas do Mundo, com um leão (o povo da ilha) dourado armado com uma espada na pata direita (a soberania da ilha), num fundo vermelho com quatro folhas de figueira Ficus Religiosa em cada canto (representando a influência budista). A toda a volta tem uma faixa amarela (o clero budista) e, à esquerda, duas faixas verticais, de tamanho igual, verde (a fé islâmica) e amarelo-açafrão (a etnia tamil, predominante na ilha). A espécie Ficus Religiosa é diferente da dos figos geralmente consumidos em Portugal. Estes são da espécie Ficus Carica. Um outra espécie conhecida de figos, a Árvore da Borracha (Ficus Elastica) é uma das árvores usadas para produzir borrachalátex.

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