46. Conflitos teclados

   A sociedade tecnológica em que hoje vivemos assenta em teclados como forma de interação entre máquinas e pessoas. Para além dos computadores há também telefones, calculadoras ou os  caixas-multibanco (sim, é masculino, poque fazem as tarefas dos caixas bancários que atendem nos bancos. É mais uma das palavras portuguesas masculinas terminadas em “a” como “polícia” ou “poeta”) . E há dois diferentes tipos de teclado que servem  cada uma delas. Ambos estão dispostos numa grelha 3×3+1 com o 0 em baixo mas o teclado para calculadoras começa de baixo para cima e os telefones de cima para baixo.

   É estranho que dois teclados que servem para o mesmo efeito e são visualmente semelhantes distribuam os números de forma tão diferente. As razões para isso envolvem a história do seu desenvolvimento, mecanismo de funcionamento e ajuste na determinação da configuração mais adequada para cada um. As calculadoras mecânicas foram as primeiras a ser criadas. No século XVII (e após tentativas fracassadas suas e de outros inventores), Blaise Pascal criou e comercializou a sua Pascalina, a primeira máquina de calcular vendida ao público (50 foram vendidas) e utilizada em ambiente de escritório (o do seu pai). Mas ainda não havia o teclado que agora se reconhece (criado nos anos 50 do século XX).

   Entretanto, em 1876, Alexander Graham Bell criou uma empresa para vender telefones (que tinha sido inventado, alguns anos antes, pelo italiano Antonio Meucci, que vendeu a patente a Bell). O aparelho consistia em  um microfone para falar, um auscultador para ouvir, uma campainha para avisar de uma nova chamada recebida e um mecanismo de introdução dos números. Durante um século, este mecanismo consistia numa roda com números de 1 a 10 (apesar de aparecer como 0). Quando se levantava o auscultador, um som contínuo era ouvido, indicando que havia linha. Quando se colocava o dedo num número e se puxava a roda esta, ao voltar à posição inicial, interrompia momentaneamente o sinal por cada  número que passava: o 1 interrompia uma vez, o 5 interrompia 5 vezes (uma para o 5, uma para o 4, uma para o 3, uma para o 2 e uma para o 1), o 0 interrompia o sinal 10 vezes (uma para cada número que atravessava),… Esta é a razão pela qual o 0 vinha depois do 9.

   Mas, na década de 50 o século 20, já havia teclados numéricos e as calculadoras e os telefones apressaram-se a adotar a nova tecnologia. A empresa americana Bell Labs (a mesma que Bell tinha fundado um século antes) alterou a tecnologia de introdução dos números de telefone para uso de teclas e fez extensas pesquisas para determinar qual a melhor forma de apresentar os números e a empresa japonesa Canon apresentou, em 1967, a primeira calculadora com o teclado de 10 dígitos que conhecemos hoje (a empresa Sharp comercializou primeiro a sua própria calculadora e décadas de guerras comerciais entre as duas foram desenvolvendo calculadoras cada vez mais fina, poderosas e leves). Pareceu ser lógico aos engenheiros  que conceberam o novo teclado colocar os números por ordem numérica, em que quanto mais longe o número fica da mão maior o seu valor.

  Entretanto, os Laboratórios Bell decidiram verificar qual a melhor forma de colocar as teclas numéricas no telefone, já que tinham a possibilidade de inovar e encontrar  a melhor alternativa. Começaram por colocar os números na mesma posição que ocupavam no mecanismo de rotação anterior. Várias possibilidades foram testadas junto de vários voluntários, tendo sido registado o rapidez de marcação de um número, os erros cometidos, a configuração mais apreciada e a configuração menos apreciada para cada voluntário e para cada modelo. No fim, ficaram com 5 modelos possíveis e os dados que recolheram:

   O modelo mais rápido foi o de barra vertical, o com menos erros na marcação e o menos apreciado foi o de barra horizontal, o mais apreciado foi o modelo igual ao de mecanismo de rotação. Com resultados tão extremados, optaram pela grelha 3×3+1 que conhecemos hoje, a opção menos controversa. Presentemente, parece óbvio que essa é a melhor forma de colocar os números no teclado de um telemóvel mas é assim pelo hábito. No início, parecia mais bonito o igual ao anterior mecanismo de rotação

   Esta situação faz lembrar a situação com o melhor tamanho para uma folha de papel. Agora o tamanho A4 parece o ideal mas, durante muito tempo, as proporções do retângulo de ouro lideraram as preferências das pessoas, como visto no artigo Razão de Prata.

   Os caixas multibanco seguem a mesma distribuição numérica que as calculadoras uma vez que a questão da rapidez de uso não é afetada pela escolha do crescendo numérico e os bancos e os utilizadores estão mais familiarizados com o uso de calculadoras para tratar de questões financeiras. Esta foi a principal razão porque as calculadoras mecânicas foram desenvolvidas e a Máquina de Calcular de Pascal teve o seu primeiro uso no escritório do seu pai para auxiliar nas questões financeiras e de impostos.

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