87. Grotesco coliseu

   O Renascimento foi um período cultural na História Europeia, entre o século 14 e o século 17, que estabeleceu a ligação entre a Idade Média e a História Moderna. Tendo o Ser Humano como centro de tudo, provocou alterações em campos do conhecimento que vão das artes, às ciências, à cultura e à literatura, dando ênfase às culturas clássicas romana e grega.

   Uma das grandes influências nesse regresso ao passado clássico (que influenciou artistas renascentistas como Rafael, Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci) foi um menino romano cujo pai foi assassinado quando ele tinha apenas 3 anos, foi separado da sua mãe (que foi banida pelo seu irmão) e entregue aos cuidados de uma tia. Os feitos da sua curta vida incluem dar o nome a um dos monumentos mais conhecidos do Império Romano (construído depois da sua morte), deu origem a todo um estilo de pintura e escultura e a uma palavra ainda agora usada em todas as língua latinas, foi aluno de Séneca, ajudou a combater um grande incêndio em Roma (apesar de ser mais tarde acusado de o ter ateado) e esbanjou todo o dinheiro que tinha (e do império também) para revitalizar a economia pública. Mas também mandou matar a sua mãe e a sua mulher grávida, foi casado 5 vezes (com 3 mulheres e depois 2 homens), foi odiado por muitos (e adorado por outros tantos) e suicidou-se quando tinha apenas 30 anos de idade. A este menino foi dado o nome de Lúcio quando nasceu mas é mais conhecido como Nero.

   Lucius Domitius Ahenobarbus nasceu a dia 15 de Dezembro do ano 37 da Era Corrente na cidade romana de Antium (atualmente a vila piscatória de Anzio, 50 Km a sul de Roma). Era de uma nobre família romana com fortes tradições na República romana (o seu bisavô, Gnaeus Domitius Ahenobarbus, foi implicado no assassinato de Júlio César em 44 AEC e foi eleito cônsul romano em 32 AEC). A sua mãe Agripina era sobrinha do futuro Imperador Cláudio (de que se falou no artigo Letras de Cláudio) mas o atual imperador era o seu irmão Calígula e as coisas para o lado da família Ahenobarbus não estavam de feição. Quando o pequeno Lucius tinha 2 anos a sua mãe Agripina foi banida de Roma e o seu pai assassinado um ano depois. O pequeno Lúcio foi entregue aos cuidados da sua tia paterna Domícia Lépida. Mas entretanto o Imperador Calígula foi morto (pela sua Guarda Pretoriana) e o tio-avô Cláudio subiu ao poder. Agripina foi trazida do exílio e casou com o tio.

   Ao seu filho Lúcio foi dada uma educação própria de um nobre de ascendência imperial e ficou em linha de sucessão para o trono. A educação do jovem Lucius foi confiada ao eminente filósofo romano Lucius Annaeus Seneca. Sendo sobrinha do Imperador Cláudio, a sua mãe Agripina conseguiu, no ano 50, que Cláudio adotasse o seu filho Lucius. Isto colocou-o na linha direta de sucessão para o trono imperial, uma vez que Lucius (com 13 anos na altura) era mais velho do que o filho ainda criança de Cláudio, Britânico (que teve o nome Germânico quando nasceu que foi mudado para Britânico para comemorar a vitória do seu pai). Foi nessa ocasião que o «jovem» Lucius adoptou o nome Nero Claudius Drusus Germanicus («Nero» em homenagem ao seu antepassado, o cônsul romano  Tibério Cláudio Nero e «Germanicus» em honra do seu avô materno Germanicus). No ano 51, Nero foi nomeado sucessor de Cláudio e no ano 54, após o envenenamento do Imperador (possivelmente pela sua mulher Agripina), a sua mãe foi nomeada regente pois o seu jovem filho de 17 anos ainda não tinha idade para ser Imperador.

   Os primeiros anos do reinado de Nero foram marcados pela sensatez e pelo apelo à legalidade, segundo o exemplo de Augusto. Ao Senado foi concedida maior liberdade, nova legislação foi introduzida para fomentar a ordem social, reformou-se as finanças da corte e os governadores da cidade de Roma foram proibidos de gastarem avultadas somas com os espectáculos de Gladiadores na cidade (mas não no Coliseu que, como se verá em seguida, só foi construído após a morte de Nero), era muito rigoroso em relação aos seus deveres legislativos.

   Mas Nero era uma personalidade de facetas contrastantes, simultaneamente artística, desportiva, brutal, fraca, errática, extravagante e sádica. Inicialmente os seus extremos eram suavizados pelos seus tutores Séneca e Sexto Afrânio Burrus. Mas aos poucos Nero foi perdendo o interesse na governação e dedicou-se aos prazeres mundanos (por exemplo, tomou como amante a bela Poppaea Sabina, casada com o amigo de Nero Marcus Salvius Otho. No ano 58, Otho foi enviado como Governador para a distante província da Lusitânia...)

   Nero tinha também um gosto pela arquitetura monumental. Durante o Grande Incêndio de Roma no ano 64, relatos contemporâneos relatam a presença do Imperador a auxiliar as vítimas. A casa de Nero, a Domus Transitora (que devia o nome ao facto de a sua extensão ligar as colinas Palatinas e Esquilinas, fazia a transição entre elas) foi queimada e Nero iniciou a construção de um grande palácio de nome Domus Aurea («Casa Dourada») que devia o seu nome ao facto de partes da casa, que era feita de tijolos de barro cobertos com folhas de ouro ou incrustados com jóias ou conchas raras. A Domus Aurea era ainda maior do que a sua anterior casa, pois estendia-se pelas colinas Palatina, Esquilina e ainda Ciliana (ocupava um terço da dimensão total da cidade). As sete colinas são Capitólio, Quirinal, Viminal, Esquilino, Célio, Aventino e Palatino.

   Pouco da Domus Aurea sobreviveu pois, assim que Nero morreu, Imperadores subsequentes usaram partes da estrutura para as suas próprias construções. Mas relatos contemporâneos da casa e evidências arqueológicas permitem dar uma ideia da grandiosidade do palácio. Grandiosidade que que não podia deixar de incomodar os cidadãos romanos: um romano escreveu, numa das paredes da «Domus Aurea» (um «grafitti» ancestal): «ROMA DOMUS FIET: VELOS MIGRATE QUIRITES SINON ET VEIOS OCCUPET ISTA DOMUS» (Roma inteira tornar-se-á uma casa: quirites mudem-se para Veii antes que esta casa a engula também) (quirites eram os moradores de uma das 7 colinas de Roma, a colina Quirinal, e Veii era uma cidade romana a 15 km noroeste de Roma. Atualmente as suas ruínas encontram-se sob um subúrbio de Roma de nome «Isola Farnese»). Aos poucos, a Domus Aurea foi sendo enterrada sob as novas construções da cidade e foi esquecida. Até que, no final do século 15, um jovem aventureiro encontrou uma estranha gruta (grotta em italiano) cheia de pinturas e estranhas figuras nas paredes. Outros jovens artistas de Roma souberam da descoberta e passaram a visitar este gruta com extravagantes pinturas. Sem o saberem, tinham encontrado as ruínas da Casa Dourada de Nero. Os frescos que encontravam estavam já gastos e cinzentos com a passagem do tempo, mas estas decorações grotescas (assim chamadas por estarem dentro de uma «grotta») tiveram um impacto profundo nos jovens que as visitavam. Jovens artistas como Pinturicchio, Rafael, Michelangelo ou Leonardo da Vinci gatinharam até elas e deixaram as suas assinaturas nas paredes (outros jovens mais tarde como Casanova e o Marquês de Sade também o fizeram). O estilo grotesco (ou grottoesco) surgiu nessa altura, com as suas formas estranhas, misteriosas, magnificentes, fantásticas, hediondas, feias, incongruentes, desagradáveis. Mas na arte e literatura, grotesco também se pode referir a algo simultaneamente desconfortável mas que também inspira simpatia e compaixão. Por exemplo, as formas grotescas em edifícios góticos a que vulgarmente se chama Gárgulas.

  No exterior da casa, foi construído um grande lago artificial onde, por vezes, se encenavam batalhas navais. Existia ainda um enorme estátua do próprio Imperador Nero com 35,5 metros de altura (120 pés romanos), o Colossus Neronis. Era um verdadeiro Colosso (o famoso Colosso de Rodes, uma das 7 Maravilhas da Antiguidade, teria 35 metros de altura). As fundações da gigante estátua de Nero podem ainda ser encontradas debaixo do Mosteiro de S. Francesca Romana. Colosso significa «estátua de grandes dimensões».                                                                    

   Após a morte de Nero, o lago foi drenado e, na bacia formada pelo lago seco, foi construído um enorme anfiteatro a que foi dado o nome de Anfiteatro Flaviense, uma estrutura elíptica com aproximadamente 188 metros por 156 metros inaugurada no ano 80. A palavra latina «flavium» significa «dourado». Seria verosímil que fosse uma alusão à casa que o antecedeu mas é mais provável que se referisse ao nome de família dos 3 imperadores romanos que o construíram, a dinastia Flaviana, que subiu ao poder depois do suicídio de Nero.

   Apesar da destruição da «Casa dourada», a gigante estátua de Nero foi tendo o seu rosto alterado para o dos sucessores de Nero, até que o Imperador Adriano o moveu para ao pé do «Anfiteatro de Flávio». Este passaria a ser conhecido pelo colosso que se encontrava às suas portas e o seu nome perdurou. O «Anfiteatro de Flávio» seria para sempre conhecido como «Coliseu», uma alusão à colossal estátua de Nero que se erguia no local.

   A palavra latina para areia é harena. Facilmente se percebe como «harena» se tornou a «areia» portuguesa. Mas também de «harena» derivou a palavra «arena», uma vez que os circos romanos (os locais de combate dos gladiadores) eram cobertos de areia para absorver o sangue derramado. Como outras grandes construções que sobreviveram ao tempo, o revestimento metálico e de mármore do Coliseu foi retirado para a construção de habitações. O revestimento de pedra calcária branca das pirâmides sofreu semelhante destino. Tal como o Partenon em Atenas.

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