74. Memes e cucos

   Num jardim, no topo de uma árvore, há um ninho com três ovos. Um deles eclode, revelando um passarinho sem penas e com os olhos ainda fechados. Começa então a empurrar, com as costas, um dos outros ovos. Não o vê mas sabe que está lá. Tanto empurra que o ovo cai do ninho para o chão. Segue-se o outro. O passarinho fica sozinho no ninho e torna-se o único a receber os alimentos que os progenitores trazem.

   Há semelhantes relatos sobre um tipo de aves chamadas Cucos (Cuculus canorus). Os seus chamamentos são inconfundíveis e este comportamento de colocar o ovo no ninho de outras espécies de aves é famoso. Esta forma de agir das crias cuco foi, pela primeira vez, relatado em 1788, por Edward Jenner, médico inglês de província. Até então, julgava-se que era a mãe cuco a retirar todos os outros ovos do ninho alheio. O que está na base de tal ato que semelhante a um assassínio (ver o artigo Silêncio mortalque fala do monóxido de carbono e dos seus perigos, para a origem da palavra «assassino»)? Simultaneamente, e no extremo desta situação, o que está na base de comportamentos em que um ser se sacrifica (ou mesmo que apenas corra esse risco) para ajudar outro? Em suma, qual a origem biológica do egoísmo e do altruísmo?

   Foi esta a pergunta a que Richard Dawkins procurou dar resposta e para a qual encontrou uma solução intrigante e pontos de reflexão importantes sobre a Natureza Humana. Em 1976, (ano de nuclear importância para o Cognosco), publicou o livro «The selfish gene» (publicado, em Portugal, em 1989, pela fantástica editora Gradiva, com o título «O Gene egoísta»). Nele, estes e outros exemplos de egoísmo animal (como o infanticídio das crias de uma fêmea, por parte de um macho, para a colocar de novo no cio) e de altruísmo animal (como o ataque das abelhas quando sentem que o seu ninho está em perigo) são abordados não tendo o comportamento do indivíduo, nem mesmo o do grupo, ou sequer da espécie, em consideração. Nela o autor defende que a base destes comportamentos reside no gene.

   O Ser Humano surgiu, na Terra, há cerca de 150 mil anos (como indicam as evidências paleontológicas e genéticas), como o produto evolucionário que os primatas iniciaram há cerca de 56 milhões de anos, ao apostarem no desenvolvimento cerebral em detrimento do aperfeiçoamento das capacidades físicas. Quando o Homo Sapiens surgiu (ambas as possíveis subespécies, Homo Sapiens Neanderthalensis e Homo Sapiens Sapiens) trazia já um dote de capacidades invejável: sabia como produzir, utilizar e controlar o fogo (um seu antecessor, o Homo erectus terá sido o primeiro a fazê-lo), andava erecto (o mais antigo antepassado humano, os Australopitecus faziam-no), não tinha garras mas unhas (como todos os outros primatas) o que possibilitou o uso da mão, tinha uma capacidade craniana superior à dos restantes animais (tendência evolutiva dos primatas), sabia produzir e utilizar ferramentas (o antecessor humano Homo habilis já o fazia e os seus irmãos genéticos, os chimpanzés, fazem-no). Provavelmente a ambos os ramos do Ser Humano surgiu a questão de saber quem eram e de onde vieram (durante 100 mil anos ambos coexistiram, separados geograficamente pela Idade do Gelo). A pintura nas cavernas do Homo Sapiens Sapiens e os ritos funerários do Homo Sapiens Sapiens Neanderthalensis indiciarão uma primeira sede por respostas a essas questões.

   Durante milhares de anos, as respostas que surgiam eram de carácter mito-mágico-religioso. Até que, na Inglaterra vitoriana, em 1859, Charles Darwin publica o livro «A origem das espécies» e o teor das respostas ganha um novo fôlego e horizontes mais vastos. Como referido na sua introdução, «(…) mais indivíduos de cada espécie nascem do que os que podem sobreviver; e, consequentemente, há uma frequentemente recorrente luta pela existência. Segue-se que cada ser, se variar ainda que ligeiramente de uma forma que lhe seja benéfica, sob as complexas e, por vezes, variáveis condições da vida, terá uma melhor oportunidade para sobreviver e, consequentemente, de ser naturalmente seleccionado. A partir do forte princípio da hereditariedade, qualquer variação seleccionada tenderá a propagar a sua nova e modificada forma

   Entretanto, na Áustria, um monge de nome Gregor Johann Mendel (1822–1884), fazia experiências com variedades de ervilhas de cores e formas diferentes (a ervilha é um legume, como é o amendoim e o tremoço, como visto no artigo Legume de ouro). Verificou (sem ter forma de saber de que forma era feito) que havia «unidades» que indicavam a cor que as ervilhas teriam e que eram passadas pelos «progenitores». Quando se cruzavam ervilhas verdes com ervilhas verdes, o resultado era sempre ervilhas verdes. Se cruzasse ervilhas amarelas com ervilhas amarelas, a maioria das ervilhas tinha cor amarela (75%) mas uma pequena minoria (25%) eram verdes. O mesmo tipo de resultados verificava-se para a forma das ervilhas. Chegou então ao conceito de características dominantes e características recessivas, sendo o amarelo e a forma redonda as características dominantes e a cor verde e a forma irregular as características recessivas. Há dois genes para cada uma das características de um ser (há excepções, em que um organismo vivo tem apenas um gene para cada característica, mas a norma é haver dois). Se os dois genes forem dominantes, é essa a característica que o indivíduo tem. Se um dos genes for dominante e o outro recessivo, é a característica do gene dominante que o indivíduo tem. Somente quando ambos os genes são recessivos é que é essa a característica que o indivíduo tem. Veja-se um outro exemplo de combinações de genes para o tipo sanguíneo no artigo Compatibilidades.

   Darwin não soube das descobertas de Mendel e, durante a sua vida, não teve conhecimento do mecanismo biológico pelo qual as características de cada ser eram naturalmente seleccionadas. Foi apenas no século XX que os trabalhos de Mendel foram redescobertos, o que fortaleceu ainda mais a Teoria da Evolução e deu origem à moderna Genética. A Teoria da Evolução é tanto uma teoria presentemente como é teoria a teoria de que a Terra gira em redor do Sol, ou seja, é um facto.  É geralmente pensada como tendo por base o indivíduo (a luta pela sobrevivência de cada ser conduz à seleção dos mais aptos) e, por vezes, tendo como base a espécie (as espécies mais bem adaptadas multiplicam-se em maior número e suplantam as menos bem adaptadas). A propagação e salvaguarda da espécie eram dadas como explicação para comportamentos como as supracitadas abelhas ou experiências de sobrepovoamento, em que comportamentos que aumentam a taxa de mortalidade e diminuem a taxa de natalidade surgem, com o aparente propósito de adequar os meios disponíveis de sobrevivência do grupo ao número de indivíduos existentes, mesmo que em detrimento da sobrevivência e bem-estar individual.

   Mas qual a definição do que constitui um grupo ou mesmo uma espécie (e até, por vezes, o que constitui o indivíduo, uma vez que foi já por várias vezes documentada a auto-mutilação de uma parte do próprio corpo para garantir a sobrevivência do organismo)? Porquê o grupo ou a espécie? Porque não a família ou o filo? Porque razão os leões (ou melhor, as leoas, uma vez que são elas que caçam) não deixam de matar búfalos para o bem dos mamíferos (exemplo referido n’«O Gene Egoísta»)? Qual a base físico-química na qual assenta esta seleção? Para o autor do livro, a base da seleção natural é necessariamente o gene: apenas esta entidade tem a estabilidade e a longevidade necessárias para servirem de base para a seleção natural. Os grupos cruzam-se e não se mantêm estáveis, os indivíduos têm uma duração de vida limitada e os seus descendentes apenas partilham metade das suas características. A seleção natural começou com os primeiros replicadores e é sobre eles (os modernos genes) que a evolução se processa, com a sobrevivência dos genes que deixam cópias de si mesmos em maior número e que duram mais tempo.

   Como se processa essa selecção? Os genes são como os jogadores de futebol de uma equipa (no livro são remadores de canoas de competição. Sem forma de se fazer uma escolha consciente dos melhores jogadores para formarem a equipa, 11 jogadores (genes) reúnem-se, ao acaso, formando uma equipa e disputando jogos. De cada vez que há um jogo, as equipas mudam, havendo uma maior probabilidade de os jogadores que integram uma equipa vencedora voltarem a formar uma equipa para disputar um jogo. À medida que os jogos se vão disputando, vai havendo como que uma seleção: os melhores jogadores geralmente fazem aumentar a probabilidade da equipa que integram ganhar o jogo e vão tendo cada vez maior probabilidade de integrarem a nova equipa. À medida que as equipas se vão formando aleatoriamente, os melhores jogadores vão-se concentrando nas equipas que se vão formando, uma vez que os melhores jogadores costumam integrar as equipas vencedoras.

   Há a possibilidade de um mau jogador ter a sorte de ficar sempre integrado em equipas vencedoras, mas a possibilidade é remota. Daqui decorre também que os jogadores que tornam as equipas vencedoras não são só aqueles que jogam bem, são também aqueles que têm maior capacidade de cooperação. Retornando aos genes, aqueles que, juntos, fazem um animal (a equipa de futebol) melhor adaptado vão sendo seleccionados para integrarem os indivíduos que se vão gerando. Aqueles em que a equipa de genes não é a melhor, perecem e não deixam descendentes. Também aqui a cooperação de equipa é fundamental: um gene pode contribuir com uma boa característica (por exemplo, pernas fortes) para um organismo mas se a sua equipa contribuir com outras características para as quais a sua contribuição não se adapta (por exemplo, genes para um organismo aquático) então de nada serve a sua aparente força. Além de contribuírem com características bem adaptadas ao meio ambiente do organismo e bem adaptada para os restantes genes, um gene deve levar a que o organismo que integra se preserve (conservando a integridade do gene) a todo o custo (o que conduz à inevitável «vontade de viver» comum aos seres vivos) e que faça todos os possíveis para se reproduzir (espalhando cópias do gene, o que conduz ao «instinto procriador» comum aos seres vivos).

   Isto traduz-se num mecanismo que se poderia apelidar de «egoísmo do gene»: um gene, para sobreviver e fazer cada vez mais cópias de si, leva a que o animal que integra o preserve à custa de quaisquer outros. Os que não o «fazem» (entre aspas, como é óbvio, que não se tratam de entidades conscientes e não têm vontades nem quereres) deixam menos cópias de si e têm maior probabilidade de perecerem. A expressão «gene egoísta» é uma força de expressão inadequada no fundo mas serve como modelo geral do mecanismo em causa. Daqui surge que a base do comportamento animal é o «egoísmo» (entre aspas, para que não seja antromorfizado como significando vontade ou querer), a procura de maximizar as suas possibilidades de sobrevivência, diminuindo simultaneamente a dos outros animais.

   Mas então o que explica o altruísmo que se verifica no Reino animal? Como se explica o suicídio protetor das abelhas, os progenitores que dão o seu alimento aos seus filhos, o cão que arrisca a sua vida para salvar a do dono, o animal que adota as crias de outro indivíduo, mesmo que de outra espécie? Vem à mente a história de Rómulo e Remo, fundadores de Roma, alimentados por uma loba ou a de Páris, príncipe troiano alimentado por uma ursa. Este aparente altruísmo tem a sua raíz no egoísmo dos genes. O importante não é a preservação de um gene em particular mas sim a maximização das suas cópias (como as cópias de genes são todas iguais, ao contrário de um filho, todas as cópias são o mesmo gene, espalhado por vários animais diferentes). Dessa forma, a preservação do gene, característica que é passada aos animais que integra, levam a que este preserve qualquer cópia do gene existente em qualquer animal.

   Mas os animais não conseguem analisar o código genético uns dos outros, pelo que inconscientemente preservam os animais que têm uma probabilidade grande de terem várias cópias dos seus genes (cada gene necessita ser preservado). Quantas mais cópias dos seus genes um animal aparentar poder ter, maior será o altruísmo para com ele. Os meios pelos quais essa avaliação inconsciente é feita passa pela identificação dos membros da família (mães reconhecem as suas crias pelo cheiro e pelo som, irmãos pelo tempo de convivência infantil, parentes próximos por características físicas comuns). Claro que a identificação não é perfeita, podem ocorrer identificações falsas como familiares de animais estranhos ou a de membros da família como estranhos. Por vezes, até membros de outra espécie podem ser identificados como podendo conter potenciais cópias dos seus genes.

   Assim, o pequeno cuco, sozinho num ninho, tem um conjunto de genes que o levam a maximizar a sua sobrevivência: destrói os outros ovos (que não são seus irmãos) e garante para si todos os recursos alimentares. Os pais da ave parasitada pelo cuco alimentam a cria estranha, porque nasceu no seu ninho de um ovo aparentemente posto por eles. Um cão salva a vida de um membro próximo da sua família (a convivência assim o determina), que teria muitas cópias dos seus genes se não se desse o caso de ser de uma espécie bem diferente (nós). A loba e a ursa lá tiverem o seu mecanismo identificador ver o pequeno bebé como uma cria sua. E o que diz isto sobre a espécie humana? Será que somos essencialmente uns hipócritas, egoístas até aos ossos mas aparentando altruísmo? É aqui que entra o conceito de meme. Quando o Ser Humano surgiu, uma nova experiência genética, uma nova equipa de genes pronta para disputar mais um jogo de sobrevivência, surgiu. O ênfase não estava já nas características físicas (a tendência geral dos primatas é o do aperfeiçoamento do cérebro), estava nas ideias que produzia. O novo replicador, o meme, faz cópias mais velozmente (a evolução cultural na espécie humana é clara nesse aspecto, a evolução biológica decorre ao longo de milhares de anos, a evolução cultural num curto espaço de tempo) e compete ferozmente na nova arena de combate que é a mente humana.

   Mas o que é exatamente um meme? Exemplos de memes são melodias, ideias, lemas, modas de vestuário, maneiras de fazer potes ou de construir arcos. Tal como os genes se propagam de corpo para corpo, os memes propagam-se saltando de cérebro em cérebro. Quando se lê um livro, várias dezenas ou centenas de memes estão a ser transmitidos para o cérebro dos leitores, quando se conversa com alguém, dezenas de memes estão a competir no cérebro do ouvinte (vencendo os mais adaptados às condições intelectuais que encontram), quando se lê uma citação particularmente profunda, o meme dessa frase (e as miríades de memes que ele gera) encontram um nicho no cérebro de quem a apreciou. Nem sempre os melhores memes (isto é, os mais lógicos ou mais «inteligentes») são os que vencem num cérebro. Como em cima se indicou, um meme só será vencedor num cérebro com memes com os quais consegue eficazmente cooperar. Por exemplo, o meme «compaixão» não estará bem adaptado para sobreviver no cérebro de um assassino, o meme «ciência» não estará bem adaptado para sobreviver no cérebro de um extremista religioso. Todos eles são memes vencedores, com fortes características, mas que não formam boas equipas cooperativas em alguns cérebros, como pernas fortes num animal aquático. Nos genes, estão contidos elementos de formação de memes (o meme «amor» surge dos e transcende os genes «procriação»), os memes podem sobrepor-se aos genes (o meme «suicídio» claramente concorre e vence contra o gene «auto-sobrevivência»), genes para um cérebro menos capaz afectam diretamente os memes que podem ser produzidos e copiados, o meme «engenharia genética» permite à nova geração de memes manipular os ancestrais genes, a criação de melhores estirpes de animais e plantas de cultivo permite aos memes manipular a forma como os genes são seleccionados.

   O futuro da Humanidade passa pela criação e propagação cada vez maior de memes benéficos (como o meme «tolerância», o meme «respeito», o meme «bondade») como forma de suplantar os genes «agressividade», «sobrevivência a qualquer custo»,…. Quem quer que ceda aos seus genes em detrimento dos memes está, verdadeiramente, a comportar-se como um animal… Assim, quando de manhã se ouve uma música particularmente irritante mas que não nos sai da cabeça o dia todo, estamos perante um meme-vírus, que temporariamente se sai vencedor no cérebro, até que os mecanismos de defesa mentais consigam neutralizá-lo. Muito mais há para dizer sobre estas fascinantes entidades replicadoras, os memes, mas o meme «não sejas maçudo» saiu vencedor da contenda mental…

   Um dos mais famosos membros da família Cuco (Cuculidae) é nativo do continente americano, em particular da América Central. É um cuco terrestre, cujos hábitos de procriação divergem dos do seu primo europeu. Há o Geococcyx californiamus (habitante dos desertos do sudoeste dos EUA) e o Geococcyx velox (habitante do México). Estes cucos têm uma característica comum às da espécie europeia: o seu chamamento «cuco» mas, ao contrário dos seus primos transatlânticos, têm por hábito correr (que preferem a voar), sendo a sua velocidade máxima 30 km/h (a velocidade de um maratonista olímpico mas é capaz de manter essa velocidade por muito mais tempo). Os seus ninhos situam-se em arbustos, a um metro do solo, não migra nem põe os seus ovos nos ninhos de outras aves. É o famoso Papa-léguas, que inspirou a criação, em 1948, da personagem do mesmo nome pela Warner Brothers. Apesar de o referido desenho animado fazer um som que lhe valeu a alcunha de Beep-beep, a verdade é que faz o mesmo som que qualquer outro cuco. A ideia de que fazem «beep-beep» foi um bem sucedido meme, que se propagou a partir dos desenhos animados e possui, neste momento, milhares (se não milhões) de cópias suas em outros tantos cérebros…

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