113. Tentilhões marcados

No final do século XIX Darwin e Wallace conceberam a Teoria da Seleção Natural como o mecanismo por trás da Evolução biológica. Apesar de poder parecer que surgiu integralmente das suas mentes, essa Teoria tem raízes muito antigas que vêm desde o século I no Império Romano, na Biblioteca de Pérgamo (rival da de Alexandria). Esta é a longa História da Teoria da Seleção Natural. 

   Há milhares de anos que o Ser Humano se pergunta qual a sua origem e posição no planeta Terra. Muitas histórias e mitos surgiram ao longo destes cerca de 11 mil anos que a nossa espécie vive e interage em centros urbanos (cerca de 3% do total da nossa existência de 300 mil anos). Mitos e lendas de criação da Humanidade surgem em todas as religiões por todo o Mundo. Mas apenas no século XIX, pelas mãos e mentes de Charles Darwin e Alfred Wallace, é que as diversas descobertas feitas no sentido de colocar o Ser Humano dentro da hierarquia da vida se materializaram na constatação do facto de a Vida estar em permanente Evolução e de ser o mecanismo da Seleção Natural que lhe dá forma.

   Apesar de serem ideias que geralmente se confundem no discurso corrente, são conceitos diferentes. Do indesmentível facto da Evolução encontramos evidências nos nossos corpos, desde as Trompas de Eustáquio que ligam o ouvido interno ao sistema respiratório (vestígios das guelras dos nossos longínquos antepassados aquáticos) ou o Cóccix (vestígio das caudas que nós e os outros primatas perdemos) ou os Dentes do siso (vestígios de quando precisávamos de uma mandíbula com mais dentes antes do Homo Erectus aprender a produzir e manter o fogo). Da Seleção Natural, o processo proposto por Darwin e Wallace para explicar como a Evolução decorre, encontramos paralelos funcionais na Seleção Artificial a que temos sujeitado todos os produtos alimentares e animais de estimação, como foi abordado no artigo Coelhos laranjas. Apesar de parecer uma ideia radical, a Seleção Natural proposta por Darwin e Wallace não é uma ideia surgida do nada e sem bases, é apenas uma parte da onda intelectual que se começou a formar no Império Romano  do século I, foi sendo reforçada por várias descobertas de cientistas (muitos dos quais clérigos), ganhou um forte impulso com a Teoria Populacional Malthusiana do século XIX e foi reforçada pelas descobertas de um monge austríaco.

      A primeira tentativa não mitológica de enquadrar o Ser Humano na Natureza chegou aos tempos modernos através dos textos de Cláudio Galeno (129-216), um filósofo e médico grego no Império Romano e que nasceu em Pérgamo (a moderna cidade de Bergamo, na Turquia), uma cidade cuja Biblioteca rivalizava em número de volumes e relevância cultural com a de Alexandria (de que se falou no artigo Grande Saber). Os seus documentos eram escritos em peles curtidas de animais e tal era o volume da sua produção e uso que estes ganharam o nome da cidade e passaram a ser chamados de pergaminhos. Inicialmente defensor (e posteriormente grande opositor) da Teoria dos Humores, Galeno realizou dissecações de macacos e porcos e contestou a medicina então vigente e as suas observações influenciaram a medicina durante mais de mil e trezentos anos. A escolha de macacos e porcos (motivada pela proibição romana da dissecação de corpos humanos) evidenciam a sua noção da semelhança biológica entre estes animais e o Ser Humano (essas semelhanças estarão na base da proibição religiosa do consumo da carne de porco quer pelo Judaísmo quer pelo Islamismo).

   Os ensinamentos de Galeno eram incontestáveis até que, em 1543,  André Vesálio «Andries van Wesel» (1514-1564), um jovem anatomista e médico de  Bruxelas, publicou o seu livro ilustrado “De humani corporis fabrica“. Inicialmente defensor dos ensinamentos de Galeno, Vesálio ficou desanimado com a ausência de aulas práticas de Anatomia na sua universidade de Pádua pois queria mostrar aos seus alunos as evidências anatómicas das descrições de Galeno. Foi com surpresa que verificou que o incontestável mestre se tinha enganado em vários pontos da Anatomia humana (nos quais esta era diferente da dos animais estudados por Galeno) e, tendo aprendido a fazer ilustrações com Johan van Calcar, um  estudante do célebre pinto italiano Ticiano, Vesálio criou várias ilustrações da anatomia humana que se tornaram célebres por todo o continente europeu.

   As portas para o estudo experimental da Anatomia humana foram abertas por Vesálio, e o médico e anatomista inglês William Harvey (1578-1657), em 1628, descreveu corretamente a circulação sangue no corpo bombeado pelo coração; o Reverendo inglês William Paley (1743–1805) procurou estabelecer a função de todos os órgãos humanos; Nicolas Steno «Niels Steensen» (1638-1686), clérigo dinamarquês, em 1666 determinou a existência de fósseis como evidência de que as espécies animais aparecem e desaparecem ao longo do tempo ao estudar dentes fossilizados; Carlos Lineu «Carl von Linné» (1707-1778), botânico, zoólogo e médico sueco, criou a classificação científica dos seres vivos, ao notar que quanto mais anatomicamente semelhantes são as espécies mais se relacionam; o naturalista francês Georges-Louis Leclerc, Conde de Buffon (de que se falou brevemente no artigo Agulhas circulares) utilizando conhecimentos científicos da época, calculou que a Terra teria pelo menos 70 mil anos (dez vezes mais do que até então se suponha), tendo começado como uma bola de matéria derretida em fusão e arrefecendo até ao período moderno.

   Os alicerces principais da Seleção Natural tinham sido estabelecidos por estes pensadores e mais um imprescindível impulso foi dado em 1798 pelo Economista Político Thomas Malthus (1766-1834) na sua obra «An Essay on the Principle of Population». Nela, Malthus compara o Crescimento Exponencial da População com o Crescimento Linear dos recursos alimentares e fez uma previsão sinistra. A População Humana cresceria exponencialmente, duplicando a cada 25 anos, muito mais rapidamente do que o crescimento aritmético da produção alimentar, o que resultaria em fome e má-nutrição se o número de nascimentos não fosse controlado. Todas estas descobertas levavam a que cada vez mais naturalistas propusessem a ideia de que as espécies de Seres Vivos iam sofrendo alterações com o tempo, por vezes extinguindo-se por vezes sofrendo alterações. A noção de Evolução estava cada vez mais enraizada no pensamento científico mas não se sabia qual era o mecanismo pelo qual essa evolução ocorre.

   Um dos proponentes que se distinguiu na elaboração de um desses possíveis mecanismos foi o naturalista francês Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, Cavaleiro de Lamarck (1744-1829), o filho de uma família aristocrática empobrecida com fortes tradições militares. Lamarck entrou no serviço militar  com 17 anos dando-se o título de Chevalier de Saint-Martin. Nesse mesmo ano viria a participar  na Guerra dos Sete Anos, tendo-se distinguido na Batalha de Villinghausen (1761) e sendo promovido a oficial. Foi a partir de então que adotou o título de «Chevalier de La Marck», nome pelo qual passaria para sempre a ser conhecido. Cinco anos depois, reformou-se da carreira militar e dedicou-se ao estudo da Botânica. Com a ajuda de Buffon, publicou um livro sobre as plantas da França «Flore Française» e tornou-se Professor de História Natural de Insetos e Vermes (não havia ainda o termo «invetebrados) no Jardin de Roi. Foi lá que cunhou os termos até então inexistentes «Invertebrados» e «Biologia» e, em 1801, começou a publicar detalhes da sua teoria para um mecanismo na base da já bem estabelecida Evolução, que viria a ser dignada por «Lamarquismo».  Na sua Teoria, as alterações no meio envolvente de um ser vivo provocavam alterações nas suas necessidades e nos seus comportamentos. Estas mudanças levavam a um maior ou menor uso de órgãos no corpo, o que levava ao seu aumento ou desaparecimento. Esta era a sua «Primeira Lei» e a sua «Segunda Lei»  era que estas alterações eram herdadas pelos descendentes desse organismo. O resultado destas leis naturais era a contínua e gradual alteração de todos  os seres vivos à medida que se iam adaptando aos seu Meio Ambiente. As necessidades físicas dos organismos, criadas pelas suas interações com o seu meio ambiente, conduzem a Evolução segundo Lamarck. O Cavaleiro tinha encontrado a ideia certa mas propô-la com o mecanismo errado.

   Poucos anos depois, dois Naturalistas britânicos independentemente propuseram um outro mecanismo por detrás da Evolução, semelhante ao de Lamarck. Após lerem Malthus, ambos aplicaram o princípio da pressão populacional limitada pelos recursos disponíveis à Evolução dos Seres Vivos. Um deles, chamado Alfred Russel Wallace (1823–1913), estava interessado na distribuição geográfica dos Seres Vivos pelo Mundo, tendo visitado a América do Sul e o Sudoeste Asiático. Nessas viagens, notou que o isolamento geográfico levava ao surgimento de novas espécies, levando-o a propor a Seleção Natural como o meio pelo qual a Evolução se dá. Também propôs o conceito de Aposematismo (das palavras gregas «apo» ἀπό - à distância - e «sema» σῆμα - sinal - de onde vem a palavra semáforo, de que se falou no artigo Visão segura), pelo qual animais venenosos anunciam a sua periculosidade através de cores vivas. Foi também o primeiro a avaliar de forma objetiva a possibilidade de vida noutros planetas, nomeadamente em Marte.

   O outro Naturalista inglês que independentemente formulou o mesmo mecanismo foi Charles Robert Darwin (1809–1882). Após visitar entre 1831 e 1836 as Ilhas Galápagos (cujo nome vem de uma palavra em Espanha para tartaruga, a «besta do Tártaro», de que se falou no artigo Sabedoria matinal), constatou que o diferentes espécies de tentilhão (do género Geopiza) em diferentes ilhas do arquipélago tinham evoluído de um antepassado vindo do continente e tinham adquirido adaptações nos seus bicos em função da sua alimentação. Ao voltar para Inglaterra, era uma celebridade no mundo científico mas guardou a sua Teoria da Seleção Natural enquanto a fundamentava através do estudo de outras espécies animais e fósseis. Vinte anos depois da viagem, em 1856, recebeu uma carta do seu amigo Charles Lyell falando-lhe de uma teoria similar que Wallace lhe tinha enviado. Em 1858, elaboraram a sua Teoria num artigo em conjunto à Sociedade Linneana de Londres, que foi apresentado por Charles Lyell e William Hooker uma vez que Wallace estava ainda na Ásia e Darwin estava em casa a cuidar do filho mais novo Charles Waring Darwin (1856–1858) que estava com febre escarlatina. Seguiram-se livros escritos por ambos a aprofundar a sua Teoria da Seleção Natural mas, apesar de ser aceite pela comunidade científica, nem Darwin nem Wallace (tal como Lamarck) não tinham noção de como se processava a nível biológico a transmissão desses traços adquiridos por pressão da Seleção Natural eram transmitidos às gerações seguintes.

   Na mesma altura em que Lamack, Darwin e Wallace propunham as suas teorias, um jovem monge na cidade de Brno, na atual República Checa (na altura parte do Império Austríaco), desvendava, na sua plantação de ervilhas, os segredos da hereditariedade e da transmissão de característica físicas ao longo das gerações. Este monge austríaco, de nome Gregor Mandel (1822-1884), fundou as bases da Genética, a resposta à questão das bases biológicas da Evolução. Em 1865, após experiências que realizou entre 1856 e 1863, apresentou as leis da Hereditariedade mas abandonou os seus estudos sobre a Hereditariedade em 1868 para se dedicar à vida monástica. Mendel começou por trabalhar com ratos mas teve de abandonar esse estudo por ser mal-visto dentro do seu convento por envolver sexo animal. Trabalhou em seguida com colmeias, em Astronomia e Meteorologia (sobre a qual publicou a maioria dos seus trabalhos). Mas foi o seu trabalho com hereditariedade das ervilhas que teve o maior impacto na Ciência (ainda que só depois da sua morte isso tenha ocorrido). Mandel trabalhou com sete características das ervilheiras: altura, forma e cor das vagens (que a ervilha tem e por isso é um legume, como visto em Legume de Ouro), forma e cor das sementes e posicionamento e cor das flores. Tomou nota destas características à medida que ia cruzando entre si as diferentes gerações. Por exemplo, em relação à cor das ervilhas, Mandel verificou que, cruzando ervilhas puramente verdes com  ervilhas puramente amarelas, se obtinham sempre ervilhas amarelas. Mas, na geração seguinte, as ervilhas verdes reapareciam com uma proporção de 1 verde para 3 amarelas. Para explicar este fenómeno, usou os termos «recessivo» e «dominante» em relação ao aparecimento de algumas características ou fatores invisíveis (modernamente chamados «genes»). Como visto no artigo Compatibilidades, os grupos sanguíneos seguem também leis mendelianas simples, em que a presença ou ausência de dois antigenes (A e B) produzem os 4 diferentes grupos sanguíneos A, B, AB e 0 (é um zero e não um «O» porque indica a ausência de A e B).

   A importância e a aplicação da Genética Mendeliana permaneceram ignoradas pela comunidade científica que continuava a debater a validade dos diferentes mecanismos biológicos que conduziam à Evolução dos Seres Vivos, até às décadas de 30 e 50 do século XX. As suas experiências  foram repetidas e os seus resultados e conclusões foram confirmados, dando lugar à moderna fusão da Teoria da Seleção Natural e da Genética. Falou-se também de Genética e de memes no artigo Cucos meméticos.

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