86. A pizza de Fra Mauro

   As ligações entre Marco Pólo, a China, os Descobrimentos e o mapa do mundo mais preciso feito antes dos Descobrimentos por Fra Mauro.

   Esta é uma pizza, um prato consumido por cada vez mais pessoas no mundo inteiro. Tal como a lagosta, começou por ser consumido por pessoas de poucos recursos mas tornou-se um prato apreciado por todos. De acordo com a Revista da Pizza, em 2017, estima-se que o mercado mundial de produção e consumo de pizza chegue aos 109 mil milhões de euros (400 mil milhões de reais) e o maior número de consumidores vive na Europa Ocidental (37%), seguido da América do Norte (35%) e da América do Sul (10%).

   A sua origem é debatida, já que muitas regiões do planeta há registos com milhares de anos de existência sobre pães achatados com algum tipo de cobertura para lhe dar sabor (da Europa e Pérsia à Chinae Índia), estando a referência mais antiga a um prato semelhante à moderna pizza na Edeida, escrita há cerca de 5 mil anos. Mas a pizza moderna surgiu em Itália e a origem do seu nome vem do século 16, quando era vendido na rua um tipo de pão achatado a que era dado o nome de pizza (segundo o Dicionário Etimológico da Língua Italiana, a palavra "pizza" vem de pinza, o mesmo que pinça em Português,do Latim pinsere). A pizza moderna surgiu em Nápoles, quando foi adicionado, no século 18, tomate à  focaccia, um pão de origem italiana, achatado e macio, coberto com sal grosso, azeite e alecrim. O tomate só chegou à Europa no século 15, trazido do continente americano juntamente com o tabaco (de que se falou no artigo A vida num sopro), a batata, o milho ou o chocolate (de que se falou no artigo A comida dos deuses).

   Uma das origens da pizza de que por vezes se fala (ainda que aparentemente sem fundamento) liga a sua origem às viagens de Marco Pólo à China no século 13, que teria trazido esta “exótica” comida ao regressar. Neste século,  em 1254, era rei D. Afonso III, o Bolonhês (ou o Bravo). Este era o quinto rei português (1210-1270), bisneto de D. Afonso Henriques. Era filho de D. Afonso II (o terceiro rei português) mas era o segundo filho do rei, pelo que não antevia uma subida ao trono. Ficaria sempre na sombra do seu irmão Sancho. Como tal, passou grande parte da vida na França, no condado da Bolonha, onde veio a casar com a herdeira do condado bolonhês, Dona Matilde. Tornou-se assim o Conde de Bolonha (de onde viria o seu cognome o Bolonhês). Mas, devido a conflitos existentes entre o seu irmão Sancho II (nessa altura já o quarto Rei de Portugal) e os poderes eclesiásticos, em 1246 o papa Inocêncio IV ordenou que o rei fosse afastado e substituído pelo seu irmão, o Conde de Bolonha, Afonso. Obedecendo à ordem papal, Afonso regressou a Portugal e assumiu o trono com relativa facilidade (devido à impopularidade do seu irmão, que subiu ao trono ainda criança e era controlado pelos nobres contra o povo) em 1247, abdicando do título de Conde de Bolonha. Em 1253 divorciou-se de Dona Matilde e casou com Dona Beatriz, filha do Rei Afonso X de  Castela. Em 1254 D. Afonso III reuniu as primeiras Cortes do reino, em Leiria, reunindo representantes do três setores da sociedade portuguesa: a nobreza, o clero e o povo. Foi também Afonso III, o Bolonhês, que finalizou as conquistas do território que seria Portugal, aos Mouros, ao conquistar a cidade de Faro. Como visto no artigo As origens da bandeira, como D. Afonso III não era o filho primogénito do anterior rei, segundo as regras da Heráldica, ao subir ao trono, teve de incluir uma característica pessoal à bandeira do seu pai. Optou por incluir castelos dourados num fundo vermelho, originados do brasão do reino espanhol de Castela, devido à naturalidade tanto da sua mãe, Urraca de Castela como da sua segunda mulher, Dona Beatriz.

   Enquanto tudo isto decorria em Portugal nascia, a 15 de Setembro de 1254, na cidade italiana de Veneza, um menino a quem foi dado o nome de Marco. Marco nasceu numa família de comerciantes e os seu pai (Nicolau) e o seu tio (Mafeu) faziam negócios com o Oriente. Em 1259, a família vivia em Constantinopla mas decidiu mudar-se para a cidade de Soldaia (na Crimeia), parte do Império Mongol, receando os ventos de mudança que se avizinhavam. Em 1261 (apenas dois anos depois), a cidade foi conquistada e os residentes venezianos na cidade mortos. Foi neste mesmo ano, 1261, que nasceu o herdeiro real do trono português, D. Dinis, filho de Afonso III e Dona Beatriz, sete anos mais novo do que o pequeno Marco Pólo.

   O Império mongol estava dividido em 4 grandes zonas. A divisão onde se integrava a cidade onde vivia a família de Marco incluía o que é agora o Irão, o Iraque, Afeganistão, Azerbeijão e parte do Paquistão. Era governada por um irmão de Kublai Khan, o grande líder que residia na capital mongol Khanbaliq, actual Pequim na China. Em 1264 Nicolau e Mafeu integraram uma embaixada com destino ao Grande Khan, que chegou em 1266. Os irmãos foram acolhidos pelo Imperador Mongol e enviados por este de volta ao Ocidente, com uma carta dirigida ao papa pedindo-lhe professores que ensinassem aos mongóis os costumes e religião ocidentais. Chegaram a Veneza em 1269, após muitas peripécias, para descobrirem que o Papa tinha morrido. Aguardaram então a eleição de um novo, que só ocorreu em 1271, com a subida ao trono de Gregório X. O novo papa respondeu ao pedido de Kublai Khan e, nesse mesmo ano (1271), os irmãos foram enviados de volta ao Império mongol. Desta vez Marco (que tinha já 17 anos) acompanhou-os. Quando lá chegaram, Marco caiu nas boas graças do Imperador mongol e trabalhou para ele durante 17 anos. Entretanto já morrera, em Portugal, D. Afonso III e subira ao trono, em 1279, o seu filho e de Dona Beatriz, D. Dinis, o Lavrador.

   Em 1291, foi incubida a missão, ao já adulto Marco (29 anos), de escoltar uma princesa mongol até ao reino do seu noivo, o novo governante do reino mongol que tinham deixado para trás. Após completarem a sua missão, voltaram à cidade de Veneza, onde chegaram em 1295. Todos estes acontecimentos são relatados no seu livro As viagens de Marco Pólo. Poucos acreditaram nas suas fantásticas descrições mas as multidões aglomeravam-se para as ouvir. Entretanto, as cidades de Veneza e Génova (e também Pisa) regularmente entravam em conflito militar com vista ao domínio do Mediterrâneo. Numa dessas batalhas, em Setembro de 1298, na Batalha Naval de Curzola, ganha pelos genoveses aos venezianos, Marco Pólo foi capturado e enviado para a prisão. Terá sido aqui que Marco Pólo ditou ao seu companheiro na prisão, Rustichello de Pisa, as suas vivências na China (chamada de Catai por Marco Pólo), escrita em Francês arcaico. Rustiquelo era uma romancista que tinha, anteriormente à prisão, escrito Roman de Roi Artus (O Romance do Rei Artur), também conhecido como A Compilação, que inspirou, durante séculos, a literatura espanhola, francesa, italiana e mesmo grega. Em 1299, foi liberto da prisão, tendo casado com Donata Badoèr, de quem teve e filas (Fantina, Bellela e Moreta) e foi um próspero mercador até à data da sua morte. Em 1323, Marco Polo adoeceu e morreu no ano seguinte. D. Dinis morreu um ano após Marco Pólo, em Janeiro de 1325, com a idade de 63 anos. Contacto direto entre Europeus a a Corte Chinesa só voltaria a ser feito no século 16, quando os Portugueses chegaram à China.

   A influência da vida de Marco Pólo foi grande. Foi na obra de Marco Pólo que Cristóvão Colombo se baseou para os seus «cálculos» para chegar à China por Ocidente, após os Portugueses terem descoberto a Rota da Índia pelo Cabo da Boa Esperança. O aeroporto de Veneza chama-se Aeroporto di Venezia Marco Polo, em sua honra. Uma das lendas mais conhecidas sobre Marco Pólo refere que teria sido ele que trouxe, da China para a Europa, as pizzas e o esparguete. No entanto, há evidências históricas de que os romanos conheciam e comiam esparguete pelo menos desde o século IV AEC (perto de 600 anos antes de Marco Pólo chegar da China). Além disso há também registos do consumo de alimentos cozinhados na forma de pizzas na Itália romana e mesmo antes, nas colónias gregas na península (é referido, por exemplo, o consumo de «um pedaço achatado e redondo de massa cozinhada em pedras quentes e coberta com azeite, ervas aromáticas e mesmo mel».) Além disso, na cidade subterrada de Pompeia (a cidade romana engolida por uma erupção vulcânica do Monte Vesúvio no ano 79), há antigas «pizzarias». A diferença dessas «pizzas» romanas para as «pizzas» modernas é que, nessa altura, o tomate ainda não era conhecido na Europa. O relato da viagem de Marco Pólo inspirou também, em 1450, o monge Fra Mauro a criar o mapa do mundo mais preciso e detalhado criado até então. Fra Mauro criou dois exemplares originais: uma para o Governo da Cidade de Veneza e encontra-se no Sale Monumenti do Museo Correr em Veneza, na ilha Murano onde ele vivia; outro foi criado mais tarde (em 1459) para o rei português D. Afonso V, tio do Infante D. Henrique e colocado no palácio real no Castelo de S. Jorge. Este mapa desapareceu a partir de 1494. O mapa era circular, feito em couro, com moldura de madeira, com um raio de 2,4 metros. Fra Mauro morreu em 1460, 28 anos antes de o Cabo da Boa Esperança ter sido dobrado pelos portugueses, em 1488.                                               

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