77. Grande Saber

  Alexandre Magno («Alexandre, o Grande») viveu entre 356 AEC e 323 AEC. Nos seus curtos 33 anos de vida, fundou um dos maiores impérios do Mundo (com a metade da área do Império Português). E conseguiu-o em 13 anos, dos 20 anos (quando subiu ao poder) até aos 33 anos (quando morreu). Foram tais as suas proezas militares que serviu de modelo a grandes conquistadores como Júlio César e Napoleão (que, mesmo assim, nunca lograram o mesmo êxito militar). Oriundo da Grécia unificada pelo seu pai, Filipe II da Macedónia (um reino pobre e inculto no norte da Grécia), Alexandre derrotou o maior império da altura, o Império Persa, ao longo de batalhas onde a sua determinação e astúcia derrotaram exércitos muito superiores em número ao seu. Alexandre acreditava ser bisneto do herói grego da Guerra de Tróia Aquiles.

   Falou-se no Império Maurya no artigo A Roda do Príncipe que explora a história de Açoka e como ele influenciou Mahatma Gandhi passados 25 séculos e da ligação entre o Império Persa e os 3 Reis Magos no artigo Os Medos dos Magos, onde se explora a origem do Monoteísmo, a verdadeira história dos 3 Reis Magos e a sua ligação à Alemanha. 

   Quando o seu pai, Filipe II, era rei da Macedónia (359 AEC-336 AEC) a Grécia era constituída por uma série de regiões, governadas por poderosas cidades-estado, continuamente em conflitos entre si. Filipe derrotou cada uma dessas regiões e unificou a Grécia como uma só nação sob o domínio macedónico, com capital na cidade de Pela, cidade onde nasceria Alexandre. Na altura, a grande potência militar do mundo (mediterrânico) era a Pérsia, enorme Império que se estendia do Egipto à Índia. A Pérsia sempre cobiçou as cidades gregas na Ásia Menor (uma das mais reconhecidas atualmente é Tróia) e mesmo a Grécia continental. Ao longo dos séculos, por várias vezes entrou em guerra com as cidades estado gregas com vista à sua conquista. Os seus intentos não foram todavia concretizados. Uma das mais famosas e memoráveis batalhas que se deram por ocasião de uma dessas invasões foi quando um grupo de 300 soldados espartanos, liderando 1500 soldados aliados, impediu, durante dias, no estreito das Termópilas, a marcha do exército persa de milhares de homens. Todos os 300 espartanos e o seu rei Leónidas acabaram por morrer quando os persas, à distância, os alvejaram com milhares de setas, mas a interrupção permitiu que as tropas gregas das outras cidades-estado chegassem e repelissem os invasores.

   Assim que Filipe II unificou a Grécia (ainda que tenha deixado Esparta por conquistar, tal como o seu filho Alexandre),  fez planos para a invasão do enorme Império Persa, o seu vizinho belicoso. Mas, antes de poder iniciar a invasão, foi morto por um antigo guarda-costas (desconhece-se exatamente as razões, só há especulações). Após a morte do seu pai, Alexandre encarregou-se de mandar assassinar os seus irmãos e outros pretendentes e subiu ao trono grego. Assim que reclamou a coroa, várias regiões gregas revoltaram-se, procurando aproveitar-se da inexperiência do jovem Alexandre. Mas os seus planos fracassaram e Alexandre esmagou a revolta de forma firme e violenta. Com o reino pacificado, Alexandre prosseguiu os sonhos de invasão da Pérsia do seu Pai. Numa série de brilhantes combates, o seu exército de 35 mil homens derrotou o exército de mais de 100 mil homens de Dário III, o rei da Pérsia com 46 anos, inteligente e refinado mas pouco dado às lides militares. Dário foi finalmente derrotado (e morto enquanto, depois de abandonar as suas tropas a meio de uma batalha, fugia perante a investida de Alexandre). O maior império do mundo pertencia-lhe agora, todas as suas riquezas, povos e saberes. Em várias partes do seu vasto império, desde o Egipto à Ásia, fundou cerca de 12 cidades com o seu nome: Alexandria, Egipto; Alexandria em Susiana, Kuwait; Alexandria na Aracósia, Afeganistão; Alexandria do Cáucaso, Afeganistão; Alexandria em Oxus, Afeganistão; Alexandria na Aracósia, Afeganistão; Alexandria Bucéfala (o nome do cavalo de Alexandre) no Paquistão; Alexandria Escate, “A longínqua”, Tajiquistão; Alexandreta na Turquia; entre outras.

   Alexandre, quando voltava das suas campanhas na Índia de regresso à Grécia (aonde não tinha ido desde que partira para a conquista da Pérsia), adoeceu subitamente e morreu com a idade de 33 anos. Uma série de guerras civis surgiram então, com vista à determinação de quem deveria suceder a Alexandre (antes da sua morte, ao ser interrogado sobre quem o devia suceder, Alexandre enigmaticamente respondeu «o mais merecedor»). O Império acabou por ser dividido entre 4 dos seus generais: os Selêucidas na Mesopotâmia e Ásia Central, os Atálidas na Anatólia e os Antigónos na Macedônia

 Ptolomeu ficou com o Egito e a Cirenaica; Seleuco com a Ásia; Antígono com a Grécia e Lisímaco com a Anatólia. Ptolomeu e os seus descendentes constituíram a última dinastia de faraós a governar o Egipto. Era uma dinastia de origem grega e o seu último governante egípcio foi Cleopatra Thea Philopator (Cleópatra VII). Houve várias outras Cleópatras na História (na Grécia e no Egito), mas foi a sétima no Egito que ficou nos anais. Cleópatra é um nome de origem grega Κλεοπάτρα Kleopatra que significa «A glória do (seu) pai»). O Egipto foi, no final da vida de Cleópatra, anexado ao Império Romano e nunca mais os faraós governaram o Egipto. Curiosamente, quando Alexandre era novo, o seu pai tomou como nova esposa uma mulher de nome Cleópatra, de quem teve um filho. Isto causou grande sofrimento a Olímpia, mãe de Alexandre, sofrimento que este nunca perdoou e tenha eventualmente o levado a matar o seu meio-irmão quando subiu ao poder. Houve assim uma Cleópatra no início da influência de Alexandre no mundo e houve uma Cleópatra quando a sua influência desapareceu, no fim da dinastia ptolemaica.

  1.    Ptolomeu I fundou, em Alexandria, o Templo das Musas ou Mousaion (que é a origem da palavra «museu») ao pé do túmulo de Alexandre Magno, que pediu para ser enterrado nessa cidade (de que ele pessoalmente escolheu a localização e delineou os planos de construção). Musa vem do grego Μοῦσα «Mousa» (que significa literalmente «poema» ou «canção») e designava as 9 Deusas (Filhas de Zeus e de Mnemosine Μνημοσύνη, deusa da Memória e de onde evoluiu as palavras mnemónica e amnésia) que presidiam às artes e ciências e que inspiravam quem nelas se distinguia. O seu líder era o Deus grego Apolo, conhecido como Apollon Mousagetes (Líder das Musas). Os seus nomes eram: Calíope (poesia épica, da ciência e da eloquência); Euterpe (música); Clio (história e criatividade); Erato (poesia amorosa); Melpómene (tragédia); Tália (comédia); Polímnia (poesia sagrada, geometria, meditação e agricultura); Urânia (astronomia, matemática, lembranças , surrealismo e da Astrologia ) e Terpsícore (dança)

   Depois o seu filho, Ptolomeu II Philadelphus (284 AEC-246 AEC), mandou construir um biblioteca junto ao templo das musas do seu pai. Seria esta biblioteca que viria a ser conhecida como a Grande Biblioteca de Alexandria. Pensa-se que a Biblioteca chegou a conter entre 400 mil e 700 mil pergaminhos e seu o método de aquisição de novos pergaminhos era curioso: qualquer estudioso que pretende-se consultar a Biblioteca tinha de deixar um pergaminho novo na Biblioteca e uma cópia era-lhe entregue. Sabe-se que a Biblioteca foi destruída pelo fogo, mas quando ou por quem é matéria de muitas lendas e opiniões divergentes. Quase todo o conhecimento do Mundo Antigo Ocidental estava armazenado nos seus pergaminhos, pelo que a sua destruição foi uma enorme perda para o conhecimento humano. Uma das lendas para a sua destruição prende-se com a invasão da cidade pelo general romano Júlio César entre 48 AEC e 47 AEC. Júlio César mandou incendiar a frota egípcia ancorada no porto da cidade e alguns historiadores referem que o fogo se espalhou para cidade e destruiu a Biblioteca. Mas contemporâneos de César (mesmo os seus opositores) não referem a destruição da Biblioteca (ou a sua pilhagem de acordo com outras fontes). É também improvável que tenha sido a invasão romana a destruir a Biblioteca, pois as tropas romanas aquartelaram-se na mesma zona onde se situava a Biblioteca, o que seria impossível se esta tivesse sido destruída pelo fogo. A destruição acidental por um fogo originado no porto seria também muito difícil, tendo em conta a construção em pedra da Biblioteca e dos locais de armazenagem dos pergaminhos. Outros historiadores levantam a hipótese de a Biblioteca ter sido queimada durante um período de guerra civil no final do século 3, mas sabe-se que o Museu (o «templo das musas»), que era adjacente à Biblioteca, existia ainda no século 4. Há ainda a alegação de que, no século 7, durante a segunda invasão árabe do Egito, o General Amir (‘Amr ibn al-‘As) do Califa Omar (ʿUmar ibn Al-Khattāb) terá ordenado a destruição dos pergaminhos da Biblioteca dizendo que «Se não está no Corão é heresia, se está é redundante». Esta alegação é geralmente considerada falsa e parte da propaganda cristã contra os muçulmanos. O que se sabe é que, em 391, o Imperador Teodósio I ordenou a destruição dos templos pagãos que existiam no império. Teodósio foi o último imperador do império romano unido, antes da divisão, pelos seus descendentes, no Império Romano do Ocidente, com sede em Roma, e o Império Romano do Oriente, com sede em Constantinopla, a actual Istambul. Teodósio foi também o Imperador que tornou a religião oficial do Império o Cristianismo. Após a sua ordem, não há mais registos do Templo das Musas em Alexandria. Há um consenso generalizado entre os modernos historiadores que a Grande Biblioteca de Alexandria sofreu vários eventos destrutivos ao longo da sua história. Mas o maior e o definitivo desses eventos terá sido a destruição dos templos pagãos, no final do século 4, por ordem de Teodósio I.

   Em 2002 foi inaugurada, em Alexandria, a Bibliotheca Alexandrina. Esta nova biblioteca, construída perto da localização original e um projeto da UNESCO e do Governo Egípcio, pretende simultaneamente comemorar a Grande Biblioteca e fazer renascer o espírito erudito dessa época há muito perdida. A sua construção demorou 7 anos e  cerca de 270 mil milhões de euros (2017). A ideia original para a construção da nova biblioteca surgiu em 1974 na Universidade de Alexandria e inclui espaço para 8 milhões de livros e 11 pisos para leitura com uma área total de 70 mil m2. Há áreas especializadas para deficientes visuais, para jovens, para crianças, 3 museus, 4 galerias de arte, um planetário e um laboratório de restauração de documentos antigos. As paredes exteriores estão gravadas com caracteres de 120 línguas humanas.

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