94. Polimático Possidónio

A História do mais inteligente, criativo e influente pensador da Antiguidade, que contribuiu para disciplinas tão variadas como Filosofia, Física, Astronomia, Geografia, Geologia, Meteorologia, Matemática e História mas também a origem do termo para descrever um político ingénuo. 

    Há algumas palavras em Português cujo significado está ligado a uma figura histórica ou a um evento importante. E, por vezes, injustiças foram cometidas na avaliação popular de alguém. Desde Cláudio a Nero a La Palisse e outros (ver a categoria Origem das palavras para mais). Um outra palavra ligada a uma personagem histórica é possidónio. Uma curta consulta a um dicionário de Português, em busca do significado de «possidónio», indica o seguinte: substantivo masculino: designação dada ao político provinciano e ingénuo que via a salvação da Pátria no corte radical de todas as despesas públicas; adjectivo: pretensioso; vulgar; convencional. Como se depreende, trata-se de uma referência a um putativo (da palavra latina «putativu» que significa «suposto») político com ideias ingénuas e simplistas, merecedor de condescendência.

   Mas quem foi de facto esse político que inspirou o uso desta palavra? O seu nome era Possidónio de Apameia (onde nasceu) ou de Rodes (onde viveu). Nasceu na cidade de Apameia (atual Síria), e viveu durante o período de expansão romana através da Europa, Norte de África e Próximo Oriente, tendo nascido em 135 AEC e morrido em 51 AEC, com 84 anos. Um acontecimento que ocorreu, no mundo romano, durante a sua vida, foi a Terceira Revolta dos Escravos, entre 73 AEC e 71 AEC, liderada por Espártaco, derrotado pelo cônsul romano Marco Licínio Crasso (115 AEC - 53 AEC), o homem mais rico de Roma na altura, formou, juntamente com Júlio César (de que se falou brevemente em Dados combinados) e Pompeu, o primeiro Triunvirato romano.

   A cidade era já antiga quando Possidónio nela nasceu, tendo sido fortificada em 300 AEC por Seleuco, um dos Generais de Alexandre Magno que ficou com uma das divisões do Império Macedónico quando este morreu (para mais sobre Alexandre Magno ver  Grande Saber) e Seleuco mudou o nome da cidade de Pharmake para Apameia, o nome da sua mulher. Em 130 AEC, quando nasceu Possidónio, tinham já passado 16 anos desde a destruição da cidade de Cartago, no Norte de África (após 3 Guerras Púnicas) e a República Romana era a principal potência mediterrânica. Possidónio estudou na sua cidade natal mas finalizou os seus estudos (superiores) em Atenas, antes do domínio romano (a cidade foi conquistada, em 87 AEC, pelo general romano Sula ou Sila quando Possidónio tinha 47 anos). Nesta cidade, foi aluno do filósofo estóico Panaitio (185 AEC -108 AEC). Tornou-se, a par do seu mestre, o maior representante e divulgador do estoicismo no mundo romano. A Escola Filosófica Estóica surgiu em Atenas, em lugares públicos conhecidos como «estoa» (zonas de passagem, exteriores aos edifícios, viradas para a rua, rodeadas de colunas e cobertas). Devido ao lugar onde era geralmente discutida e abordada, a escola filosófica recebeu o nome de Estóica, de «estoa». Foi Zenão de Cítio (não confundir com o filósofo eleático Zenão de Elea, o criador dos famosos paradoxos, como visto em A Tartaruga de Zenão) quem fundou o Estoicismo. Para a Escola Estóica, o auto-controlo, a força psicológica e o distanciamento das emoções permite o raciocínio claro, o equilíbrio mental e a imparcialidade de julgamento. O objetivo do filósofo estóico é o melhoramento espiritual do indivíduo através da razão, da virtude e da sujeição às leis físicas. Através do controlo das paixões e das emoções, acreditavam estes filósofos que era possível encontrar a paz interior face ao turbilhão do Mundo exterior. Isto porque as emoções toldam a verdade e a procura da verdade é a maior das virtudes. Para um estóico, deve-se fazer como a razão determina. A paixão (no sentido clássico de «sofrimento» e «angústia») deve ser evitada e a arma para combater o sofrimento é a razão e o raciocínio claro.

   Este é um raciocínio bastante similar aos predicados budistas e não admira que tenham influenciado um mundo helénico para sempre modificado pela abertura cultural providenciada pelas conquistas de Alexadre Magno na Ásia (para mais sobre o budismo, ver o artigo A roda do Príncipe, que fala sobre o budismo indiano e o imperador Açoka). O Estoicismo influenciou em grande medida o mundo romano e vários imperadores romanos (e vários legisladores e leis que defenderam) foram influenciados pelo Estoicismo a sua ética. Através do Estoicismo, a vivência legislativa romana foi influenciada e, através da legislação romana, a Religião Católica foi adaptada e tornada na entidade que hoje se encontra. Os Estóicos consideravam que a tristeza e a maldade são fruto da ignorância e que apenas a razão e a procura da verdade as podiam limitar. Todos as pessoas são uma manifestação do mesmo espírito universal e devem ajudar-se e serem honestas umas com as outras. A igualdade de todos perante a Lei e o Mundo são conceitos naturais para um Estóico e a sua propagação ideológica pelo Império Romano em muito terá contribuído para a implantação do Cristianismo na Europa romana (Nero, perseguidor dos primeiros cristãos romanos, identificava-se como estóico. Ver Grotesco coliseu para mais sobre este Imperador e a sua ligação ao Coliseu e a sua influência no Renascimento).

   Foi esta a Filosofia que Possidónio aprendeu enquanto estudava em Atenas e da qual foi um dos maiores representantes, tendo contribuído largamente para a sua disseminação pelo mundo romano. Um dos pupilos (em 80 AEC) de Possidónio foi Cícero, o grande Orador, Político, Filósofo e Advogado romano, que, apesar de não se ter tornado estóico, foi grandemente influenciado pela ética desta escola de pensamento. Em 95 AEC (quando tinha 40 anos), Possidónio mudou-se para a ilha grega de Rodes (já há muito um terramoto tinha destruído o famoso Colosso de Rodes. Este foi construído em 292 AEC e caiu em 280 AEC. Durante centenas de anos, os seus vestígios permaneceram no porto da ilha, até que os Árabes os venderam como sucata, no ano 654). Pouco depois da sua chegada à ilha, foi eleito presidente (prítane πρυτάνεις) por um período de 6 meses (o tempo de mandato habitual) e, após 8 anos de residência, em 87 AEC, Possidónio foi nomeado Embaixador de Rodes em Roma, devido à forma como geriu eficazmente o seu cargo político. Na altura, a ilha era aliada independente da República de Roma e tinha, como tal, na cidade, uma embaixada (Rodes foi, em 43 AEC, eventualmente conquistada e pilhada pelo general romano Gaius Cassius Longinus, amigo de Pompeu, cunhado de Bruto e inimigo de Júlio César). Possidónio era um grande apoiante do poder romano, vendo-o como uma força estabilizadora do mundo mediterrânico, mesmo após Pompeu, inimigo de César, ter invadido a sua cidade-natal Apameia em 64 AEC, anexando a cidade à República Romana pela força.

   Devido aos laços que estabeleceu com a nobreza romana, Possidónio pôde dar azo a uma outra das suas buscas da libertadora verdade, tendo viajado por várias terras conhecidas na altura (tanto as sobre domínio romano como as que não estavam). Escreveu sobre as terras e costumes que presenciou nas suas viagens, mas os seus escritos perderam-se nas marés do Tempo (perderam-se os textos, mas muitos dos títulos das suas obras foram preservados, em listas de obras citadas por outros autores). Além da sua Filosofia e das suas viagens exploratórias, Possidónio fundou uma escola em Rodes, onde tinha vários alunos, tanto romanos como gregos, que o procuravam devido à sua sabedoria e conhecimento. A sua fama de erudito era conhecida por todo o Mundo romano e foi uma das poucas pessoas que dominou todo o conhecimento da sua época. Era um polimático πολυμαθής, isto é, de alguém que domina vários saberes, do grego «poli»+«mathēs» – muitos conhecimentos. É da raíz «mathēs» , conhecimento, que deriva a palavra Matemática, «máthēmas» μάθημα em grego. Esta alcunha era inteiramente merecida: estudou e escreveu sobre Física (incluindo Meteorologia e Geografia), Astrologia e Adivinhação (consideradas, na altura, ciências), Sismologia, Geologia e Mineralogia, Hidrologia (foi o primeiro a identificar as marés com o movimento da lua), Botânica, Ética, Lógica, Matemática (é citado como o criador dos termos 'teorema' e 'problema') História, Antropologia, Táctica Militar e Astronomia (calculou, embora erradamente, o raio da terra usando a posição da estrela Canopeia no céu).  Tinha, além disso, a alcunha de «o Atleta», o que poderá ser uma indicação da vastidão dos seus interesses. Via o universo como uma esfera, negava a real existência da matéria, considerava a Terra como o centro de tudo, o Sol e a Lua como tendo o mesmo tamanho, considerava Roma  como o centro natural do planeta e que o local onde as pessoas viviam modificava as suas características. O alcance intelectual das suas ideias foi grande e profundo e, séculos depois, os seus detratores referiram apenas os seus erros (poucos comparados com a dimensão da sua obra) e confundiram a ingenuidade científica da época em que viveu com as suas capacidades políticas.  E assim nasceu o termo derrogatório «possidónio» para designar pessoas ingénuas e pouco perspicazes. Possidónio foi mais uma vítima da História, como foi depois La Palisse.

   A sua fama percorreu toda a História romana e, mesmo na Idade Média, era considerado um dos maiores intelectos que o Mundo conheceu. Possidónio foi o primeiro Estóico a considerar que a alma era constituída por «paixão» e «razão» e que a Ética era o meio pelo qual o equilíbrio entre as duas podia ser encontrado. Os escritos de Possidónio encontram-se hoje fragmentados e a maioria do que se conhece deles é devido à enorme influência intelectual que exerceu sobre outros escritores. As citações das obras de Possidónio são inúmeras e extensas e fornecem uma base sólida de informação sobre a sua figura intelectual. Tudo aponta para que Possidónio, longe de ser um simplório de vistas curtas e um político inábil, tenha sido um homem de enorme inteligência e capacidade, que influenciou (e ainda influencia) a vida intelectual humana. Apesar dos seus erros científicos (naturais na época em que viveu) Possidónio influenciou decisivamente a cultura humana. E a sua importância não passou despercebida e ganhou mesmo direito a um título perene bem acima das preocupações terrenas…

   A Cratera Possidónio, na Lua, foi assim nomeada em homenagem a Possidónio e situa-se no Mar da Serenidade. A primeira missão à Lua, a Apolo 11, aterrou no Mar da Tranquilidade, a 960 quilómetros a Sul da Cratera Possidónio. A Apolo 15, a protagonista da experiência para comprovar que os corpos caem todos à mesma velocidade (como visto em Cabeça na Lua), aterrou (ou melhor, alunou) a 715 quilómetros a Oeste da Cratera Possidónio, do outro lado do Mar da Serenidade. Para referência visual, foi incluída, no mapa, a localização da Cratera Tycho, no Pólo Sul da Lua. Agora, como na sua época, Possidónio foi testemunha de grandes acontecimentos, que mudaram o rumo da História…

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