10. La Palisse: viver antes de morrer

   La Palisse: a frase que o homenageia foi distorcida para o denegrir. Eis a história deste ilustre marechal francês.

   Quinze minutos depois de morrer estava morto. Eis um exemplo comum de uma «verdade lapalissiana». São afirmações cuja evidência é tão óbvia que se tornam ridículas quando proferidas, um truísmo, uma tautologia. As verdades «lapalissianas» estão ligadas a um senhor de nome «La Palisse» ou La Palice. Mas quem foi este dito senhor?

Lapalisse   La Palisse é uma cidade no centro de França (na região de Auvergne-Rhône-Alpes) e onde nasceu e governou Jacques de la Palisse, Marechal no exército francês. O seu nome completo era Jacques II de Chabannes, Senhor de La Palisse, de Pacy, de Chauverothe, de Bort-le-Comte e de Héron, títulos que dão uma ideia sobre a importância de La Palisse na corte francesa.

   Em 1470, quando La Palisse nasceu, D. Afonso V tinha conquistado a cidade africana de Arzila; quando tinha 17 anos, Bartolomeu Dias dobrou o Cabo das Tormentas (passando então a ser designado Cabo da Boa Esperança); quando tinha 28 anos, Vasco da Gama chegou à Índia e tinha 30 anos quando Pedro Álvares Cabral chegou ao Brasil. La Palisse cresceu durante a expansão marítima portuguesa e morreu quando Portugal era uma das maiores potências europeias.

Estados Papais   Na altura, o Papa era o governante dos Estados Papais (criados em 756 e extintos em 1870 por Napoleão) incluíam terrenos que iam da costa ocidental (com a cidade de Roma, a capital) até à costa oriental. Na altura existiam vários estados independentes na península itálica, que constantemente se guerreavam. Os Estados Papais, por estranho que aos olhos modernos o conceito possa parecer, envolviam-se também nas lutas de poder e domínio militares.

   Em 1525, o Papa Clemente VII (de nome Giulio di Giuliano de Medici) entrou em conflito com o Imperador Carlos V (em 1526, Carlos V casou com a sua prima Isabel de Portugal, irmã de D. João III of Portugal. Do casamento viria a nascer D. Filipe II, que viria a tornar-se D. Filipe I de Portugal). Este era duplamente imperador do Sacro Império Romano Germânico (Império que durou do século X até ao início do século XIX e formado por vários reinos, cada um governado por um príncipe autónomo do Imperador) e também Rei de Espanha (e as terras do sul da Itália e ainda os Países Baixos), onde era conhecido como Carlos I.Carlos V A discórdia surgiu por causa das possessões que este tinha na península (que incluíam Nápoles e a Lombardia). Aliaram-se então os Estados Papais e a França de Francisco I. Contra essa aliança, combatiam a Espanha e o Sacro Império Romano Germânico (apesar de terem um imperador comum, Carlos V, este só governava sem limites a Espanha, pois tinha o seu poder limitado pelos príncipes germânicos). Pode-se, dessa forma, fazer a destrinça entre a Espanha de Carlos V e o Sacro Império Romano Germânico de Carlos V.)

Batalha de Pavia, 1525
Batalha de Pavia, 1525

   Como manobra militar, Francisco I (da França) dirigiu-se para a península itálica, com um exército de 25 mil homens, para a conquista dos territórios germânicos. Inicialmente, os franceses conquistaram a cidade de Milão e avançaram para Pavia, a 30 Km de distância a sul (ambas pertencentes ao Sacro Império Romano, i.e., os germânicos). Lá chegados , montaram cerco à cidade, protegida por 6 mil homens. Foi durante o cerco que chegaram os exércitos da Espanha e do Sacro Império, com um total de perto de 23 mil homens, que atacaram na noite de 23 de Fevereiro. Apesar de inicialmente vitoriosas, as forças francesas foram aniquiladas e o rei francês foi feito prisioneiro. Morreram 12 mil soldados franceses e apenas 500 soldados de Espanha e do Sacro Império.

Jacques II de La Palice
Jacques II de La Palice

   Uma das vítimas francesas da Batalha de Pavia foi o marechal La Palisse. O seu epitáfio incluía a frase «S’il n’était pas mort, il ferait encore envie» (Se ele não estivesse morto faria ainda inveja). Com o passar dos anos e séculos, essa frase foi erradamente transcrita e incorporada numa canção satírica como«S’il n’était pas mort, il serait encore en vie» (Se ele não estivesse morto estaria ainda vivo). Dois séculos depois, o poeta e ensaísta francês Bernard de la Monnoye (1641–1728) viria a incorporar essa frase distorcida na sua Canção de La Palisse. Foi dessa forma que a frase se celebrizou.

   O que foi criado para homenagear La Palisse agora ridiculariza-o.

 castelo_la_palisseCarlos V abdicou em 1556 e dividiu o seu Império por duas pessoas: as possessões espanholas ficaram para o seu filho, Filipe II (o famoso Filipe I de Portugal, fundador da dinastia filipina de 60 anos em Portugal) e o Sacro Império Romano Germânico para o seu outro filho, Fernando I.  O Castelo de La Palisse ainda existe e pode ser visitado.

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