50. Ilhas da Bruma

   Uma dúvida que persiste e geralmente recebe uma resposta que, apesar de verosímil, parece não ser mais que um lugar comum desactualizado e incorrecto é a origem do nome do Arquipélago dos Açores: que o nome deriva das aves de rapina de nome açor que existiriam nas ilhas em grande número e que os navegadores avistaram quando lá chegaram.

Mas não há e nunca houve açores (ave) nos Açores (arquipélago), ainda que isto possa parecer paradoxal. Nos Açores há uma ave de rapina a que os açorianos dão o nome de Milhafre ou Queimado (outro nome açoriano para a ave). Mas a ave açoriana não é nem um açor nem um milhafre. Eis as espécies que, sendo parecidas, não são a mesma:

Accipiter gentilis – este é o açor, que só existe em Portugal continental acima do Tejo. É um residente permanente (não faz migrações) pelo que dificilmente teria sido levado por uma tempestade até ao arquipélago.

♦ Buteo buteo – a águia-asa-redonda, que habita Portugal (continente e ilhas) e é cada vez mais rara. Tem como característica a cauda redonda.

      Buteo buteo rothschildi – a ave a que chamam «milhafre» nos Açores mas que é uma subespécie de águia-asa-redonda (como tal é semelhante fisicamente)…

  Na ilha da Madeira existe uma outra subespécie de Águia-de-asa-redonda (Buteo buteo harterti) e as duas não se cruzam.

♦ Accipiter nisus – o gavião, que passa o Inverno em Portugal continental

 

Milvus migrans – o milhafre negro, que tem o corpo castanho, cauda forcada e não redonda e passa pelo interior continental português no Verão.

♦ Milvus milvus – o milhano (ou milhafre real), que tem também a cauda forcada e existe o ano inteiro no continente português a norte do Tejo.

A ave que existe nos Açores é a águia-asa-redonda Buteo buteo rothschildi. Tendo em conta as características físicas das diferentes espécies aqui apresentadas, parece de todo improvável que navegadores experientes, habituados a reconhecer no firmamento constelações e estrelas com as quais se orientavam, tenham confundido duas espécies de aves distintas, sendo ambas comuns nas suas terras de origem (tanto o açor como a águia-asa-redonda), sendo por isso do seu amplo (re)conhecimento. A hipótese da confusão parece altamente improvável. A incorreção do milhafre por parte dos habitantes regionais (que data das primeiras colonizações) é mais compreensível, não tendo muito deles os anos de experiência de observação dos navegadores (que conheciam bem as aves que observavam nos céus, uma vez que as costumavam usar como pontos de referência para a presença de ilhas no mar alto).

   A história da descoberta e povoamento do arquipélago relaciona-se com a figura mais importante dos Descobrimentos Portugueses: o Infante D. Henrique. A mando do príncipe (de quem era muito amigo), o cavaleiro da Ordem de Cristo e comendador de Almorol Gonçalo Velho Cabral, descobriu os Ilhéus das Formigas em 1431 (no seguimento de um primeiro avistamento por Diogo de Silves em 1427) e em 1432 desembarcou nas Ilhas de Santa Maria (a primeira que viu) e São Miguel. Os Açores são constituídos por 9 ilhas divididas em 3 Grupos (Flores e Corvo no Grupo Ocidental, Graciosa, Terceira, São Jorge, Faial e Pico no Grupo Central e São Miguel e Santa Maria no Grupo Oriental).

   Gonçalo Velho Cabral, que nomeou a ilhas que descobriu (menos a Terceira, o Corvo e as Flores, descobertas por Diogo de Teive), era devoto de Nossa Senhora do Açor, santa adorada numa pequena povoação situada em Portugal continental, na Beira Alta, concelho de Celorico da Beira, a freguesia dos Açores. A esta padroeira da freguesia vários milagres são atribuídos («O Açor e o Pagem», «Aparecimento da Senhora ao Rústico da Vaca», «O Filho do Rei Resuscitado» e «Milagre da Batalha da Penhadeira» que se podem ler em Caminhos entrelaçados). Gonçalo Velho Cabral era muito devoto da Nossa Senhora do Açor e, quando foi encarregue da viagem de exploração às ilhas avistadas por Diogo Silves, pediu a protecção à Virgem. Quando descobriu a primeira ilha deu-lhe o nome de Santa Maria, em agradecimento pela descoberta. Ao descobrir as outras ilhas, verificou que era um arquipélago e deu-lhe o nome de Açores, em honra da sua protetora.

Açores é uma das povoações mais antigas da Beira Alta, assim o prova a lápide funerária visigótica epígrafada, do século VIII, que pode ser vista na Capela-mor da Igreja de Nossa Senhora do Açor, venerada pelos cavaleiros medievais do século XII e em cuja honra se celebra anualmente uma romaria no mês de Agosto.

   A questão da quantidade de aves que terá levado ao nomear do arquipélago parece também sem fundamento. A fauna das ilhas não tem sofrido demasiado com as alterações provocadas pelas pessoas (um dos encantos das ilhas açorianas é exactamente a sua natureza incorrupta e luxuriante) pelo que, havendo tal profusão de aves no século XV não seria de esperar uma extinção tão violenta que tivesse quase extinguido uma ave que seria tão abundante. Que os navegadores tenham avistado, de facto, açores em grandes quantidades (e que entretanto se extinguiram nestes 5 séculos) é claramente impossível pois os açores não são aves migratórias, pelo que nunca deixam o continente, enquanto que a águia-de-asa-redonda (o «milhafre» açoriano) é, pelo que podia ter sido arrastado por ventos fortes para o arquipélago, como tantas outras aves o foram. A hipótese de os primeiros descobridores terem visto açores nas ilhas é claramente errada. Que tenham confundido as aves com açores altamente improvável. Que as aves eram em número suficiente para levar os navegadores a batizar as ilhas com esse nome muito difícil de aceitar. Que Gonçalo Velho Cabral tenha chamado o arquipélago de Açores devido ao nome da sua santa claramente compreensível e possível.

   As origens dos nomes das ilhas são: Santa Maria padroeira do descobridor Gonçalo Velho Cabral; São Miguel em honra do santo; São Jorge em honra de outro santo; Graciosa pela vista que se obtinha dela; Pico devido à sua elevada montanha (o ponto mais alto de Portugal, com 2,319 km); Faial estava coberto de densas matas de Faias, ainda hoje abundantes; Corvo despertou especial atenção uma colónia de corvos marinhos de lá; Flores é uma ilha particularmente florida; Terceira por uma razão complexa que nada tem a ver com a ordem pela qual as ilhas foram descobertas. Aquando da descoberta do arquipélago já se conheciam os arquipélagos das Canárias e da Madeira. A novas ilhas eram então conhecidas como Ilhas Terceiras. Uma das ilhas mais importantes do arquipélago era a que continha o porto onde os barcos que faziam os descobrimentos portugueses aportavam para se abastecerem de cereais açorianos. Na altura, o trigo era a principal cultura do arquipélago e alimentava os navegadores dos descobrimentos nas suas longas viagens. Como era nesta ilha que paravam sempre, os navegadores portugueses passaram de dizer que iam às Ilhas Terceiras para passar a dizer que iam à Ilha Terceira. Daí o nome que ficou.

   Acrescento agora uns pequenos reparos que me foram feitos, há alguns anos, via e-mail, a este artigo, por Daniel de Sá (1944-2013). Por lapso, e como se pode comprovar pelo mapa acima mostrado, a Horta foi incluída na origem dos nomes das ilhas açorianas. A Horta não é uma ilha açoriana, é uma cidade da ilha do Faial. Gonçalo Cabral Velho era devoto de Nossa Senhora do Açor, mas não se sabe com exactidão a origem do nome Horta. O nome da flor açoriana hortência deve-se a Nicole-Reine (ou Hortense) Lepaute (1723–1788) astrónoma e matemática francesa que previu o retorno do Cometa Halley quando ainda não se sabia que era um cometa que voltava regularmente, calculou a duração de um eclipse solar e coligiu um catálogo das estrelas então conhecidas. A hortência só foi introduzida nos Açores no século XIX e a ilha das Flores deve o seu nome a outra flor, pequena e amarela, ainda por lá abundante.

   O nome do descobridor do arquipélago dos Açores pode variar de acordo com as fontes usadas ou a sensibilidade de quem as lê. Há quem considere os descobridores dos Açores como o escudeiro de D. Henrique, Diogo de Silves e ainda Diogo de Teive (que descobriu as ilhas do Corvo e das Flores). Mas a importância de Gonçalo Velho Cabral para o estabelecimento português nos Açores é indiscutível. Antes do povoamento das ilhas mandou Gonçalo Velho Cabral, em 1432, introduzir gado miúdo. Após essa introdução, e tendo sido constatado que as ilhas eram seguras porque o gado sobreviveu, começou o povoamento das ilhas das quais foi o primeiro capitão-donatário (embora o povoamento sistemático só tenha começado alguns anos mais tarde – Santa Maria, em 1439, e São Miguel, em 1444). Gaspar Frutuoso, cronista micaelense da 2.ª metade do Século XVI, atribui o descobrimento das 7 ilhas dos Açores (ou seja, as ilhas dos Grupos Oriental e Central) a Gonçalo Velho Cabral. Actualmente, essa teoria é negada por alguns historiadores, que julgam que a ter descoberto alguma ilha do arquipélago, terão sido apenas as ilhas do Grupo Oriental. Nos Açores, segundo os censos mais recentes, há cerca de 250 mil vacas e cerca de 250 mil pessoas…

   Tenho de agradecer a valiosa ajuda de Daniel de Sá que cuja companhia e espírito contagiante pude usufruir aquando da minha estada nos Açores, e que me despertou para este tão repetido e incorreto lugar comum.

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