60. Sal e azar

   No próximo mês de Abril de 2017, celebra-se o 25 de Abril de 1974. Quando ocorreu, terminou com um regime autoritário que vigorava desde 1933 (o mesmo ano em que os Nazis subiram ao poder na Alemanha). Como todos os regimes autoritários (sejam de inspiração de Esquerda ou Direita), manteve-se no poder limitando as liberdades das pessoas, censura, auto-promoção (geralmente falsa ou exagerada), xenofobia e intolerância para com opiniões discordantes ou simplesmente diferentes. Algumas pessoas em Portugal ainda conservam uma visão idealista e positiva desse período negro da História portuguesa na qual a inteligência nacional foi reduzida a meia dúzia de apoiantes do regime, em que a força nacional foi reduzida a trabalhos braçais, em que a população em geral foi reduzida à ignorância, ao alcoolismo e à aceitação cega das normas sociais através do medo e da desconfiança e à aceitação das suas condições de pobreza como motivo de orgulho.

   No artigo As origens da bandeira, é referida uma das adulterações feitas à História de Portugal durante o Estado Novo. Uma outra forma foi fomentando o analfabetismo durante o Estado Novo. Mas parece haver aqui uma contradição: são ainda comuns as escolas construídas durante esse negro período. Muitos (eu incluído) estudaram numa escola primária construída nessa altura e o meu ensino secundário também (os famosos liceus de um só bloco e dois ou mais andares). Então não houve aqui um aspeto positivo no negrume em que este regime ditatorial mergulhou Portugal? Assim poderia parecer mas apenas nos anos 60 houve um investimento grande na construção de escolas em Portugal, já no final da (des)governação salazarista, que terminou em 1968 após uma queda de uma cadeira. O Estado Novo era marcado por uma estrutura social hierarquizada, em que as pessoas que nasciam numa determinada classe social nela permaneciam. A maioria dos jovens, após acabar o ensino primário, deixavam os estudos e começavam a trabalhar. A educação era reservada à pequena elite que apoiava a ditadura. A iletracia (a capacidade de comunicar ideias e de perceber o que lhes é comunicado, oralmente ou acima de tudo de forma escrita) desde a Monarquia (monarca tem a sílaba tónica em «nar» por ser uma  palavra grave e monarquia tem a sílaba tónica em «qui» também por ser grave) era muito baixa e assim permaneceu. Não convinha à ditadura que os cidadãos passassem a ter opiniões formadas e pensassem por si, só suficiente para obedecerem a ordens…

Fórum Defesa

   Um outro argumento que, muitas vezes, surge em conversas sobre esse período é o de que esse «senhor» nos «livrou da Grande Guerra» (referência à II.ª Guerra Mundial). Claro que não nos livrou de 13 anos de Guerra Colonial (1961-1974), em que o papel de Portugal no Mundo foi ridicularizado, em que uma geração inteira de jovens foi morta, mutilada e psicologicamente marcada, com os custos pessoais e sociais decorrentes. Também uma História de 900 anos foi denegrida e transformada em propaganda de Estado. Mas terá Portugal «sofrido» menos com a Guerra Colonial (13 anos) do que teria sofrido se tivesse entrado na II.ª Guerra Mundial (6 anos)? Analise-se os números referentes à mortalidade de uma e de outra. Para se poder fazer uma mais correta comparação (se é possível comparar assim tão friamente acontecimentos tão traumáticos como guerras), é necessário ter-se o mesmo sistema de referência, neste caso períodos de tempo com a mesma amplitude. Ao longo dos 13 anos de conflito, 8 mil e 289 militares portugueses perderam a sua vida e 115 mil e 507 ficaram mutilados com deficiências permanentes. As estatísticas referentes à II.ª Guerra Mundial podem-se analisar na tabela:    A propaganda salazarista só «lembrava» que Portugal não entrou na II.ª Guerra Mundial, «esquecendo» a barbaridade da Guerra Colonial, que dizimou uma geração de jovens portugueses, marcando-os para toda a vida, sem contar com as populações africanas que sofreram diretamente o impacto da guerra. A única coisa «boa» de tudo poderá ter sido o facto de essa ser a semente que levou, em 1974, à queda deste regime cego ao sofrimento nacional, aos custos da sua teimosia e às consequências. Ou seja, Portugal foi «salvo» da II.ª Guerra Mundial mas perdeu e fez perder inúmeras vidas. Fazendo uma comparação com um dos intervenientes principais dessa Guerra, o Reino Unido, teve um número semelhante de mortos, tendo menos de um quinto da população. Esse «senhor» não nos salvou de nada, apenas adiou para a geração seguinte o sofrimento e a mortandade. Com isso, perdeu-se a oportunidade de criar uma Commonwealth portuguesa, com descolonizações bem feitas e com ganhos para todos. Para mais informações ver Guerra Colonial Portuguesa.

   Mas «lembram-nos» também quem irracionalmente advoga o «bem» do velho regime, economicamente Portugal estava bem: graças às poupanças desse dito «senhor», o ouro acumulou-se no Banco de Portugal. Não só não sei quantas bocas alimenta ouro num cofre como esta argumentação (mais uma manobra propagandista desse regime) ignora factos importantes: o dinheiro que Portugal recebeu indevidamente em ajudas para a reconstrução de uma guerra na qual não participou e os custos de uma guerra que exauriu os recursos nacionais. Indevidamente porque, depois de brincar com Aliados (tendo em mente o Tratado de Windsor de 1386 que nos ligava à Inglaterra) e com as Potências do Eixo (esse «senhor» era admirador dos regimes totalitários Nazi alemão e Fascista italiano), recebeu dinheiro dos EUA, no final da guerra, para ajudar na reconstrução pós-guerra. Portugal, que foi apenas ligeiramente beliscado pela ocupação da colónia de Timor Leste pelos Japoneses em 1942. Poderão dizer os mais afoitos admiradores desse «senhor» que receber indevidamente dinheiro (que poderia ter sido usado para ajudar verdadeiras vítimas da barbárie nazi e do conflito militar na Europa) foi uma jogada inteligente. Não foi inteligente, foi jogada de esperto saloio sem moral. E ainda fez de conta que recusou (e ainda há quem pense erradamente que recusou), para receber depois a fatia toda em 1951… O Plano Marshall foi estabelecido, em 1947, na sequência de um discurso do Secretário de Estado George Marshall, general do exército americano, que recebeu o Prémio Nobel da Paz, em 1953, homenageando o Plano. O Plano consistia em reconstruir uma Europa devastada pela Guerra, impedindo que a miséria impelisse o surgimento de estados comunistas na Europa Ocidental. Para isso, os EUA, entre 1949 e 1951, disponibilizaram um total de 12 milhões e 721 mil Dólares. Utilizando uma simples conversão, encontrada em Measuring Worth, permite verificar que $US 1 de 1947 equivalia a aproximadamente $US 10,69 actuais. Utilizando ainda outra conversão, de dólares para euros (em 2017), verificamos que $US 1 actual são 0,715717€ €.    Outros países europeus usaram o dinheiro para se desenvolveram, para benefício dos seus habitantes. Dessa forma, tornaram-se prósperos, desenvolvidos e pacifistas. Ao contrário, esse «senhor» preferiu meter o dinheiro debaixo do colchão, deixar morrer de fome e pobreza as pessoas, fomentou o alcoolismo e a histeria religiosa, reduziu a expressão cultural do país a jogos de Futebol. Portugal tornou-se mais míope, mais xenófobo, mais atrasado e mais submisso à autoridade estatal.

   Além disso, Portugal usufruía, no altura, das riquezas minerais do territórios que colonizou em África (petróleo, ouro, diamantes,…). Dirão talvez, os que cegamente poderão advogar favoravelmente essa Idade das Trevas portuguesa que foi o Estado Novo: «Então foi para conservar essas riquezas em mãos portuguesas que fomos para a Guerra». Na verdade, tivesse Portugal dado progressivas autonomias às suas colónias, fomentado a educação e o desenvolvimento das populações sobre o seu jugo e teria continuado a usufruir, em níveis de progressiva maior igualdade, das riquezas das colónias (e eventualmente países irmãos) sem ter sacrificado uma geração inteira de valentes jovens portugueses (e gerações de valentes angolanos, moçambicanos, guineenses, cabo-verdianos).

   Em termos de Despesas Financeiras da Guerra, remeto novamente para a mesma excelente página virtual sobre a Guerra Colonial, desta vez para as despesas financeiras da Guerra Colonial (não lhe chamo «Guerra do Ultramar», porque essa é uma denominação do Estado Novo destinada a fomentar a ideia errada que os territórios em África eram Portugal, quando na verdade foram apenas terras que expropriámos aos seus habitantes). Em 2016, O Produto Interno Bruto de Portugal foi de 185 mil milhões de euros e o orçamento de Ministério da Defesa foi cerca de 2 mil e 230 milhões de euros ou 1,21%. O Estado português, durante a Guerra Colonial, gastou cerca de 85 mil contos com Despesas Extraordinárias nas Forças Armadas (ou seja, além do Orçamento normal de gestão do Estado). Durante os anos de guerra, gastou uma média de 35,15% por ano do Orçamento de Estado com as Forças Armadas. Ou seja, hoje teria gasto cerca 7,5 mil milhões de euros€ na guerra. Não só roubou dinheiro de quem precisava como gastou o dinheiro numa guerra adiada do lado errado da História.

   De que nos «salvou» esse dito «senhor»? Estou para saber. Aproveitando a desordem social e económica do país após o regicídio de 1908, a instabilidade económica da desastrosa participação de Portugal na I.ª Guerra Mundial, transformou-se de Ministro das Finanças em 1928 em ditador português em 1933. Pelo caminho, isolou Portugal do Mundo, diminuiu a inteligência nacional com efeitos que ainda hoje se sentem, pactuou com outros regimes ditatoriais para a expropriação de inocentes (o «ouro» que meteu ao bolso roubado às vítimas do Nazismo), militarizou e mutilou psicologicamente crianças com a sua Mocidade Portuguesa, meteu-nos numa sanguinária guerra contra povos que apenas queriam ter direito de estabelecerem o seu próprio rumo, matou dessa forma milhares de pessoas, roubou aos pobres para dar a uns poucos ricos, semeou desconfiança, xenofobismo e racismo, transformou a fantástica História de Portugal num mero fantoche para auto-promoção. De que nos salvou esse «senhor»? Antes a pergunta «Há algo em que este «senhor» não nos tenha prejudicado?»

   Caso para beatificar a célebre cadeira de que caiu, não fosse o facto de ter demorado tanto tempo a livrar-nos desse cancro social… Eis um excerto das palavras de um dos nossos maiores poetas, Fernando Pessoa (1988-1935), que foi contemporâneo desse «senhor» (morreu dois anos após a instauração da ditadura):

ANTÓNIO DE OLIVEIRA SALAZAR

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Pica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…

(ver o poema em Arquivo Pessoa)

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