69. Novas e Demónios

   A 2 mil e 250 quilómetros a Sudoeste da Austrália existe uma nação independente, acima do continente gelado da Antártida. É constituída principalmente por duas grandes ilhas e tem uma área total de aproximadamente 269 mil km2. Como medida de comparação, Portugal inteiro, com 92 mil e 400 km2  (continente e ilhas), caberia 3 vezes na sua área… Chama-se Nova Zelândia.

   Umas das coisas mais curiosas deste país arquipelágico é o seu nome: se se chama Nova Zelândia, onde é ou era a Velha Zelândia? É importante lembrar que «se se», neste contexto, não é uma gralha: a pronominalização assim o exige. A resposta a esta questão está ligada à nação que retirou a Portugal a supremacia colonial no Sudoeste Asiático, do Sri Lanka à Indonésia (ver o artigo Lágrima do Leão para mais sobre o Ceilão português, a Taprobana camoniana e o moderno Sri Lanka e o artigo Portugal: império perdido sobre esta perda) Quando Portugal foi unido dinasticamente à Espanha, entre 1580 de 1640, o império espanhol estendeu-se geograficamente, tornando-se uma vasto império tanto terrestre como marítimo (ver o artigo La Palisse: viver antes de morrer ou o artigo Duplo dia que fala na guerra entre as 13 Províncias e a Espanha e a ligação com Portugal).

   Como a religião predominante nas províncias holandesas era cristã protestante e a dos soberanos espanhóis era cristã católica, a repressão religiosa espanhola era acentuada. Filipe II de Espanha (I de Portugal) teve uma política de valorização da região e respeito pela cultura e religião na Holanda. Mas o seu filho, Filipe III de Espanha (II de Portugal), tinha uma atitude perfeitamente oposta à do seu pai, o que levou às supracitadas perseguições e revolta popular. A Holanda teve também um papel na «Armada Invencível» (esta foi a designação jocosa que os Ingleses lhe deram após a batalha: o nome da armada era «Grande y Felicísima Armada»), durante o reinado de Filipe III de Espanha (II de Portugal). Esta repressão, a par dos elevados impostos pagos aos soberanos espanhóis, levou a que os holandeses se revoltassem. Entre 1568 e 1648, na chamada Guerra dos 80 anos, a revolta estendeu-se a todas as províncias, terminando com o reconhecimento da independência dos holandeses. O início da revolta começou com tomada da cidade de Brille a 1 de Abril de 1572 e, ainda hoje, para os holandeses, o Dia das Mentiras está ligado a esta vitória. Ver o artigo Duplo dia sobre esta e outras tradições ligadas a este dia.

   Devido à Guerra dos 80 anos, os holandeses passaram a atacar todas as possessões marítimas espanholas, nomeadamente as portuguesas. Mesmo após a independência de Portugal da Espanha, a dinâmica da expansão colonial holandesa estava em marcha e Portugal era um adversário a vencer e as suas possessões ultramarinas apetecíveis. Da América do Sul à Ásia, onde quer que os Portugueses estivessem, aí os holandeses iam. Entre 1588 e 1654, deu-se a Guerra Luso-Holandesa, e as possessões do sudoeste asiático dos portugueses foram conquistadas pelos holandesas, tendo os Portugueses conservado o seu Império nas Américas, em África e na Ásia continental. No final da Guerra, as anteriores províncias holandesas sob controlo espanhol eram uma influente e poderosa nação colonial, cujo império se centrava principalmente no sudoeste asiático, na Indonésia. Os Boers da África do Sul, que lutaram contra os ingleses, são descendentes de colonos holandeses, que se instalaram na África do Sul, nos séculos XVI e XVII. A cidade de Nova Iorque, nos EUA, foi originalmente fundada por holandeses, em 1625, com o nome de Nova Amesterdão. Foi entregue, aos Ingleses, em 1674, como parte do Tratado de Paz entre a Inglaterra e a Holanda, que pôs fim à 3.ª Guerra Anglo-Holandesa. Nesse tratado, os Holandeses entregaram também, aos Ingleses, a Nova Holanda (a costa este da Austrália) e o Suriname (na América do Sul). Os Ingleses devolveram, aos Holandeses, as ilhas de Tobago, Saba, Santo Eustáquio e Tortola.

   Para além da sua expansão colonial (essencialmente comercial), os Holandeses fizeram também viagens de exploração. Um dos mais conhecidos foi Abel Janszoon Tasman (1603-1659), ao serviço da Companhia Holandesa das Índias Orientais – Vereenigde Oostindische Compagnie (VOC). A empresa foi fundada por 6 câmaras de comércio, em 6 cidades portuárias de 3 províncias diferentes (Amesterdão; Middelburg; Enkhuizen; Delft; Hoorn e Roterdão). O símbolo da companhia possuía, no topo, a letra inicial do nome da cidade onde estava a operar. Na imagem, o «A» de Amesterdão.

   A VOC foi a primeira corporação multinacional do Mundo, tinha o monopólio das atividades comercias holandesas na Ásia e foi a primeira empresa a criar e a vender ações. Durante 200 anos, deu um lucro anual de 18% aos seus investidores, até ser dissolvida por ter entrado em bancarota, em 1800. Cada Câmara de Comércio investiu uma quantia para a criação da Companhia das Índias Orientais, como se pode ver na tabela ao lado. Tendo em conta que um operário especializado na altura ganhava cerca de 150 florins anuais (12,5 florins mensais) e pressupondo um valor de 1 200 euros mensais para um operário especializado atual, foi incluída, na tabela, a quanto foi cada investimento aos valores de hoje. Na Idade Média, em Itália, quem trocava dinheiro fazia-o sentado atrás de uma banca – uma mesa. Estes primeiros banqueiros – os que se sentavam atrás das bancas – quando o seu negócio falia, partiam – rupta, de onde ruptura em Português – a sua banca. Assim surgiu a expressão «bancarrota», como sinónimo de «falência». As 6 Câmaras de Comércio que fundaram a VOC contribuíram com dinheiro para a sua criação, sendo as principais investidoras a de Amesterdão e de Middelburg. A moeda que usavam era o guilden (da palavra holandesa «gulden» para «ouro»), que era conhecida como «florim» no mundo lusófono. Esta moeda que esteve em circulação e uso na Holanda até à adoção do euro, em 2002. Cada «euro» valia, quando foi adotado, 2,20 florins (ou, alternativamente, cada florim valia 0,46€€

   Tasman «descobriu» uma ilha, a sul da Austrália, em 1642, a que deu o nome de Anthoonij van Diemenslandt – Terra de Anthoonij Van Diemen, em homenagem ao Governador-Geral da VOC da altura. Mais tarde, em 1803, os Ingleses colonizaram a ilha, passando a usá-la como Colónia Penal e chamando-lhe Van Diemen’s Land – Terra de Van Diemen. Mas os colonos voluntários habitantes da ilha não apreciavam que a «sua» ilha fosse usada como prisão e que o nome da ilha fosse sinónimo do mesmo. Como tal, em 1856, o nome da ilha foi mudado para Tasmânia, em honra de Tasman, e a sua última prisão fechou em 1877. Foram 74 anos tratados como o repositário dos indesejáveis sociais ingleses (geralmente pequenos criminosos)… Em 1643, encontrou as Ilhas Fiji (de «Vitian», nome dado pelos habitantes das ilhas quando Tasman lá chegou). Já antes, no final de 1642, Tasman tinha encontrado um grupo de ilhas, onde 4 dos seus marinheiros foram mortos. Devido a este incidente, as ilhas só voltaram a ser visitadas, por europeus, em 1768. Os cartógrafos holandeses, no entanto, deram um nome a estas ilhas: devido à aparência da província Zelândia na sua terra natal, chamaram ao arquipélago que encontraram Nova Zelândia. Portanto, o nome da Nova Zelândia vem do nome da província holandesa Zelândia. A Holanda é apenas uma província (na verdade duas, a Holanda do Norte e a Holanda do Sul) do país. O nome vem de «holtland» (“terra arboreada”, devido às árvores que tinha). Os não-nativos do país, como recebiam, como resposta da maioria dos marinheiros da VOC que encontravam, que estes eram oriundos da Holanda (a maioria, já que 5 das 6 Câmaras de Comércio que fundaram a VOC era ou da Holanda do Norte ou da Holanda do Sul). O nome do país é, na verdade Netherlands («Países baixos» ou «Terras baixas»). Mas a incorreção ficou e prosperou: um meme muito bem sucedido, diga-se de passagem: os adeptos da selecção de futebol identificam a sua equipa nacional como sendo «Holland», apesar de saberem que é incorreto. A seleção também é conhecida como laranja mecânica devido à sua cor mas, em muitas línguas, Portugal tem esse nome, como visto no artigo Portugal: laranja mecânica.  Mas se o país é mais correctamente designado por «Países baixos» (países devido às suas províncias durante muito tempo autónomas).

   Um dos mais famosos naturais da ilha da Tasmânia é um pequeno carnívoro de pêlo escuro. Tem um comprimento de sensivelmente 60 centímetros, um anel de pêlo branco circundando os ombros e peito, tem uma cauda curta (onde armazena gordura) e pernas igualmente curtas. É geralmente solitário, agressivo e emite um odor pungente e desagradável quando se sente ameaçado. Apenas se junta a outros da sua espécie à volta de uma carcaça (para se alimentarem) ou na altura da procriação. Emite um som agudo e desagradável e é extremamente feroz e voraz (o que lhe valeu a alcunha pela qual é conhecido). É o Sarcophilus harrisii, mais conhecido como Diabo da Tasmânia.

   Este pequeno e voraz carnívoro da Tasmânia inspirou, em 1954, a companhia Warner-Brothers na criação de uma personagem com o mesmo nome (é conhecido, pelos seus fãs, como «Taz»). Ao contrário do que a série parece implicar, o Diabo da Tasmânia não se desloca girando a grande velocidade (outro meme bem sucedido mas incorreto). Corre como qualquer outro mamífero… Eis a abertura de uma série protagonizada por esta personagem: Logo no início, vê-se a aproximação à ilha da Tasmânia.

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