83. Letras de Cláudio

   Sendo a Língua Portuguesa uma das 5 principais línguas latinas (as outras quatro são Espanhol, Francês, Italiano, Romeno/Moldavo de que se falou no artigo Quinta Flor do Lácio), a maioria da sua estrutura e das suas palavras baseia-se no Latim. Uma dessas palavras é uma palavra latina que se baseia na história de vida de um menino valente, nascido coxo e gago, e que suplantou as suas dificuldades e mudou o mundo. É a palavra claudicar. É um verbo intransitivo que tem o significado de coxear, mancar.

   Este menino tinha o nome de Cláudio (Tiberius Claudius Nero Germanicus) e nasceu, a 1 de Agosto de 10 AEC, na cidade romana de Lugdunum (atual cidade de Lyon), na província romana da Gália Oriental (na atual França).    Nasceu numa família da alta nobreza romana: por parte do pai era neto de Lívia (a mulher do imperador Augusto) e, por parte da mãe, era neto de Marco António. Mas Cláudio não foi uma criança feliz pois nasceu com deficiências físicas que levaram a família a escondê-lo do olhar público por vergonha. O menino coxeava, era gago e estava constantemente doente. Apesar de ter ascendência imperial, ninguém o considerava como eventual sucessor do trono. Devido a essa reclusão forçada, Cláudio tornou-se um ávido leitor e um reconhecido escritor em várias disciplinas, principalmente História. Foi, por exemplo, a última pessoa que se sabe ter lido Etrusco (língua do povo que primeiro dominou a península itálica, que governou inicialmente a cidade de Roma e que acabou por ser derrotado e absorvido pelos Romanos).

   A Cláudio poucos prestavam atenção, muitas pessoas confundindo as suas deficiências físicas com deficiências mentais. As pessoas mais descrentes eram (estranhamente) a sua mãe Antónia e a sua avó paterna Lívia. Mas, apesar de membros da nobreza, a sua família sofreu inúmeras desgraças: o seu pai, Drusus Claudius Nero, morreu em campanha tinha Cláudio 1 ano. O seu irmão, Germanicus, herdeiro natural do trono, morreu em circunstâncias suspeitas quando Cláudio tinha 28 anos. A sua irmã, Livilla, casou e caiu em desgraça tinha Cláudio 40 anos (planeou o assassinato do Imperador Tibério e foi assassinada quando se soube, tendo o seu nome sido banido dos registos imperiais).

   No meio de todas os reveses que ocorriam à sua volta, Cláudio ia sobrevivendo, ignorado pelo facto de ser considerado mentalmente incapaz. No ano 37 (tinha Cláudio 46 anos) o seu sobrinho, Calígula, subiu ao trono imperial. Calígula costumava usar o seu tio como alvo de piadas ofensivas relacionadas com as suas limitações físicas. Mas, no ano 40, Calígula foi morto pelos próprios guarda-costas imperiais, a famosa Guarda Pretoriana, descontentes com as suas ações. Cláudio, como único membro adulto sobrevivente da família imperial, foi proclamado pelos militares como o novo Imperador (reza a tradição que Cláudio foi escolhido contra a sua vontade). O Senado, perante o apoio militar, não teve outro remédio senão acatar a proclamação. Apesar da falta de legitimidade legal, Cláudio subiu ao trono e assumiu o nome de Tiberius Claudius Caesar Augustus Germanicus e duas novas tradições políticas nasceram, em Roma, com a sua ascenção ao trono: a partir de então, os imperadores romanos subiam ao poder em função do apoio militar (se o perdessem perdiam grande parte do seu poder e normalmente também a vida) e o nome que juntou ao seu, «César», passaria a ser usado pelos imperadores como símbolo de poder e viria a constituir sinónimo de governante. Foi aliás deste nome que viriam a derivar os títulos de «Kaiser», dos imperadores alemães, e «Czar», dos imperadores russos. Apesar de geralmente se pensar que se trata de um referência a Júlio César, na verdade o uso de «César» como título dos Imperadores romanos começou com o subvalorizado Cláudio.

   E assim se viu Cláudio, a 21 de Janeiro de 41, como o novo Imperador de Roma. O coxo e gago Cláudio comandava a claudicar agora o destino de 55 milhões de pessoas (5 milhões dos quais com cidadania romana. Ser romano não era uma questão de origem, era um questão política e vários povos sob domínio romano abraçaram a cidadania, geralmente através do serviço militar, pelos benefícios económicos e sociais da situação). Apesar da sua mãe lhe ter alegadamente assegurado, bem antes de Cláudio se tornar imperador, que lhe seria mais fácil «mudar o alfabeto do que se tornar imperador» Cláudio governava. O seu reinado pode ter sido curto (até ao ano 54) mas teve projeção histórica. Pouco antes da sua morte, viria a casar com Agripina e a adoptar o seu sobrinho, o mais famoso Nero.

   Quando Cláudio subiu ao trono (e foi o primeiro Imperador Romano que não tinha nascido na península itálica), alargou o Império Romano, com a conquista da Trácia no sudeste da Europa, Nórica na atual Alemanha, Panfília e  Lícia na atual Turquia, Judeia e Britânia (que Júlio César tinha tentado, em 55 e 54 AEC, e falhado) e anexação da Mauritânia no Norte de África. Também construiu aquedutos, pontes, estradas, portos e túneis. Reformou também os sistemas judiciário, legislativo e administrativo.

   Pensa-se que, devido aos comentários jocosos da sua mãe, Cláudio decidiu adicionar ao alfabeto romano 3 novas letras. Estas 3 letras foram usadas durante o seu reinado (e ainda hoje há ruínas que as ostentam) mas foram abandonadas após a sua morte.

   Uma das letras era Ɔ, o antisigma, um «C» invertido na horizontal. Esta letra substituía os sons «BS» e «PS», da mesma forma que o «X» substitui o som «CS» em Português, como na palavra «flexível». Terá sido inspirada pela letra grega ψ (Psi), cuja sonoridade é semelhante. Outra das letras era Ⅎ, o dissigma inverso, um F invertido na horizontal e navertical. Esta letra representava o «U consoante» e terá sido inspirado pela letra grega Γ (gama). A terceira letra introduzida por Cláudio foi Ⱶ, a sonus medius e era um H cortado na vertical. Tinha a mesma sonoridade que a letra grega Υ (Ýpsilon ύψιλον «u simples») e tinha a mesma função, um som entre a vogal «u» e «i». Apesar de não terem vingado como letras aceites do alfabeto após a morte de Cláudio, uma das suas letras viria a juntar-se a uma outra letra: a letra Y viria a ser incorporada no alfabeto romano como substituta do «meio-H».

   Apesar das sua limitações físicas e do desprezo dos que o rodeavam, Cláudio não só sobreviveu como se tornou Imperador (e o primeiro a não ter nascido em Roma) e o seu governo foi de grande prosperidade e expansão territorial; foi fonte de conhecimento e sabedoria (sendo a última pessoa de que há registo a ter falado Etrusco); deu origem a novas palavras («claudicar», «Kaiser», «Csar»); alargou o Império e reforçou a sua habitabilidade; deu ao mundo novas letras com que se expressar. No mundo de tacanha perspectiva, na qual os fisicamente menos dotados eram ostracizados, da vida de Cláudio vem uma lição para todos nós.

2 pensamentos em “83. Letras de Cláudio

  1. Excelente artigo tal como nos habituaste desde sempre neste teu Cognosco, um blog de conhecimento, esclarecimento e de referência histórica/científica.

    Abraço

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