63. Inglês: língua mundial

   Na Europa, o Latim (e o Grego) foram usadas durante mais de dois mil anos como lingua franca (a expressão latina é assim mesmo, sem acento); aquando dos Descobrimentos, o Português era usada como lingua franca na Ásia e na África; o Inglês surgiu como a lingua franca internacional no século 20. Mas o que catapultou a língua inglesa, oriunda de uma ilha a norte do continente europeu, para os palcos mundiais? É por vezes apontada a facilidade da língua, ou a sua capacidade de síntese, ou a sua flexibilidade em variados contextos para explicar essa importância cultural. O facto de os EUA serem a única super-potência que sobreviveu à Guerra Fria (sensivelmente entre 1946 e 1991) e a sua importância e hegemonia cultural são também vistos facilmente como outros fatores importantes para o domínio cultural mundial do Inglês. Mas não serão as características particulares da Língua Inglesa a razão para a sua disseminação.

   Se é certo que tem a conjugação da generalidade dos verbos simplificada (apenas a 3.ª pessoa do singular difere das restantes por ter um «s» acrescido), a transição entre a língua falada e a língua escrita pode ser um pesadelo para muitos. A título de exemplo, considere-se estas palavras: «though»; «thought»; «through»; «thorough». Para um falante de Português, a semelhança entre as formas escritas das 4 remeteria para sonoridades semelhantes. Mas o mesmo conjunto de letras tem um som diferente conforme a palavra onde se encontra : though«Dou» – «apesar (de)» :: thought – «Thót» – «pensamento» :: through – «Thru» – «através (de)» :: thorough – «Thârou» – «minucioso». O mesmo conjunto de letras «ough» é lido como «ou», «ó» ou «ú»! O som «Th» é feito pondo em contacto a ponta da língua com os incisivos superiores. Em seguida, faz-se um som semelhante a um «s» fazendo passar o ar pelos dentes e a língua na posição descrita. Também pode ser lido como um «d» (como em «this») ou um «t» (como em «lighthouse»), consoante a palavra em que se encontra. Apesar de ser uma língua germânica, 58% é de origem latina (ou diretamente do Latim ou através do Francês), apenas 26% do seu vocabulário deriva do Alemão, 6% deriva do Grego e os restantes 10% de outras fontes.

   O Inglês desenvolveu-se, ao longo dos séculos, numa ilha a norte da Europa, a que modernamente se chama Grã-Bretanha (que inclui a Escócia a norte, a Inglaterra no centro e sul e o País de Gales a oeste). A Irlanda, a ilha sua vizinha, fez já parte da Grã-Bretanha mas tornou-se independente em 1920 (reconhecido pelo governo britânico em 1921), ficando somente uma das suas 4 províncias, o Ulster (Irlanda do Norte) ligada ainda à Grã-Bretanha. É frequente ser usado o nome Inglaterra para designar o Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte, na verdade é apenas um dos países que o constitui (que, historicamente, se formou quando o rei escocês James VI se tornou James I da Inglaterra). Uma situação semelhante ocorre com os Países Baixos. Na verdade, trata-se de um só país e esta designação surge como tradução literal do seu nome na sua língua: «Netherlands». Muitas vezes chamado como Holanda, a Holanda é apenas um (na verdade dois) dos estados que constituem o país.

   Por volta do século 6 AEC, habitavam, na Europa Central, um grupo de povos dispersos designados por Celtas que falava uma língua comum. Daí, espalharam-se por o resto do continente e, em 3 AC, tinha já chegado à Península Ibérica a ocidente, à Anatólia (parte da Turquia) a oriente e às Ilhas Britânicas a Norte. A sul tinham o mar Mediterrâneo.

   Dessa expansão pela Europa, os Celtas foram-se dividindo em povos cada mais mais numerosos, muitos deles tendo dado origem aos modernos nomes de muitos países europeus que se encontram na área dos seus antigos territórios: os Gallaeci (Galiza) e os Celtiberos (no centro da Península Ibérica, fusão entre os Celtas e os Iberos, sendo uma das sua tribos os nossos conhecidos Lusitanos), os Aquitani (Aquitânia, no sudoeste da França), os Helvetii (Suíça e a razão porque o adjectivo «helvético» se refere a esse país), os Parisii (que deram o nome à cidade de Paris), os Belgae (Bélgica). Viveram nos seus territórios (com conflitos com povos seus vizinhos) durante muitos séculos até que os romanos venceram a sua rival Cartago e se apoderaram dos seus territórios (nomeadamente na Península Ibérica), no século 2 AEC. Júlio César, general romano, no século 1 AEC, empreendeu uma campanha militar de 10 anos que conquistou a Gália (onde residiam os Gauleses, um povo descendente dos primeiros povos celtas a alargarem fronteiras).

   Eventualmente, a maioria dos territórios celtas foram incorporados no Império Romano. Muitas línguas celtas (como o Lusitano, em Portugal) desapareceram sem deixarem vestígios significativos nas modernas línguas faladas nos seus antigos territórios (embora possam ter influenciado indiretamente a evolução do Baixo Latim para as modernas línguas românicas). Nas Ilhas Britânicas, os romanos não conquistaram a Irlanda nem o norte da Grã-Bretanha (Escócia). As línguas faladas aí (excluindo o Inglês) são descendentes diretas das línguas celtas e mesmo o seu sotaque característico é devido à influência celta.

   Mas, nos territórios romanos britânicos, deu-se a chegada do Latim e das línguas faladas pelos legionários romanos. Muitos eram oriundos de territórios conquistados e falavam outras línguas que não o Latim. Os soldados estacionados na Grã-Bretanha eram principalmente oriundos do norte da Alemanha e Dinamarca e a acompanhá-los vieram muitos colonos Anglos (de Angeln, região que agora é em Schleswig-Holstein, no norte da Alemanha), Saxões (da Saxónia, no sudeste da Alemanha) e os Jutos (oriundos da Jutelândia, Sul da Saxónia). Quando se deu a retirada romana das ilhas, no século 5 DC, foi a língua germânica desses soldados e desses colonos que foi a semente da língua que viria a ser conhecida como Inglês.

   Até que, três séculos depois, no século 8 DEC, os Víquingues (aqui temos um interessante palavra esdrúxula: «Ví»+«quin»+«gues» e como tal é acentuada na antepenúltima sílaba) oriundos da península escandinava (Noruega, Suécia e Dinamarca), conquistaram o nordeste da Grã-Bretanha (a costa mais próxima da sua península nativa). Navegavam nos seus característicos navios (geralmente conhecidos como «drakkar», que não passa da palavra víquingue para «Dragão», devido à forma da proa dos navios). Esta vaga de conquistadores, que falavam uma língua germânica conhecida como «Norse» e que deu origem ao Norueguês, Sueco e Dinamarquês, introduziu significativas mudanças e simplificações nesse Proto-Inglês. Entre essas simplificações, contam-se a conhecida ausência de género nas palavras inglesas (não há palavras masculinas ou femininas) e a perda das declinações da língua alemã. Surgiu assim o Inglês Antigo, ocasionalmente (mas não significativamente) importando umas poucas palavras gregas e romanas quando o Cristianismo foi introduzido nas ilhas.

   Entretanto, as conquistas Víquingues prosseguiram na Europa. Uma tribo víquingue, os Russ penetrou no actual território russo e deram o seu nome à região e ao país que aí viria a surgir: a Rússia (Terra dos Russ). Outra tribo víquingue instalou-se, no século X, no norte da França, na actual Normandia (derivado de «Norseman», homens do Norte, nome porque eram também conhecidos os Víquingues). Foi na Normandia que as forças aliadas desembarcaram, na Segunda Guerra Mundial, só parando em Berlim, após a derrota dos exércitos nazis. Eventualmente, a língua dos conquistadores víquingues passou a ser a língua francesa da região que ocupavam, uma língua marcadamente românica. Quando, no século XI (em 1066), o Duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador, atravessou o canal da Mancha e venceu os Anglo-Saxões, a Grã-Bretanha passou a ser governada pelos Normandos, que falavam Francês. Esta nova invasão voltou a introduzir alguma da complexidade gramatical na língua. Talvez algumas palavras inglesas não sejam mais do que mau Francês…

   Durante muitos séculos, à medida que a língua do povo britânico ia evoluindo, com as suas raízes germânicas e as suas influências germânicas e francesas, a língua da coroa inglesa era o Francês e, ainda hoje, o mote da casa real inglesa é «Dieu et mon droit» (Deus e o meu direito), expressão em língua francesa. Durante muitos séculos, o Rei inglês (descendente de Guilherme, o Conquistador) era Duque da Normandia e esse facto despoletou fortes rivalidades entre ingleses e franceses, que deram origem à Guerra dos 100 anos (1337-1453, cento e dezasseis anos) sobre quem seria o legítimo Rei Francês, se a Casa de Valois (francesa) se a Casa Plantageneta (inglesa). Nesta guerra, notabilizou-se Joana D’Arc, valorosa combatente francesa. No fim da Guerra, a casa de Valois emergiu como a governante de toda a França, incluindo o Ducado da Normandia. Essa rivalidade prosseguiu durante séculos, até que, no final do século XIX, uma aproximação histórica devido a uma linha de caminho-de-ferro entre as suas possessões africanas enterrou o machado de guerra entre os dois países e ambos se tornaram os fortes aliados a que o século XX nos acostumou, através da I.ª e II.ª Guerras Mundiais.

   Entretanto, esse povo oriundo da 8.ª maior ilha do Mundo (1.ª: Gronelândia, 2 milhões, 130 mil e 800 quilómetros quadrados; 2.ª: Nova Guiné, 785 mil e 753 km²; 3.ª: Bornéu, 748 mil e 168 km²; 4.ª: Madagáscar, 587 mil e 713 km²; 5.ª: Baffin, 507 mil e 451 km²; 6.ª: Sumatra, 443 mil e 66 km²; 7.ª: Honshu, 225 mil e 800 km²), conquistou o Mundo. Na esteira dos Descobrimentos portugueses, os Holandeses fizeram seu o império português do Oriente (como visto em Portugal: Império Perdido). Após os Holandeses, os Ingleses dominaram todos os oceanos e levaram a sua língua aos «quatro cantos» do Mundo (claro que, como o Mundo é esférico, não tem cantos, apenas os mapas os têm).

   Já no século XX, após duas desastrosas Guerras Mundiais que puseram de joelhos todos os países europeus devido ao grau de destruição a que foram sujeitos, os Estados Unidos, antiga colónia inglesa, emergiram como uma das Super-Potências do Mundo, tendo uma presença militar em todos os continentes habitados mundiais. Como o Inglês não era estranho à maioria dos países do mundo (devido ao antigo império inglês), a cultura americana espalhou-se facilmente por entre os países por onde estiveram os americanos na esteira da II.ª Guerra Mundial e da Guerra Fria. Cmo forma de interagirem com os povos dos países que agora ocupavam, o Exército Americano ensinou a versão simplificada que é agora a ensinada pelo mundo inteiro. E assim, uma língua fruto de misturas entre línguas germânicas e românicas, provinda de um povo insular no norte da Europa, se encontra na confortável posição de língua franca do Mundo (não a mais falada, mas a internacionalmente mais usada).

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *