45. Egipcianos errantes

   Um dos povos mais antigos com os quais os Portugueses contactaram e com os quais convivem é ainda mal compreendido, rejeitado, alvo de desconfianças e de más-vontades.  Este povo é tão paciente muitos se alarmam quando algo se noticia sobre eles. Isto só demonstra quão pouco frequentes são as suas ações negativas (que também as têm, ou não fossem membros da espécie humana).

   Quando chegaram a Portugal, corria o século XV (cerca de 1425), já lá vão 700 anos. Esta é a História do povo Cigano, a etnia não originária de Portugal mais antiga que cá vive. E a sua história, costumes, crenças, dificuldades, sonhos e esperanças. Como povo, tem-se revelado, ao longo da sua história, resistentes, sobreviventes e orgulhosos das suas tradições e costumes (apesar das perseguições sistemáticas ao longo da sua história e à perda da sua cultura e língua por aculturação aos países onde se foram instalando).

   O povo a que se chama Cigano em Portugal e Brasil (e Gitano em Espanha) pertence a uma etnia mais vasta, denominada Rom (substantivo singular) ou Roma (substantivo plural) ou Romani (adjetivo). Dessa etnia fazem parte ainda os Garachi (Azerbaijão), Kalderach (Balcãs e Europa Central), Romnichal (Grã-Bretanha e América do Norte) e os Sinti (Alemanha, Áustria e Itália). Do povo cigano fazem parte algumas individualidades que se têm destacado no Mundo. Alguns dos mais conhecidos incluem o grupo musical Gipsy Kings (banda musical de França que canta em espanhol), Joaquin Cortés (dançarino espanhol) ou Ricardo Quaresma (futebolista de Portugal), só para mencionar alguns dos membros da etnia cigana dos Roma da península. Na ficção, quem pode esquecer Esmeralda, a amada de Quasímodo?

   O povo Roma está espalhado por todos os continentes. A tabela seguinte apresenta a população Romani nos 20 países com maior número, bem como a sua percentagem face ao total da população. Os Estados Unidos são o país com maior número de Roma mas a percentagem no todo da população é pequena. Portugal e Brasil têm sensivelmente a mesma percentagem da etnia cigana na sua população: Portugal tem, em números absolutos menos ciganos e menos população e os dois números equilibram-se. Espanha tem uma maior percentagem  de ciganos mas menor número absoluto do que o Brasil.

   Apesar da semelhança, o povo Roma não emprestou o seu nome ao país Roménia (que deriva o seu nome directamente dos Romanos e o seu império, como visto no artigo Quinta flor do Lácio). Há uma razão concreta para que os Roma (Rom no singular) existentes na península ibérica sejam chamados Ciganos, e tem a ver com a sua origem, viagens e o julgamento apressado de que foram alvo. De onde é o povo Roma originário (que depois deu origem às etnias atuais) tem sido revelado por recentes testes genéticos. Antes de chegar à Europa, veio do norte da Índia mas se foi de lá que primeiro vieram se foi mais um dos seus locais de passagem ainda é matéria de discórdia, sendo que a opinião mais generalizada é que são oriundos da Índia mesmo.

   A análise da língua romani (realizada desde o século XV) indica que serão originários do Paquistão (antiga parte norte da Índia maioritariamente de religião muçulmana que se tornou independente em 1952). Para mais sobre os muçulmanos ou sobre os povos que conviveram com os Roma ver o artigo Os Medos dos Magos que fala sobre um povo da Pérsia, os Medos, e os Reis Magos e o artigo Península de Ismael sobre os diversos nomes pelos quais são chamados os povos muçulmanos na História de Portugal.

   Esse território, tradicionalmente budista, foi conquistado, no ano 712, pelos muçulmanos, tendo a religião islâmica aí se propagado. O povo Roma eram habitantes dessa região e acabaram por fugir, por volta do século XI (especula-se que tenham sido levados, como escravos, pelos invasores muçulmanos, para a Pérsia no Médio Oriente). No século XIV, surge a primeira referência escrita a um povo de tez escura (chamados «Atsingani») que vivia na ilha de Creta. Em 1360, há o registo da criação de um importante reino Romani na ilha de Corfu (entre a Grécia e a Itália). No século XIV, os Roma alcançaram os Balcãs e, em 1424 a Alemanha. Alguns Roma vieram diretamente da Pérsia, pelo Norte de África e entraram na Península Ibérica no século XV e tornaram-se os Ciganos que todos conhecem. Quando os Roma alcançaram a Europa através da Península Ibérica, o seu anterior estatuto de aliados comerciais mudou radicalmente. Por exemplo, durante 5 séculos (até 1864), os Roma foram escravizados nos principados de Valáquia, Moldávia e Transilvânia, até os três terem sido fundidos na actual Roménia, em 1860 (ver o artigo Quinta Flor do Lácio).

   Na península ibérica foram, desde a sua chegada, no século XV, encarados com desconfiança e o nome «cigano» tinha conotações negativas. a primeira legislação anti-cigana ibérica data de 1492, o mesmo ano em que Colombo chegou à América e Granada foi finalmente conquistada as Mouros. Aquando da chegada à península e tendo em conta a sua tez morena e o facto de virem do nordeste da África, levou a que as pessoas pensassem que vinham do Egipto, pelo que eram designados por Egipcianos. O nome «egipciano» foi mudando a par da evolução das línguas, dando origem ao gitano espanhol, ao cigano português, ao Tsiganes francês e ao gipsy inglês, nomes pelos quais este povo Roma é ainda designado nesses países. Na Rússia, Catarina a Grande (1729-1796), tinha declarado os Roma escravos imperiais e, no Sacro Império Germânico (que inclui a actual Alemanha, Áustria e Europa de Leste) os Roma foram simplesmente banidos. Ambas estas atitudes discriminatórias viriam a dar origem à perseguição, no século XX, do povo romani pelos Soviéticos e pelos Nazis. Os Roma residentes nos países conquistados pelo exército nazi foram perseguidos, enviados para campos de concentração e assassinados em grande escala, num total de mais de 500 mil. Os Roma foram o segundo povo que mais sofreu às mãos nazis, depois dos Judeus. Após a II.ª Guerra Mundial, as tradições culturas romani foram proibidas nos países ocupados pelos soviéticos e os Roma foram perseguidos).

 Entretanto, os Roma sobreviveram e prosperaram (estima-se uma taxa de natalidade de 5% entre os Ciganos). Ao contrário da etnia Kalderach, da Europa de Leste, os Ciganos não são nómadas, não são tão pobres e a maioria (pelo menos em Portugal) dedica-se à venda em feiras. Apesar disso, cerca 25% das reclusas em Espanha (e uma percentagem de que não tenho números em Portugal) são de etnia cigana, principalmente devido ao tráfico de droga… A influência cultural dos Ciganos na cultura ibérica é geralmente desconhecida e/ou desvalorizada. A mais conhecida é a dança da Andaluzia chamada «Flamengo». Esta é uma dança com raízes nos Roma Ciganos que viviam nesse reino (na altura mouro) e o seu nome vem da frase «fellah mengu» que significa «camponês sem terra», o que caracterizava o povo cigano da altura. Uma outra influência, desta vez na linguagem popular portuguesa, tem a ver com a palavra «gajo».

   O povo cigano adaptou a religião católica existente e fala a língua do país que habita, com algumas palavras do Romani. Assim, designam-se a si mesmos como «Rom» ou «Calé» (cigano) e a quem não é como «Gaje» (não-cigano). Portanto, o generalizado uso de «gajo/gaja» no vocabulário popular português vem desses nossos antiquíssimos vizinhos. E isto para falar de algumas influências mais directas, uma vez que serviram de inspiração a muitos artistas europeus, de pintores a músicos a escritores…

   Para um interessante estudo social dos Ciganos em Portugal ver a página Janus 2001 – A etnia cigana em Portugal. Para se ter uma ideia da complexidade da língua Romani, eis a palavra phral que significa «irmão», nos 8 casos das suas declinações: > nominativo: phrala (irmãos) > genitivo: phralengo (dos irmãos) > dativo: phralenge (para os irmãos) > acusativo: phralem (os irmãos) > vocativo: phralale (irmãos!) > ablativo: phralendar (dos irmãos) > locativo: phraleste (para os irmãos) > instrumental: phralentsa (com os irmãos) Por comparação, uma língua tão complexa como o Latim tem meramente 6 casos…

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