61. Duplo dia

  Hoje é 1 de Abril de 2017, Sábado e este é um dos mais estranhos dias do ano: um dia que se comemora mas para o qual não há comemoração, um dia que alguns calendários referem mas que não é feriado, um dia que outros calendários não referem mas que todos sabem que dia é, um dia em que a verdade é vista como mentira e que a mentira se torna a verdade do dia, um dia em que as mais sérias pessoas são sujeitas a tentativas mais ou menos pueris de enganos e falsificações: o Dia das Mentiras. Citando Mark TwainO dia 1 de Abril é o dia em que somos lembrados de como somos nos restantes 364 dias do ano.

   As origens destes  costumes neste dia são incertas mas, como se calhar apropriadamente, a mais divulgada história sobre ela (a origem) ou sobre ele (o dia) poderá não passar de um elaborado embuste. Essa provavelmente falsa origem do dia das mentiras liga peixes franceses à mudança do calendário juliano para o gregoriano: algumas pessoas teriam continuado a celebrar o início do ano a 1 de Abril em vez do novo 1 de Janeiro. Eram os poisson d’avril «peixes de Abril» (ainda hoje é usual, em França e também na Itália, procurar colocar um peixe de papel nas costas de insuspeitas pessoas). Mas há registos de anedotas relacionadas com o Dia das Mentiras a 1 de Abril em 1508 (perto de 60 anos antes desta «história» e perto de 50 anos antes da mudança de calendário) e, além disso, a tradição dos Dia das Mentiras era comum a toda a Europa nessa altura já.

   Outra celebração que ocorre a 1 de Abril surge na variante nórdica da religião Wicca. Nesta vertente, há um ressurgimento da mitologia nórdica (víquingue): Odin, Thor, Loki, Valquírias… Loki, o Deus nórdico da Mentira e das Partidas, é também conhecido como Loke, Loder, Lokkju ou Saetere (entre outros). Não parece haver registos ou vestígios arqueológicos de cultos a Loki da época víquingue mas, na religião wicca (em particular na vertente nórdica presente nos EUA), o dia 1 de Abril é associado ao Deus nórdico Loki uma vez que é o dia em que tradicionalmente se contam mentiras e se pregam partidas. Então 1 de Abril é o Dia de Loki e é celebrado como tal. E o investigador sueco Jan Ekermann avança uma hipótese que liga Loki ao dia da semana Sábado. Os nomes dos dias da semana, em Inglês e Alemão, estão ligados às divindades nórdicas. No século III AEC, os nomes romanos dos dias da semana foram sendo substituídos por deuses nórdicos equivalentes aos romanos. Sábado terá vindo, segundo Jan Ekermann, de Satertag, o dia de Loki e não do deus romano Saturno. Portanto, 1 de Abril de 2017, Sábado é duplamenteDia de Loki.

   Para os Holandeses, o dia 1 de Abril é celebrado como um dia de vitória e de ridicularização dos vencidos: em 1572 a Holanda estava sob domínio espanhol, às mãos de Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal, por ser tio do desaparecido-em-Alcácer-Quibir-mas-ainda-aguardado(?)-D. Sebastião). A Guerra dos 80 anos (1568-1648) tinha começado há 4 anos, em que os Holandeses procuravam libertar-se de Filipe II e apoiar Guilherme de Orange. No dia 1 de Abril desse ano, tomaram uma pequena povoação costeira de nome Den Briel. Este acto foi o início de uma revolta generalizada pelo país e Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel, Duque de Alva (1507–1582), general do exército espanhol, nada pode fazer. Em parte devido à semelhança fonética entre Briel e a palavra «bril» (óculos), ainda hoje neste dia de libertação os Holandeses referem-se a 1 de Abril como «Op 1 april verloor Alva zijn Bril» A 1 de Abril perdeu Alva os seus óculos, uma piada nacional de repercussões históricas. Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel foi o general do exército espanhol que, em 1580, atravessou a fronteira entre Portugal e Espanha e derrotou um exército português, solidificando Filipe II de Espanha como Filipe I de Portugal. Como recompensa, o rei nomeou-o CondestávelVice-rei de Portugal. Fernando tornou-se representante do rei espanhol em Portugal até 1582, quando morreu.

   E há exatamente 241 anos, a 1 de Abril de 1776, nasceu Sophie Germain (1776-1831), uma importante matemática. Foi a primeira mulher a assistir às sessões da Académie des Sciences por pleno direito e não por ser mulher de um membro da Academia e a primeira mulher a ser convidada a assistir às sessões do Institut de France. Foi aluna dos famosos matemáticos Lagrange, Legendre e Gauss e  uma das pioneiras da Teoria da Elasticidade, fundamental aquando da construção da Torre Eiffel. O seu trabalho com o Último Teorema de Fermat estabeleceu as fundações para o seu estudo durante séculos. Sophie foi uma auto-didacta, que aprendeu sozinha Matemática, Latim e Grego (para ler as obras originais matemáticas). Diz-se que Sophie se interessou pela Matemática quando, para a proteger dos motins da Revolução Francesa, os pais a impediram de sair de casa com 13 anos. Para se distrair, tinha a biblioteca do pai, onde leu a história de Arquimedes (de que se falou no artigo Arquimedes: Coroa de Vitrúvio). Após saber que este tinha sido morto por um soldado romano que não gostou de ser ignorado por um senhor que fazia figuras geométricas na praia, decidiu devotar-se a um assunto que seria tão interessante a ponto de prender de tal forma a atenção de alguém. Quis estudar Matemática mas os pais não deixaram. Mas Sophie arranjou sempre formas de esconder livros e velas e estudar Matemática. Finalmente os pais cederam perante uma tal vontade de estudar Matemática. Usando o pseudónimo de Monsieur le Blanc, trocou correspondência sobre Matemática com professores da École Polytechnique, a mais avançada na altura. O mais conhecido foi Lagrange que, só após muitos anos, descobriu que se correspondia com uma mulher mas a profundidade profícua do seu pensamento matemático levou-o a continuar a correspondência, apesar de ter sido iniciada com base num engano. Sophie também trocou correspondência com o famoso Gauss como M. le Blanc. Só ao fim de 3 anos Gauss descobriu que o seu genial correspondente era uma mulher. Gauss escreveu-lhe dizendo de sua surpresa e satisfação por ter encontrado um “inacreditável exemplo” de uma mulher matemática. E que “nada poderia provar-me, de maneira tão lisonjeira e inequívoca, que as atrações desta ciência que enriqueceu a minha vida com tantas alegrias não são uma quimera, quanto à predileção com que você me honrou”. Em 1829, Sophie descobriu que tinha cancro. E faleceu em 27 de Junho de 1831.

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