123. Pegadas no chá

A princesa portuguesa que mais marcou o mundo, desde o chá da tarde inglês, um bairro da cidade de Nova Iorque, a sua ligação à invenção das sanduíches, a Restauração da soberania nacional, o dragão alentejano, a entrega de Tânger e das sete ilhas portuguesas que se tornaram uma das maiores cidades do Mundo e que vive agora na Academia Militar e no Parque das Nações. 

   Corre o ano de 1638 em Portugal e nasceu uma menina na casa fidalga de Bragança, a mais poderosa em Portugal. Nasceu no Palácio Ducal de Vila Viçosa e deram-lhe o nome de Catarina. Havia 17 anos que Filipe III (IV de Espanha) subira aos tronos espanhol e português porque, 60 anos antes, D. Sebastião morreu na Batalha de Alcácer-Quibir. Quando tinha 2 anos, o seu pai João de Bragança, o 8.º Duque de Bragança, organizou uma revolta de nobres portugueses descontentes com a governação espanhola. Em poucas horas, aprisionaram a prima e representante do rei espanhol (Margarida de Sabóia) e coroaram o pai de Catarina como D. João IV de Portugal. Subitamente Catarina tornou-se uma princesa com direito a pretendentes de casas reais e propostas de casamento surgiram quando fez 23 anos, depois de ter saído do convento onde vivia.

   Mas a posição de Portugal, duas décadas após a Restauração da Independência, exigia cuidados especiais na seleção do seu futuro marido. Apesar de esta estar envolvida na Guerra dos 30 anos, os conflitos militares com Espanha duraram 28 anos e a nova monarquia portuguesa não tinha ainda aceitação internacional. Os conflitos com a Holanda mantinham-se (cujo resultado final foi a perda do Império Português Oriental, como visto no artigo Império perdido) e o tesouro nacional estava exaurido. Foram considerados como pretendentes à sua mão Reis e Duque de toda a Europa como João da Áustria, Luís XIV da França ou Carlos II da Inglaterra.

   Este último estava numa posição semelhante à de Catarina, tendo regressado recentemente do exílio  na França e Holanda com a sua mãe e irmão após a morte em 1658 de Oliver Cromwell, que tinha destronado e matado o pai de Carlos e instaurado uma breve República na Inglaterra.

   Portugal necessitava do apoio da Inglaterra para solidificar a sua posição internacional e de ajuda militar contra os Espanhóis e contra os Holandeses.  O novo rei inglês precisava do dinheiro do dote de Catarina e maior projeção do império colonial inglês. Foi assim firmado o contrato de casamento, pelo qual Portugal cedia a mão da princesa portuguesa e ainda um dote de 2 milhões de cruzados portugueses o que correspondia a sensivelmente 60 milhões de euros atuais (255 milhões R$), a abertura do comércio dos portos brasileiros aos navios ingleses e a entrega da cidade de Tânger no Norte de África e de 7 das ilhas de Bombaim na Índia (Maim, Vorli, ParelaMazagão, Bombaim, Pequena Colaba e Colaba) aos ingleses. A cidade de Tânger era um peso constante nas economias do Reino de Portugal e as ilhas na Índia eram valiosas para os Ingleses por permitirem a expansão colonial britânica na Índia.

   Portugal tinha começado o seu império colonial quando, em 1415, as tropas portuguesas lideradas pelo Infante D. Henrique atacaram e conquistaram a mal defendida cidade de Ceuta no Norte de África. Mas a posse da cidade isolada não era segura perante os exércitos mouros e Portugal começou a planear tomar outras cidades. Em 1437, tentaram tomar a cidade de Tânger mas foram derrotados e capturados. Eram liderados pelo Infante D. Henrique e pelo Infante D. Fernando e as tropas foram libertadas com a condição de os Portugueses devolverem a cidade de Ceuta. O Infante D. Fernando foi deixado na prisão até que Ceuta fosse devolvida mas isso não aconteceu e o príncipe português foi enviado para Fez.

   Apesar de ter escrito aos seus irmãos várias vezes para que Ceuta fosse devolvida e ele libertado (ao contrário do que muitas vezes é dito), tal nunca aconteceu e ele morreu na prisão. Em 1471, a cidade de Arzila mais a sul foi conquistada e os mouros abandonaram a cidade de Tânger depois de várias vezes a terem defendido com sucesso de ataques portugueses. Arzila foi depois abandonada pelos Portugueses em 1550, conquistada novamente por D. Sebastião e devolvida aos Mouros por Filipe I em 1589 após subir ao trono português. Na altura da Restauração da Independência, em 1660, no Norte de África, apenas as cidades de Ceuta e Tânger pertenciam ao Império Português. Após a Restauração da Independência, em 1660, Ceuta foi a única cidade do Império Português que não voltou à soberania portuguesa ou por pressão dos habitantes espanhóis da cidade ou por pressão da coroa espanhola que via Ceuta como fundamental para dominar o comércio mediterrânico. Mas a cidade manteve sempre o escudo português no seu brasão…

    Bombaim era uma das ilhas de um arquipélago de 7 ilhas quando Vasco da Gama chegou à Índia  em 1498. Em 1535, as ilhas foram cedidas a Portugal pelo Tratado de Baçaim. Na ilha, havia (e ainda há) um templo a uma divindade hindu chamada Bomba ou Mumba Dévi, a Mãe-Terra e os Portugueses chamaram à ilha Bombaim. As ilhas constituíam um excelente porto natural protegido de invasões terrestres. Os Portugueses terão tentado unir algumas das ilhas mais próximas por um passadiço mas só em 1782 é que as autoridades inglesas iniciaram um projeto (finalizado em 1838) para preencher o espaço entre as ilhas e formar apenas uma só massa terrestre. Ainda hoje é possível ver as anteriores ilhas no terreno da moderna cidade de Bombaim, uma das maiores cidade dos mundo, cujo nome foi revertido no século XX para Mumbai. 

   Bombaim/Mumbai é a capital do estado indiano de Maharashtra, onde se fala principalmente a língua Marati. Várias são as palavras portuguesas que foram incorporadas na língua devido ao domínio de Portugal na região por mais de 400 anos. Algumas delas incluem:
Ananás – Ananás अननस
Armada – Āramāra आरमार
Balde – Bādal बादली
Batata – Baṭāṭā बटाटा
Caju – Kājū काजू
Camisa – Khamīs खमीस
Chave – Chāvī चावी
Couve – Kōbī कोबी
Chá – Cahā चहा
Espada (aço) – Pōlād पोलाद
Fita – Fīt फीत
Mesa – Mēja मेज
Natal – Nātāḷa नाताळ
Pão – Pao पाव
Pera – Pē’ara पेअर
Sabão – Sābaṇ साबण
Sorte (Lotaria) – Sorát सोडत
Tabaco – Tambākhū टबैको

   Este foi o dote da princesa Catarina para formalizar o casamento com o rei inglês. Era importante revitalizar o Tratado de Windsor que unia Portugal e a Inglaterra desde 1386. Ao longo da sua história de 600 anos do Tratado, deu-se o casamento entre a fidalga inglesa Filipa da Lencastre e o rei português D. João I, do qual viria a nascer a Ínclita Geração, como foi chamada por Camões nos Lusíadas; durante a união ibérica (1580-1840) o tratado foi suspenso e vários navios portugueses foram alvo da marinha inglesa, em particular a nau Madre de Deus em 1592, o maior navio de carga do mundo, capturada por navios ingleses ao largo dos Açores carregada de centenas de toneladas de jóias e especiarias; com o casamento de Catarina de Bragança e Carlos II de Inglaterra em 1640, foram transferidas a cidade de Tânger e Bombaim para a coroa inglesa; durante as invasões francesas de Portugal a partir de 1807, de que se falou no artigo Legião Laranja, os ingleses desembarcaram em Portugal e deram início ao processo final da derrota de Napoleão; em 1890 o Ultimato Inglês pôs fim às pretensões de Portugal de unir por terra as colónias de Angola e Moçambique no chamado Mapa Cor-de-rosa;  durante a Primeira Guerra Mundial o tratado trouxe Portugal para os combates na Europa, como se falou o artigo Grande Gripe; durante a Segunda Guerra Mundial, a Base das Lajes nos Açores (cuja origem do nome foi abordada no artigo Ilhas da Bruma) foi cedida para uso pelos Aliados na sua luta contra as tropas nazis.

   A vida de Catarina na corte inglesa não foi fácil pois o seu profundo catolicismo incomodava a sociedade protestante inglesa. Apesar de ser privadamente católico, Carlos II abraçou a fé anglicana publicamente e era constantemente aconselhado a divorciar-se de Catarina; os constantes casos extra-conjugais do rei e os seus vários filhos ilegítimos eram um constante peso no casamento; a presença de uma das amantes do rei no palácio real era um espinho doloroso na alma católica de Catarina; os embargos comerciais dos espanhóis às importações inglesas através do Mediterrâneo feriam a economia inglesa e ela era injustamente associada a esse desconforto económico; a conspiração papista via Catarina como a líder de um grupo de católicos às ordens do papa que pretendia assassinar o seu marido Carlos II e substituí-lo pelo seu católico irmão Jaime II; apesar de ter engravidado várias vezes, Catarina nunca deu à luz e Carlos II morreu, de causas naturais, em 1685, sem herdeiros. Catarina regressou a Portugal em 1692, construiu o seu palácio em Lisboa na Bemposta (onde hoje se situa a Academia Militar e onde foi erigido um busto em 2002 de D. Catarina que tinha inicialmente um terço na mão e agora só tem uma cruz…) e morreu em 1705.

   Mas as pegadas de Catarina no mundo começaram a surgir ainda antes do seu casamento real. O diplomata inglês que tratou do seu casamento com Carlos II e a escoltou para Inglaterra era o Almirante Eduardo Montagu, 1.º Senhor de Sandwich, título criado para o homenagear, ao mesmo tempo que era feito Barão. Um bisneto de Eduardo Montagu e também o 4.º Senhor de Sandwich foi o Almirante e Secretário de Estado John Montagu. E é a essa bisneto a quem é associada a epónima sanduíche, que terá visto, nos seus passeios pelo Mediterrâneo, fatias de pão grelhado com carne e vegetais (prato típico na Grécia e Turquia) e popularizou o conceito na Inglaterra devido aos seus exigentes horários laborais (e também pelo seu vício por jogos de cartas, dizem as más-línguas). O Senhor de Sandwich era um apoiante do capitão e explorador inglês James Cook, que deu o nome do seu protetor às ilhas Sandwich (Havai) e ilhas Sandwich do Sul, e à ilha Montagu na Austrália e no Alasca.

   Ainda que o chá fosse conhecido na Inglaterra, os embargos espanhóis às importações inglesas tornavam-no um produto de luxo. Mas Catarina bebia regularmente infusões feitas com folhas de camellia sinensis vindas da China que os Portugueses foram os primeiros europeus a beber quando chegaram ao Japão (ver o artigo Japão Português). As línguas mundiais podem ser divididas em dois grupos em termos no nome que dão à bebida. Os portugueses importavam as folhas de chá através dos portos de Zhangzhou e de Macau, onde se fala Cantonês e que lê o carácter chinês  como chá. Os Holandeses importavam as folhas da Ilha Formosa (Taiwan), onde se fala Min e que lê o carácter chinês  como . Foi Catarina quem popularizou a bebida de chá na corte inglesa (mas só se difundiu por toda a Inglaterra a partir do século XVIII). Mas o hábito inglês de beber o Chá das 5 surgiu em 1840 com Anna Russell, Duquesa de Bedford, Camareira da Rainha Vitória. O Chá das 5 inclui chá, bolos, sanduíches e conservas de fruta. Uma das conservas de frutas mais populares na Inglaterra é marmalade, feita com a polpa e a casca da laranja (falou-se na origem portuguesa da laranja em Portugal: cor laranja), cujo nome vem do Português marmelada. Em 1524, o rei inglês Henrique VIII recebeu uma caixa de marmelada vinda de Portugal. Apesar do nome português vir do nome do fruto marmelo (Cydonia oblonga), os ingleses ligaram o nome ao processo de conservação e não ao fruto.

   Em 1983, alguns luso descendentes residentes em Nova Iorque tinham juntado dinheiro ao longo de 10 anos para se erigir uma estátua à rainha Catarina de Bragança. Pretendiam comemorar os 300 anos da atribuição do nome Queens a um dos bairros de Nova Iorque, na altura em que Catarina era a Rainha do Império Britânico. A estátua teria 10,6 metros de altura e seria erigida na frente fluvial da cidade oposta à sede das Nações Unidas. Mas o projeto acabou por ser abandonado devido a reclamações por parte de residentes que se opunham a fazer-se uma estátua de uma rainha inglesa que erradamente suponham estar ligada ao comércio de escravos. A projetada estátua sobrevive apenas como um modelo reduzido a 1/4 do seu tamanho no Parque das Nações, em Lisboa.

4 pensamentos em “123. Pegadas no chá

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