116. Avós digitais

A necessidade de comunicação precede o Ser Humano. Várias formas de comunicar à distância foram sendo empregues mas só a partir do século XIX e inovadores como Johann Reis ou Alexander Bell é que a voz humana foi transmitida com sucesso a grandes distâncias. Eis a história dos telefones, dos telemóveis e dos smartphones nestes menos de 100 anos de evolução.

   A necessidade de comunicar fez sempre parte da Natureza do Ser Humano e dos seus antepassados, como os desenhos pré-históricos em grutas como Lascaux (França), Altamira (Espanha) e outros locais mostram. Quanto mais as sociedades humanas se iam complexificando, maior se tornava a necessidade de transmitir mensagens a distâncias cada vez maiores. Vários métodos foram descobertos e implementados, como o uso de assobios (nas ilhas Canárias de que se falou no artigo Portugal horizontal) ou o uso de pombos-correio (neste momento extinto na Natureza como o seu primo o Dodo) entre muito outros métodos. No artigo Sabedoria noturna, fala-se na diferença entre pombos e rolas, entre outros animais.

    Mas foi preciso esperar pelo século XIX para que a própria voz humana fosse transmitida a longas distâncias, usando a tecnologia e a rede de telegrafia já instalada, inventada por Samuel Morse em 1838. Poucas décadas depois, a ideia de transmitir não só sinais como a própria voz humana pelos cabos elétricos tinha sido já concretizada e surgiu a invenção de Johann Philipp Reis (inventor alemão descendente de portugueses da Beira Baixa e que criou o termo «telefone» a partir das palavras gregas τῆλε - tēle "à distância" e φωνή - phōnē "voz") em 1862; de Antonio Meucci em 1871; de Elisha Gray em 1876 e o mais conhecido Alexander Graham Bell em 1885.

   Mas havia a necessidade de um fio para transmitir os sinais elétricos em que a voz tinha sido convertida. Isso implicava que ambos os interlocutores estivessem em pontos fixos, onde existisse um telefone, para poderem comunicar. Mas o sonho de ligar, por voz, duas pessoas independentemente da sua localização não foi esquecido e, em 1946, o primeiro serviço de telefones móveis foi lançado nos EUA, ligando, através de um rádio, veículos em movimento (tipicamente táxis e ambulâncias) com a central de telefones. Isto levou à ideia de que várias antenas, espalhadas por uma grande área, permitiriam estabelecer várias comunicações móveis simultaneamente em frequências diferentes (o conceito moderno básico do telemóvel).

   Mas restrições puramente legais nos EUA ao número de chamadas permitidas simultaneamente atrasaram o desenvolvimento dessa tecnologia. O primeiro telefone móvel manual foi demonstrado por John F. Mitchell e Martin Cooper da empresa Motorola em 1973, usando um protótipo que pesava cerca de 2 quilogramas. Entretanto, em 1979, a empresa nipónica NTT lançou a primeira rede nacional de comunicações por telemóvel do Mundo para uso nos automóveis. Mas só em 1983 é que surgiu o primeiro comercialmente acessível telemóvel pessoal, o DynaTAC 8000x, que pesava 1,1 quilogramas, media 23 cm de comprimento, 4,45 cm de comprimento e 13 cm de espessura. Tinha uma autonomia de conversação de 30 minutes e demorava 10 horas para recarregar. Nos 30 anos seguintes as subscrições de telemóveis no Mundo subiu de forma contínua e rápida. Em 2018, havia cerca de 5 mil milhões de assinaturas de serviços de telemóvel no Mundo inteiro, para uma população de cerca de 7 mil  milhões de pessoas ou cerca de 1 telemóvel para cada 2 pessoas no mundo inteiro (0,71 telemóveis por pessoa). As maiores empresas de venda de telemóveis são a Samsung, Nokia e Alcatel. Já as empresas que comercializam smartphones, as maiores, em termos de vendas, são Samsung, Apple e Huawei.

   O modo de funcionamento dos telemóveis usa o princípio das várias antenas espalhadas numa região para providenciarem cobertura. Cada antena tem uma limitada zona de recepção e envio e estão separadas em intervalos regulares no centro de célula em forma de hexágono de recepção-envio, valor dependente da concentração populacional na zona (cerca de 2 ou 3 km em zonas suburbanas e 400 e 800 metros em zonas urbanas). É esta a razão porque, no Brasil, os telemóveis são chamados de «celulares» e, nos EUA, de «cell phones». Cada célula tem uma antena no seu centro e todas as células estão agrupadas em grupos de 7, formando um hexágono maior com a célula interior com a antena mais potente. Célula adjacentes funcionam a frequências diferentes, pelo que é possível, na mesma região, células a funcionarem com frequências iguais (basta que tenham uma outra célula, com frequência diferente, entre elas). Desta forma alargou-se significativamente o número de chamadas que era possível realizar na mesma rede.

   Nas primeiras redes criadas, as analógicas, cada célula permitia 56 chamadas simultâneas eram permitidas dentro de uma mesma célula (1ª Geração, 1G). Há medida que o telemóvel se afasta da antena da sua célula, o sinal vai diminuindo. Mas na célula contígua o sinal vai surgindo mais forte. Cada célula monitoriza os sinais dos telemóveis que estão na sua zona mas também os sinais que recebe das células vizinhas. Quando o telemóvel passa a fronteira entre as células, a antena da célula que se abandonou recebe a informação e o telemóvel muda a frequência para a da célula na qual entrou. Tudo feito com tal rapidez que impede a percepção da mudança da frequência que o telemóvel está a usar. Com a digitalização dos sinais (em que a voz é transformada em 0's e 1's) passou a ser possível 168 chamadas simultâneas na mesma célula (2ª Geração, 2G). Os telemóveis de 3.ª Geração (3G) possuem características de multimédia, como leitura de música, vídeos, recepção e emissão de e-mails. A geração seguinte de telemóveis, a 4.ª Geração ou 4G, incluem acesso à internet, a transmissão de chamadas pela internet usando serviços IP, televisão de Alta-Definição e 3D e vídeo-conferências.

   Um smartphone é  um computador pessoal manual que tem um Sistema Operativo e acesso a uma rede móvel de banda-larga que permite a transmissão de voz, SMS e de dados pela internet. Permitem o uso de telefone, câmara digital para fotografias e vídeo, navegação por GPS, apresentação de multimédia, relógio, notícias, calculadora, navegação na internet, consola de jogos, lanterna, bússola, lista de contactos, bloco de notas, mensageiro, agenda  uma variedade grande de outras possibilidades através da instalação de programas independentes chamados aplicações que exploram as possibilidades do smartphone e dos seus sensores como o magnetómetro (deteta a intensidade de campos magnéticos em redor), sensor de proximidade, barómetro (deteta a pressão de ar em seu redor), giroscópio (que deteta a orientação do telemóvel) ou o acelerómetro (que deteta a aceleração a que está sujeito o telemóvel). O primeiro dispositivo com características de smartphone surgiu em 1994, quando a empresa IBM comercializou o Simon que era um assistente pessoal digital (PDA) manual com um ecrã tátil sem teclado físico. O primeiro país a ter um smartphone adotado a nível nacional foi o Japão, em 1999, pela empresa NTT (atingindo cerca de 40 milhões de subscritores em  2001), seguido pelos EUA em 2002. O número de smartphones no Mundo subiu de 2,1 mil milhões em 2016 para cerca de 2,5 mil milhões em 2019. Em termos de vendas, a empresa sul-coreana Samsung domina o mercado com cerca de 20,7% do total de telemóveis vendidos, seguida pela Apple (13,7%) e pela Huawei (9%).

   Os telemóveis comunicam com as antenas receptoras-emissoras (e estas com os telemóveis) através de radiações com uma frequência entre os 3 kHz e 300 GHz. Essas frequências situam-se na parte mais baixa do espectro, na zona das radiações não-ionizáveis. Isto significa que não são, em si mesmas, cancerígenas. Não possuem energia suficiente para alterar a estrutura genética das células. Por isso também os micro-ondas não são cancerígenos nem tornam os alimentam que confeccionam cancerígenos. As radiações dos telemóveis situam-se na mesma banda de frequências dos micro-ondas mas com menos potência. As preocupações quanto aos efeitos potencialmente prejudiciais para a saúde do uso dos telemóveis não se prendem então com o tipo de radiação que emitem. As micro-ondas dos telemóveis apenas aquecem as partículas com que entram em contacto, tal como o faz a luz do sol, por exemplo. Falou-se nas diferentes radiações, como as microondas, no artigo Pipocas nucleares.

   A questão não é com o tipo de radiação que os telemóveis emitem (que é perfeitamente segura) mas com os eventuais (mas não ainda demonstrados cientificamente) efeitos do ligeiro aquecimento das células do corpo mais próximas do transmissor do telemóvel. A preocupação (se se confirmar como verdadeira) é com persistente exposição a esse aquecimento ao nível das células internas. Os olhos, em especial, são particularmente sensíveis a ligeiros aumentos de temperatura, uma vez que não têm mecanismos de dissipação rápida de calor. É esta a razão pela qual, quando se fala muito tempo ao telemóvel, a orelha que esteve em contacto com o telemóvel aquece muito.

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