78. Lacónica língua

   Um dos povos mais famosos da História, pelos seus costumes, pelos seus hábitos, pelas suas proezas é o Espartano. Na História Clássica Grega, duas cidades surgem, rivais: Atenas e Esparta, uma pelas suas proezas artísticas, científicas e navais e outra pelos seus sólidos princípios morais (mas não se confunda a moral espartana com a moral judaico-cristã dos dias de hoje) e capacidade militar. Os Espartanos são vistos como o supra-sumo do povo guerreiro, cuja filosofia de vida é invejável. O apego às coisas simples, o desprezo pelo luxo, a vida regida por sólidos princípios morais têm servido de inspiração a muitas pessoas ao longo da História.

   Esparta era a antiga cidade, o nome da cidade-estado era Lakedaímōn Λακεδαίμων,  e era assim que se auto-designavam. O símbolo no escudo espartano é a letra λ (minúscula) ou Λ (maiúscula) «lambda», equivalente ao moderno «L», e primeira letra do seu nome. O adjectivo «espartano» significa, em muitas línguas, «rigoroso, austero, desprovido de coisas supérfluas» (spartan em inglês, spartanisch em alemão, spartátis «Σπαρτιάτης» em grego, spartanskiy «спартанский» em russo, spartiate em francês, entre outras). Estas eram virtudes espartanas que eram inculcadas, desde cedo, nas suas crianças. O adjectivo «lacónico», que é sinónimo em várias línguas de «sucinto, directo, sem rodeios» está também ligado aos Espartanos (Iaconic em inglês, lakonisch em alemão, lakonikós «λακωνικός» em grego, lakonichnyy «лаконичный» em russo, laconique em francês, entre outras). A região controlada por Esparta era (e é ainda) chamada de Lacónia e os Espartanos eram também chamados Lacónicos. Fica situada no Peloponeso, a península sudoeste da Grécia. O modo direto (e por vezes rude) com que os Espartanos falavam era chamado «discurso lacónico» e daí surgiu o adjectivo moderno.

   Os Espartanos falavam uma variedade do Dórico, uma das três variedades de um dos   3 grupos de línguas que formavam o Grego Antigo. O Dórico foi trazido por invasores gregos de outra parte da Grécia e  veio a dar origem à moderna língua tsaconiana, diferente do moderno grego e ainda falada em aldeias à volta de Esparta.

   Episódios como o dos 300 de Esparta, no qual, em 480 AEC, o Rei de Esparta Leónidas comandou um grupo de 300 Espartanos (liderando um exército de 7000 soldados de outras cidades gregas) parou, durante dias, a segunda invasão persa da Grécia por parte do exército de Xerxes de milhares de Persas com mais de 4 vezes o seu número. Quando Xerxes ordenou que os Espartanos depusessem as suas armas, Leónidas respondeu dizendo Molṑn labé μολών λαβέ «Venham buscá-las», um dos muitos exemplos de respostas lacónicas pelas quais os Espartanas são conhecidos. Este episódio de abnegação e auto-sacrifício serviu várias vezes de modelo ao longo da História. Um outro episódio, contado por Plutarco, na sua obra Apophthegmata Laconica é menos conhecido: durante uns jogos olímpicos após as invasões persas., estavam presentes, na assistência, gregos de muitas cidades-estado, cada um na sua secção. Um ancião chegou mais tarde e procurava um lugar para assistir aos jogos na bancada. Mas era ridicularizado ou ignorado à medida que percorria a secções dos Atenienses, Tebanos,… Até que chegou à secção onde estavam os Espartanos. Todos se levantaram e ofereceram-lhe o lugar. Nesse momento, todo o estádio se levantou e aplaudiu o gesto espartano e o ancião terá dito “Todos os Gregos sabem o que é correto mas só os Espartanos o fazem“. Não é, no entanto, recordado que a Batalha de Maratona é um claro exemplo do egoísmo e egocentrismo espartano face aos outros povos. A primeira invasão persa, por parte de Dário I, deu-se em 490 AEC. A Pérsia procurava anexar a Grécia ao seu vasto império e castigar Atenas pelo apoio que dava à revolta de cidades persas na costa mediterrânica. Esta pediu ajuda a Esparta. Entretanto, a armada persa encontrava-se estacionada na Baía de Maratona e as tropas desembarcaram. Os Atenienses, apesar de em menor número, venceram os persas e um mensageiro correu, de Maratona até Atenas, para dar as boas novas de que os persas tinham sido vencidos. A distância, de 34,5 km, foi percorrida sem parar e o mensageiro, após dar as boas notícias à cidade, morreu de exaustão. As poucas tropas espartanas que foram enviadas para apoiar Atenas chegaram já depois da batalha terminar. Os Espartanos estavam meramente preocupados em proteger o Peloponeso, uma atitude egoísta que foi mal vista pelas outras cidades gregas. Foi a História de Pheidippides, o mensageiro grego que morreu para dar as boas novas, que inspirou a criação da moderna Maratona, a prova de resistência com 42,195 km. A realidade factual e histórica deste episódio não está bem estabelecida. Além disso, há quem refira que o mensageiro morreu após correr a distância de Maratona a Esparta para pedir o apoio dos espartanos. Heródoto refere que foi o exército ateniense que fez o trajecto de Maratona a Atenas e não um mensageiro. Se as Termópilas cantam as glórias de Esparta, Maratona percorre os seus defeitos…

   Quando Esparta foi fundada, por volta do século XI AEC, o seu território era enfraquecido por desorganização política e social até que, por volta do século 7 AC, um antigo soldado, de nome Licurgo, mudou tudo e criou a organização social que formaram a base do espírito espartano e a sua base militarizada. Licurgo, com o apoio dos seus companheiros de armas, tornou-se tutor do Rei espartano Carilau. Licurgo alterou profundamente a estrutura social e política de Esparta, reformando com uma clara orientação militar a sua sociedade. Algumas das suas reformas incluem: a proibição do uso de ouro ou prata em termos financeiros, usando-se o ferro como moeda de troca (o objectivo era tornar mais igualitária a sociedade); a obrigatoriedade da vida em comum em quartéis de todos os jovens do sexo masculino que não fossem casados, o que só podia acontecer quando tivessem 30 anos (desde pequenos conheceriam os seus companheiros e lutariam melhor); a destruição das muralhas da cidade (para manter todos em permanente estado de alerta); a divisão das terras aráveis por entre os Espartanos, que seriam trabalhadas pelos Helotas, nome dado aos escravos espartanos; a implementação da agoge «crescimento», o rígido sistema educacional espartano, no qual as crianças do sexo masculino com 7 anos eram separadas da sua família, criados em conjunto para formarem fortes laços emocionais, com treinos físicos e psicológicos intensos e uma sólida formação militar; o estímulo, através da sub-alimentação, do roubo de comida pelos rapazes jovens. Se fossem apanhados eram severamente punidos (não pelo roubo mas por terem sido apanhados), assim promovendo capacidades de resistência e astúcia.

   Esparta era, na Grécia clássica, a única cidade-estado com um exército permanente, com um sistema de ensino em que as crianças eram, desde tenra idade, treinadas para serem soldados, para terem uma vida austera e serem fortes de corpo e mente. As mulheres de Esparta eram as mais livres de todas as mulheres gregas. Eram as únicas mulheres gregas que andavam livremente pelas ruas da cidade. Como a prostituição era proibida em Esparta, uma mulher sozinha numa rua não levantava dúvidas sobre os seus propósitos. Além disso, também elas recebiam treino físico desde pequenas, com o objetivo de serem também fortes fisica e mentalmente e assim darem à luz crianças igualmente fortes. Além de actividades físicas, também se dedicavam à dança. A primeira mulher a ganhar nos Jogos Olímpicos da Grécia Antiga foi Cynisca (nascida em 440 AEC), princesa espartana. Ganhou em 396 AEC e 392 AEC a corrida de carros puxados a cavalo contra outros concorrentes masculinos.

   Toda a cultura espartana estava direcionada para a criação de soldados, fortes, corajosos, invencíveis. E os seus intentos foram alcançados. Quando um soldado espartano partia para a guerra, as mulheres da sua família entragavam-lhe o escudos dizendo «Com ele ou sobre ele» Ἢ τὰν ἢ ἐπὶ τᾶς! «E tan e epi tas!», querendo dizer que o guerreiro só devia voltar ou vitorioso ou morto. Mas a princesa espartana mais famosa é, sem dúvida, Helena de Tróia. Considerada a mulher mais bela da Grécia, era casada com o Rei espartano Menelau. Quando Helena foi levada para Tróia pelo príncipe troiano Páris, Menelau e o seu irmão Agaménon reuniram os gregos e, após 10 anos de guerra, a cidade foi destruída e Menelau e Helena voltaram a Esparta, para junto da filha de nome Hermíone (com 19 anos de idade) e governaram até ao fim das suas vidas.

   Mas, hoje em dia, Esparta é uma pequena cidade na Grécia, com 18 184 habitantes em 2001. Apesar de nunca ter sido uma cidade rica e luxuosa (nem os Espartanos queriam que fosse), influenciou e dominou vastas áreas da Grécia ao longo da sua História. O que aconteceu a tão temeroso povo? Talvez o início da derrocada espartana se tenha dado em 371 AEC, na Batalha de Leuctra, onde o exército espartano, em plena forma e confiante após a derrota e conquista da cidade de Atenas, foi derrotado pelo Exército da cidade de Tebas liderado pelo general Epaminondas. O mito da invencibilidade espartano sofreu o primeiro golpe. Alguns anos depois foi a vez de Filipe II da Macedónia, pai de Alexandre o Grande, enfrentar os Espartanos na sua caminhada para a unificação da Grécia. Chegado perto da cidade (não chegou «às portas da cidade» porque não havia portas nem muralhas), ordenou aos Espartanos «Rendam-se ou se, eu entrar na cidade, escravizar-vos-ei a todos». A resposta dos Espartanos foi um lacónico “Se”. Os Espartanos não se renderam e Filipe, preferindo não enfrentar os temíveis hoplitas espartanos, destruiu toda a região da Lacónia, subjugando dessa forma a cidade pela falta de meios de subsistência. Os hoplitas (do grego «hoplon», equipamento militar) eram os soldados de infantaria pesada grega. Geralmente combatiam numa formação conhecida como Falange (do grego «phalangos», dedo), na qual formavam uma linha com as pontas das lanças viradas para fora.

   Em 396 DC, a cidade de Esparta foi destruída e a Lacónia foi povoado por povos eslavos. Entretanto, o Império Romano do Oriente reconquistou o território grego e o antigo local onde se situava Esparta. Mas os poderosos Francos conquistaram de novo a região e, ao chegar onde se situava Esparta, encontraram um cidade chamada Lacedaemonia, que ocupava parte da zona onde era outrora a famosa cidade. Em 1249 fundaram, a 5 quilómetros da antiga Esparta, a cidade de Mistras. Mas as vicissitudes da outrora-Esparta não tinham acabado. Em 1460, foi conquistada pelos Turcos Otomanos e , durante 6 séculos, Mistras (já não Esparta) dominou a região da Lacónia. Mas, em 1834, a Grécia conquistou a sua independência ao Império Otomano e a cidade de Esparta foi re-erguida na sua antiga localização, por ordem do Rei Otto da Grécia. É hoje a capital da Periferia da Lacónia (há 13 periferias ou «regiões» na Grécia), com 19 854 habitantes e uma área de 230 km2.

   O espírito espartano há muito desapareceu e apenas as ruínas da antiga cidade podem ainda ser vistas… A mítica Esparta, lar dos mais temíveis guerreiros da antiguidade, conheceu mais derrotas do que vitórias na sua História e o brilho dos seus feitos foi, muitas vezes, eclipsado pela estreiteza das suas ambições ou pelo egoísmo das suas convicções. Assim ocorreu na História desta cidade, que podia ter sido grande mas cuja maior fraqueza foi a sua maior força: a sua feroz independência.          

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