102. Segundos extra

   No ano de 2016, Fevereiro teve 29 dias. No ano de 2017, Fevereiro teve 28 dias. 2016 teve 366 dias mas 2017 só teve 365 dias e 2018 voltará a ter 365 dias. A razão geralmente conhecida é que 2016 foi um ano bissexto e 2017 não, sendo que ocorrem anos bissextos de 4 em 4 anos. Mas porque este dia a mais de 4 em 4 anos? Para que serve, quando foi criado e por quem? E se é assim tão simples porque é que 1900 não foi bissexto, 2000 foi bissexto e 2100 não será bissexto, se fazendo as contas de 4 em 4 anos deveriam ser (100 = 25×4)?

   As razões prendem-se com o movimento da Terra e a posição do Sol e da Lua, como medidos pelo Sistema Astronómico de Unidades. Este foi adotado em 1976 e  desenvolvido devido às dificuldades em medir e expressar medições astronómicas usando o Sistema Internacional de Unidades. A primeira tentativa de definir um sistema de constantes astronómicas foi feita em França, em 1896, pelo astrónomo americano Simon Newcomb, de que se falou no artigo sobre a Lei de Benford no artigo Estrelas ficais. Foi em França que Newcomb notou que o número 1 surgia cerca de 30% com primeiro dígito em muitas constantes naturais. Os únicos países do Mundo que não usam as medidas SI são os Estados Unidos da AméricaLibéria e a Birmânia.

   Um ano é o tempo que a Terra demora a dar uma volta em redor do Sol, o chamado ano solar, que não é exatamente 365 dias. Astrónomos mais antigos calcularam que a Terra dava a volta ao Sol em cerca de 365 dias. Mas, de 4 em 4 anos surge mais um dia. Eles não se aperceberam desse facto ou, mais provavelmente, não souberam como o corrigir. Mas astrónomos mais recentes, os Romanos, aperceberam-se. Assim instituíram o ano bissexto, no seu ano de 709 AUC (ad urbe conditia,desde a fundação da Cidade (de Roma)), governava Júlio César, ano que corresponde ao atual 45 AEC (Antes da Era Comum). Neste calendário “auto-regulável”, o ano tinha 365 dias e mais um quarto de dia ou 365 dias mais 6 horas. Passou a ser conhecido como o Calendário Juliano, e seguido pela generalidade da Cristandade no ano 325 e ainda usado pela Igreja Ortodoxa (e a razão pela qual a Revolução de Outubro russa ter sido em Novembro do nosso calendário). O dia extra que surgia passou a acrescentar-se a Fevereiro. Assim, evita-se que 21 de Março, que marca o início da Primavera, ao longo dos séculos não recue até ao Inverno, até ao Outono, até ao Verão,… E esse podia ser o fim da história (mas não o último Homem).

   O Fim da História e o Último Homem foi um livro escrito por Francis Fukuyama em 1992. Nele, o autor redefinou a teoria do filósofo do século 19 Hegel, de que a evolução social da Humanidade (o Fim da História) terminaria quando as sociedades humanas alcançassem um equilíbrio, caracterizado pelo liberalismo e a justiça social. Mais tarde, o filósofo comunista Engels reviu a teoria de Hegel para afirmar que o Fim da História (social mas não a de eventos históricos) seria alcançado pelo comunismo. Para Fukuyana, esse Fim da História social seria alcançado pela vitória das democracias.

   Mas o ano solar é na verdade 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 46 segundos. Se fosse, o sistema de 4 em 4 anos resultaria sempre. Mas dessa forma (a Juliana) o ano sazonal tem 11 minutos e 14 segundos a mais. Com o passar dos séculos, 21 de Março passaria a ser no Verão, depois Outono, …, apesar de mais lentamente. É o que acontece no Calendário ortodoxo. Para corrigir esta anomalia, no ano 1582 o Papa Gregório XIII, avançou com alterações. Nesse ano, a diferença entre o ano astronómico e o ano sazonal era já de 10 dias. Para cortar esses 10 dias supérfluos eliminou-os simplesmente. Ao dia 5 de Outubro de 1582 sucedeu o dia 15 de Outubro de 1582. Para evitar a desproporção no futuro, fez outras correções ao calendário. O novo calendário (o que usamos hoje) passou a chamar-se o Calendário gregoriano. Essas alterações incluíram de 100 em 100 anos não haver ano bissexto (como acontece no Calendário juliano). Assim, há 24 anos bissextos num século e não 25 e o ano sazonal passa a ter 365,24 dias, o que é mais próximo do ano astronómico, que tem 365,2422 dias. Mas ainda há os tais segundos a mais. Para os corrigir, de 400 em 400 anos não há ano bissexto (2416 não será bissexto) para que o ano sazonal passa a ter 365,24225 dias, muito mais próximo do astronómico. Há ainda 0,00005 dias a mais. Ocasionalmente, é introduzido um segundo extra ao ano para corrigir anomalias da órbita terrestre impossíveis de prever. Este sistema de correção foi adotado em 1972 e, desde então, 27 segundos foram inseridos em 27 ocasiões diferentes, tendo a mais recente sido a 31 de Dezembro de 2016.

   A regra para os anos bissextos é que todos os anos divisíveis por 4 são bissextos, exceto se forem o último ano do século (1900, por exemplo), exceto se o século é divisível por 4 (2000, por exemplo) e exceto se for um múltiplo do ano 4000 (4000, 8000, 12000,...). e.g. (por exemplo): 2016/4 = 504. Logo foi bissexto mas 2017/4 = 504,25. Logo não foi bissexto. Já para não falar no Calendário judaico ou no Calendário muçulmano, que são lunares. No artigo Distâncias estelares fala-se como se podem calcular distâncias entre planetas e estrelas sem lá ir.

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