49. Nagasaki: Japão português

   Portugal, nos séculos XV e XVI, apresentou o vasto Mundo a uma Europa exausta por sucessivas guerras e ignorante das miríades de povos e de Terras que se estendiam para lá das suas fronteiras. Uma dessas terras era o Japão, o país-arquipélago para lá da China (que foi visitada pelo mercador veneziano Marco Polo no fim do século XIII). Os Portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar às ilhas e quem apresentou a um Japão mergulhado em guerras civis as armas de fogo, dando origem a uma cadeia de acontecimentos que culminaria na militarização e na participação nipónica na II.ª Guerra Mundial.

   É verdade que a derrota na II.ª Guerra Mundial e a ocupação militar americana são os maiores fatores de ocidentalização do Japão moderno. Mas Portugal tem a sua enorme quota-parte no progresso económico e tecnológico do Japão. É necessário ver um pouco de História para compreender como: O Japão («日本» Nipon/Nihon (geralmente traduzido por Terra do Sol nascente) é um país da Ásia, no Pacífico, ao lado da China continental, composto por 6 800 ilhas. Até ao século XVI, o país viveu isolado do Mundo, conhecendo e comercializando apenas com os seus vizinhos China e Coreia. Em 1542, chegaram, ao Japão, navegadores portugueses, após um acidental desembarque, dando origem ao Período Nanban («nanban» significa bárbaro ocidental em japonês).

   Os Portugueses deixaram várias marcas no Japão: construíram, na vila em que desembarcaram, um porto e introduziram no Japão os mosquetes (com que os 3 Grandes senhores da guerra da altura se passaram a combater-se, pondo fim ao importância dos samurais na guerra); a religião católica: o missionário Francisco Xavier desembarcou, no Japão, em 1549, e partiu para a China, em 1551, onde morreria e deixaria nome, para converter a população; além disso, introduziram os panados (alimentos cobertos de pão ralado e depois fritos). Ainda hoje, um prato muito apreciado no Japão é a tempora (do português “tempero”), um panado de vegetais e marisco criado na altura. Introduziram também o tabaco e o pão-de-ló, ainda muito apreciado no Japão e designado por kasutera «カステラ» (bolo japonês feito à base de açúcar, farinha, ovos e xarope de milho),  uma especialidade da cidade de Nagasaki. Há também várias palavras japonesas com origem no Português: arukōru アルコール álcool; bīdama ビー玉 berlindes; bīdoro ビードロ vidro; birōdo ビロ; ード veludo; bōro ぼうろ bolo; botan ボタン botãofurasuko フラスコ frasco; jōro じょうろ jarro; kappa 合羽 capa (de chuva)karuta かるた carta (de jogar); koppu コップ copo; kyarameru キャラメル caramelo; manto マント manto; orugan オルガン órgão;  pan パン pão; shabon シャボン sabãotabako タバコ tabaco. Apesar da sua semelhança fonética e de significado, «arigatō» e «obrigado» não estão relacionadas, havendo registos escritos datadas do século VIII (bem antes do contacto com os portugueses no século XVI) do uso da palavra no Japão.


   
A vila onde os Portugueses desembarcaram e onde depois construíram um porto (e tornaram cosmopolita) chamava-se Nagasaki (por isso é de lá o pão-de-ló japonês). A vila, fundada um século antes, no século XV, era de pouca importância até à data, apesar do seu excelente porto natural ser bastante favorável a actividades navais. A vila (agora cidade, ainda que pequena e com poucos recursos) de Nagasaki長崎市», literalmente península longa devido ao supracitado porto de pesca) tornou-se depois a base natural para o povo que foi a némesis naval e cultural de Portugal, bem mais do que os Espanhóis: os Holandeses (como visto no artigo Portugal: Império perdido). Quem é de Aveiro não deixará de reconhecer a prefeitura de Ōita (大分) na zona oeste da ilha… Onde estiveram os Portugueses, os Holandeses sempre se meteram depois, do Brasil à Indonésia. Mas, nessa altura, a vila tinha influência portuguesa e todas as trocas comerciais portuguesas eram através desse porto de construção portuguesa. O aparente desaparecimento da cultura portuguesa no Japão é ilusório: há as temporas, o kasutera e há ainda o Festival (Kunchi) de Nagasaki, onde ainda hoje é encenada a chegada dos Portugueses…

   Foi Portugal que abriu o Japão ao Mundo e o introduziu às armas de fogo ocidentais. Desde essa altura, a ambição militar de um Japão entretanto unificado e sem o domínio militar dos shoguns e seus samurais, cresceu continuamente. Em 1904-1905, a nação nipónica teve oportunidade de mostrar ao Mundo até onde se tinha desenvolvido. Na guerra russo-japonesa (1904-1905), os interesses japoneses e russos chocaram na regiões da Coreia e da Manchúria, tendo os japoneses facilmente derrotado a armada russa enviada para estabelecer o domínio russo. O culminar dessa ambição foi a expansão territorial japonesa para a Coreia, China e ilhas do Pacífico em meados do século XX. Tal expansão levou o país a entrar em conflito com os interesses americanos na região e conduziria-o ao ataque surpresa de Pearl Harbour no Hawaii, o que por sua vez levou à entrada, na II.ª Guerra Mundial, dos EUA e ao confronto, subsequente derrota e ocupação militar às mãos dos nanban americanos. Os Japoneses sempre foram um povo extremamente orgulhoso e uma invasão americana das ilhas teria custado a vida de milhares de tropas americanas (além da ameaça comunista de invasão do Japão, inaceitável para os EUA). Perante isso, os Americanos usaram uma novíssima arma para derrotar os japoneses sem o custo de milhares de soldados: a bomba atómica. Foram lançadas duas bombas atómicas (as únicas até hoje usadas num teatro de guerra): lançaram, a 6 de Agosto de 1945, a bomba de urânio Little boy sobre a cidade de Hiroxima, a partir do bombardeiro Enola Gay (o nome da mãe do comandante do avião) e, a 9 de Agosto, a bomba de plutónio Fat man sobre a cidade de Nagasaki, a partir do bombardeiro Bockscar. Foi dado ao bombardeiro o nome do seu comandante, de sobrenome Bocks. Como brincadeira, e tendo em conta a «mercadoria» que ele entregou aos habitantes da cidade, foi alcunhado de «Bockscar». «Boxcar» é a designação dos vagões de mercadorias dos comboios americanos, autênticas «caixas» de metal com portas laterais. A bomba de Nagasaki causou menos destruição do que a de Hiroxima, apesar da de Nagasaki ser mais potente. Na verdade, a cidade de Nagasaki não tinha sido a escolhida para o bombardeamento atómico porque a sua geografia atenuaria (como de facto o fez) os seus efeitos. Nagasaki era um alvo secundário para o ataque nuclear, uma segunda escolha caso a primeira não desse certo. Outra cidade (Kokura, mais a norte) foi a escolhida e para ela se deslocou o Bockscar no dia 9 de Agosto. Mas, nesse dia, sobre a cidade, o céu estava muito nublado e sem condições propícias ao lançamento. Por isso, após 3 aproximações infrutíferas à cidade, o bombardeiro deslocou-se para o alvo secundário, Nagasaki. Foi o tempo meteorológico e não o cronológico que quase fez desaparecer a presença portuguesa no Japão.  

   Os monótonos nomes dos dias da semana em Português, em oposição aos de outras línguas europeias. Mas é bom realçar que os meses japoneses sofrem da mesma monotonia de construção que os dias portugueses: Janeiro é o Primeiro mês, Fevereiro, o Segundo mês,… e assim até Dezembro, o Décimo segundo mês. O nome de cada mês começa pelo ordinal correspondente (1, 2, 3, …, 11, 12) seguido do sufixo gatsu 月 «mês». Assim, Janeiro é 一月 (ichigatsu); Fevereiro é 二月 (nigatsu); Março é 三月 (sangatsu); Abril é 四月 (shigatsu); Maio é 五月 (gogatsu); Junho é 六月 (rokugatsu); Julho é 七月 (shichigatsu); Agosto é 八月 (hachigatsu); Setembro é 九月 (kugatsu); Outubro é 十月 (gatsu); Novembro é 十一月 (júichigatsu); Dezembro é 十二月 (júnigatsu). Mas estes são os nomes modernos. Os nomes tradicionais são mais originais: Janeiro é 睦月 (mutsuki, «mês do afecto»); Fevereiro é 如月 (kisaragi, «mudança de roupa»); Março é 弥生 (yayoi, «nova vida» por ser o início da Primavera); Abril é 卯月 (uzuki, «mês da lebre»); Maio é 皐月 (satsuki, «mês rápido»); Junho é 水無月 (minatsuki, «mês sem água»); Julho é 文月 (fumizuki, «mês do livro»); Agosto é 葉月 (hazuki, «mês da folha da árvore»); Setembro é 長月 (nagatsuki, «mês longo»); Outubro é 神無月 (kan’nazuki, «mês sem deus»); Novembro é 霜月 (shimotsuki, «mês do gelo»); Dezembro é 師走 (shiwasu, «a corrida dos padres»).

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