51. Um por todos

 Durante o reinado de Filipe II de Portugal (III de Espanha) nasceu, em 1611, no palácio de Castelmore, na antiga província francesa da Gasconha (que se situava na fronteira com a Espanha, ao longo dos Pirinéus e que tinha capital na cidade de Auch), um menino a quem foi dado o nome de Charles Ogier de Batz de Castelmore. Nesse ano, era rei de França Luís XIII, o Justo, e a França encontrava-se dividida em 39 províncias (as províncias foram depois, na sequência da Revolução francesa, abolidas e reorganizadas em 100 departamentos em 1790. Sobre outras mudanças revolucionárias, como a tentativa de alterar a própria contagem do tempo, ver Revolução: Tempo decimal). O pai de Charles (de nome Bertrand Batz) morreu a proteger o rei, enquanto chefiava a Guarda Real de Henrique IV, o anterior monarca e pai do actual Luís XIII e avô de Luís XIV. O rei Henrique IV foi alvo de 12 tentativas de assassinato por motivos religiosos durante a sua vida (numa das quais morreu o pai de Charles) até que, em 1610, sucumbiu às facadas de um assassino.

   Vários membros da família Batz-Castelmore fizeram parte da Guarda Real e a sua mãe, Françoise de Montesquiou, Condessa d’Artagnan era oriunda de uma família com bastante influência junto da corte. Como tal, Charles adotou o nome da mãe, d’Artagnan, ao atingir a maioridade, quando se deslocou a Paris no sentido de também fazer parte da Guarda Real, como o pai e os irmãos. Como não tinha qualquer experiência no campo militar, a sua candidatura foi rejeitada. No entanto, Jean-Armand du Peyrer, Conde de Troisville (ou Treville), um grande amigo da família (amigo do tio de D’Artagnan), usou a sua influência política e o jovem ingressou no corpo militar de proteção do Rei.

   Em 1644, ingressou nos Mosqueteiros (que viria, muitos anos depois, a chefiar). Como o nome indica, usavam mosquetes (armas de fogo) e não espadas, como retratado em livros e em filmes. Quando tinha já 40 anos, e o Cardeal Mazarin (que sucedeu  ao famoso Cardeal Richelieu) era o Ministro-Chefe do Rei, Charles Ogier de Batz de Castelmore d’Artagnan conduziu várias missões de espionagem ao serviço do Cardeal. Em 1646, o Cardeal Mazarin dissolveu a Companhia dos Musqueteiros do Rei mas d’Artagnan continou a servir o Cardeal. Devido aos seus valiosos serviços, foi nomeado Governador da recentemente conquistada cidade de Lille, conquistada em 1667 aos Holandeses (que tinham conquistado o Império Português do Oriente, como visto em Portugal: Império Perdido, incluindo o Sri Lanka e Nagasaki). Mas, se devido à sua incompetência ou ao facto de ser um governador de um país ocupado, os habitantes não apreciaram o seu governador e Charles também não era feliz, sonhando voltar à vida militar. Com o continuar da guerra entre a França e a Holanda, Charles conseguiu voltar ao combate. A 24 de Junho de 1673, Luís XIV ordenou o Cerco a Maastricht e o Tenente-Capitão Charles Ogier de Batz de Castelmore d’Artagnan liderou as tropas francesas. No dia seguinte, a 25 de Junho de 1673, foi atingido no pescoço por uma bala de mosquete.
   Mas, na altura em que Charles nasceu, o Ministro-Chefe do Rei era Armand Jean du Plessis. Armand teve uma carreira política meteórica: estudou Filosofia e, mais tarde, planeou entrar na vida militar. Devido a problemas financeiros (a família Plessis tinha-se apropriado de dinheiro enquanto geriam o Bispado de Luçon), teve de se tornar um clérigo para apaziguar a indignação religiosa. Mais tarde, em 1607, foi ordenado bispo e, em 1616, tornou-se Secretário-de-Estado do Rei. Em 1622, tornou-se cardeal e, em 1624, tonou-se Ministro-Chefe do Rei. Armand tinha dois irmãos mais velhos e os três nasceram em Paris. Entretanto, a sua família mudou-se para a antiga província de Tourrine (já então rebaptizada como Richelieu), onde o pai exerceu um importante cargo político. Richelieu é uma cidade situada a 50 quilómetros de Tours e a 30 quilómetros de Descartes, cidade natal do filósofo René Descartes. Artagnan é uma pequena povoação, perto da fronteira com a Espanha, com cerca de 430 habitantes.

Assim, enquanto Charles Ogier de Batz de Castelmore d’Artagnan se encaminhava para Paris para servir na Guarda Real do Rei, Armand Jean du Plessis era Cardeal de Richelieu e Ministro-Chefe do Rei e Portugal vivia em plena Dinastia Filipina, aguardando a Restauração, (que viria a acontecer alguns anos depois, em 1640.)              

A história factual de Charles Ogier de Batz de Castelmore d’Artagnan e de Armand Jean du Plessis parecerá familiar, o que é bastante razoável, pois a história de Charles e de Armand inspirou uma bem conhecida história literária: Os 3 Mosqueteiros. A obra de Alexandre Dumas pai, foi integralmente inspirada no percurso de vida de Charles Ogier de Batz de Castelmore d’Artagnan. Charles eventualmente tornou-se chefe d’A Guarda Real (conhecidos como os Mosqueteiros do Rei) e também conde de Artagnan. O Corpo de Mosqueteiros da Casa Real do Rei da França foi fundado em 1622, quando o Rei Luís XIII forneceu mosquetes a uma companhia da Cavalaria Ligeira. Durante 7 anos, os Mosqueteiros estiveram sobre o comando do Capitão-Tenente da Cavalaria Ligeira, até que, em 1634, é nomeado, como Capitão dos Mosqueteiros, Jean-Armand du Peyrer, conde de Trèville. Apenas os homens mais valorosos que pertenciam à Guarda Real podiam ser admitidos para o Corpo dos Mosqueteiros do Rei, como uma promoção, pois tratava-se de um Corpo Militar de Elite. Os Mosqueteiros combatiam a pé ou a cavalo e com mosquetes. Em 1646, o sucessor do Cardeal Richelieu, o Cardeal Mazarin, dissolveu os Mosqueteiros. Entretanto, o Cardeal morreu (1661) e o Rei Luís XIV ressuscitou a Companhia de Mosqueteiros em 1664, usando como modelo os Mosqueteiros iniciais. Ao longo dos anos foram sucessivamente dissolvidos e recriados, até que foram definitivamente dissolvidos a 1 de Janeiro de 1816.

Muitos dos eventos relatados no livro de Alexandre Dumas pai são os acontecimentos romanceados da vida do conde D’Artagnan e da primeira Companhia de Mosqueteiros. Alexandre Dumas pai escreveu três livros sobre a vida do conde D’Artagnan: ao primeiro, publicado em 1844, chamou «Os 3 Mosqueteiros», ao segundo chamou «Vinte anos depois» e, ao terceiro, chamou «O Visconde de Bragelonne». Alexandre Dumas pai afirmou que tinha baseado as suas aventuras em manuscritos que encontrou na Biblioteca Nacional da França (fundada em 1461), em Paris, que contavam a vida do conde D’Artagnan. Mais tarde foi provado que, na verdade, Dumas baseou-se no livro Mémoires de Monsieur D’Artagnan, capitaine lieutenant de la première compagnie des Mousquetaires du Roi («Memórias do Senhor D’Artagnan, Capitão-Tenente da Primeira Companhia de Mosqueteiros do Rei»), escrito em 1700 (apenas 27 anos após a morte de Charles de Batz-Caltelmore d’Artagnan e 144 anos antes do livro de Dumas) por Gatien de Courtilz de Sandras (1644-1712). Gatien entrou para o Corpo de Mosqueteiros do Rei em 1670, mas deixou-os, após 18 anos, para se dedicar à escrita, e mudou-se para a Holanda. Em 1702, regressou à França e é preso na Bastilha (a famosa antiga prisão de Paris) devido aos seus escritos escandalosos. Na Bastilha, era guarda-prisional um antigo companheiro de armas do conde D’Artagnan de nome Besmaux. Terá sido através dele que Gatien soube da história do famoso mosqueteiro e a partir da qual escreveu o seu livro.

   Das personagens mais conhecidas dos livros apenas algumas são personagens históricas, sendo as outras personagens ficcionais. São personagens inspiradas em factos históricos D’Artagnan, o Cardeal Richelieu, o Rei Luís XIII, a sua esposa Rainha Ana de Áustria, o George Villiers, 1st Duke of Buckingham e o Cardeal Mazarin (que sucedeu a Richelieu em 1642 e que surge no segundo livro da saga). Para além do Conde D’Artagnan (Charles de Batz de Castelmore d’Artagnan) e do Conde de Trèville (Jean-Armand du Peyrer), alguns outros Mosqueteiros existiram realmente como:

♦Armand de Sillègue d’Athos d’Autevielle (1615-1643), que era conterrâneo do Conde de Trèville, que o levou, em 1640, para o Corpo de Mosqueteiros que liderava. Morreu jovem, com 28 aos, morto num duelo;

♦ Isaac de Portau «Porthos» (1617-?): o seu pai era Secretário do Rei e entrou para a Guarda Real em 1640. Em 1643, ano da morte de Athos, entra para o Corpo de Mosqueteiros.

♦Henri d’Aramitz «Aramis» (?-?): cunhado do Conde de Trèville (uma das irmãs de Aramis casou com ele), pertencia a uma família nobre, com ascendência militar, filho de Charles d’Aramitz, Marechal dos Mosqueteiros. Entrou no Corpo de Mosqueteiros no ano em que também entrou Athos, em 1640, e casou, em 1654, com Jeanne de Béarn-Bonasse, de quem teve 4 filhos.

   Apesar de Athos e Aramis terem entrado juntos, em 1640, nos Mosqueteiros, Porthos, que entrou em 1643, não foi companheiro de Athos (que morreu em 1643) e só passado um ano foi companheiro de D’Artagnan (que entrou em 1644). Não houve simultaneamente estes 3 Mosqueteiros juntos com D’Artagnan.Aramis fez sempre parte da História dos Mosqueteiros juntamente com o Conde de Trèville.

   A descrição do Cardeal Richelieu como um maníaco fanático de poder é completamente exagerada. Muitos historiadores consideram-no o primeiro Primeiro-Ministro da História. Em vez de uma figura interessada na sua própria glória, procurou, de diversas formas, engrandecer o seu país enquanto Ministro-Chefe do Rei: procurou consolidar o poder naval da França e, ao fazê-lo, impulsionou grandemente a colonização francesa no que é agora o Quebec canadiano e a Louisiana nos EUA, transformou uma França feudal com vários nobres poderosos num país moderno, com um governo centralizado e forte, que serviu depois de inspiração ao Rei-Sol Luís XIV. Para a consolidação do poder central francês, criou os primeiros Serviços Secretos do mundo. Além disso foi o fundador da Academia Francesa, a instituição que zela pela correcção e divulgação da língua francesa. Não sendo de todo um anjinho (apesar de ser um padre católico, nunca se coibiu de se aliar a países de religião protestante no sentido de alcançar
o que entendia como os interesses internacionais franceses), a imagem de um pretendente ao trono francês sedento de sangue é imensamente exagerada e o Cardeal Richelieu serviu a coroa francesa durante 18 anos (de 1624 a 1642), não havendo qualquer evidência de tentativas de usurpar o trono. O seu pupilo, o Cardeal Giulio Raimondo Mazzarino (conhecido em França como Jules Mazarin),  sucedeu-lhe como Ministro-Chefe de Luís XIV e também ele serviu a coroa até à sua morte, em 1661.