15. Revolução: tempo decimal

  As tentativas de contar o tempo em base 10 em vez de base 60 e porque minutos e segundos se chamam assim e que ligação têm com os números ordinais.

Relógio   Que horas serão, 8 horas depois das 20 horas (R: 4 horas)? Ou então, que horas serão, 10 horas e 32 minutos depois das 15 horas e 47 minutos (R: 2h19m)?  Estas são contas difíceis de fazer, em especial quando é preciso saber imediatamente a resposta. Requer que se pare um pouco, se concentre e tenha presente que 60 minutos é uma hora e que só há horas até às 24h. Não será fácil de fazer num instante…

   Não seria bem mais fácil poder somar-se 1,36 + 2,49 = 3,85 horas? Mas sabemos que isto não é possível em termos de horas. A base de contagem que usamos é a base decimal (quando a contagem chega a 10 reinicia). Mas a base de contagem do tempo é a base sexagesimal (quando a contagem chega a 60 reinicia). É um princípio tão interiorizado que é assim que funcionam as horas que muitas vezes não se pensa em fazer de forma diferente. Mas a verdade é que o sistema de 60 minutos numa hora é uma convenção que se usa há milhares de anos, mas que pode ser alterada (e já houve tentativas de o fazer). Não há coisa alguma que obrigue ao sistema de 60 minutos, não é alguma constante do universo, imutável e intocável. É perfeitamente possível (e lógico) alterá-lo.

Zigurate
Grande Zigurate de Ur, Iraque

   Em termos históricos, a divisão da hora em 60 minutos tem a sua origem na antiga Babilónia (612 BC – 539 BC). O número 12 tinha muita importância para os Babilónicos, pois este era o número de constelações que o sol percorria no seu aparente movimento pelo céu (ainda que agora o Sol percorra 13 constelações e não apenas as 12 do tempo dos babilónios). O dia era então separado em 12 horas diurnas e 12 horas nocturnas. Ao longo do ano, o comprimento das horas era variável, de forma a que, ao longo do ano, todos os dias tivessem sempre 24 horas (modernamente ajusta-se o relógio entre o horário de verão e o de inverno, com o acerto de uma hora, para obter o mesmo efeito). Além disso os Babilónios usavam um sistema de numeração sexagesimal (ou seja, com base 60 em vez da base 10 que costumamos usar. Como 60 = 5×12 e, para os Babilónios, o ano tinha 360 dias (60×6), e cada hora era dividida em 60 partes (basicamente, consideravam 60 minutos numa hora) e cada uma dessas partes era também dividida em 60. Foram também os Babilónios que criaram a semana com 7 dias. Eles dividiram-na em 7 dias, de acordo com os 7 «planetas» que conheciam (Sol, Lua, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno).

   Estas partes mais pequenas, alguns séculos mais tarde, durante o domínio romano da Europa, serão conhecidas como pars minuta prima «primeira parte mais pequena», o que deu origem ao termo «minuto» moderno e a subdivisão mais pequena como pars minuta secunda «segunda parte mais pequena», o «segundo» moderno.

Thoth
Thoth

   Mas, há 5 000 anos, no Egipto, as coisas foram alteradas. Diz a lenda egípcia que o Deus Thoth (que significa «Verdade» e simultaneamente «Tempo»), que era o Deus com a cabeça da ave Íbis, divindade do tempo, da sabedoria e da magia, criou um calendário com 12 meses com 30 dias cada. Cada mês era dividido em 3 períodos de 10 dias, cada dia em 10 partes, cada parte em 100 subdivisões e cada uma dessas subdivisões dividida em 100. Assim, cada dia tinha 100 000 partes, que Thoth estimou a partir do número de pulsações do coração humano num dia. Foi uma das tentativas de contar o tempo na base decimal.

Nuit
Nuit

   A lenda é um pouco mais complexa do que isto. Os 30 dias de cada mês foram criados para que este se ajustasse ao ciclo menstrual da Deusa-Mãe Nuit. Thoth previu que um filho que Nuit viria a ter governaria um dia o Egipto. Mas o Deus-Sol Rá, o primeiro faraó, amaldiçoou-a, dizendo que ela não daria à luz em qualquer dia do mês. Mas Thoth, juntamente com o Deus-Lua Khonsu, conseguiu que cada dia ganhasse 1/72 da luz da lua. Essa fracção correspondia aos 5 dias adicionais que o ano passaria a ter. Agora Nuit já podia dar à luz em 5 dias por ano. Acabou por nascer, num desses dias, Osíris, que viria a governar o Egipto. Rá, pouco satisfeito por ter sido enganado, fez com que a Lua, uma vez por mês, não brilhasse. Surgiu então a Lua nova, uma das fases da Lua.

Canhão Chinês de 1288   Uma outra tentativa de instituir uma contagem temporal decimal foi feita pelos chineses. Como é do conhecimento geral, foi da China que muitas invenções emanaram (bússola, papel, pólvora, sensor de tremor de terra, papagaios, …) A semana chinesa foi, durante algum tempo, constituída por 10 dias e cada dia em 10 unidades, estas em 100 divididas noutras 100.

delacroix   Mas a tentativa mais séria de instituir um calendário e horário decimal veio da Revolução Francesa (1789-1799), quando a monarquia foi derrubada e o papel da igreja no estado foi obliterado, procurando-se substituí-la pelo Racionalismo e pelo Pensamento Científico. Uma das medidas adoptadas foi a instituição do Tempo Revolucionário. A 5 de Outubro de 1793, a Convenção Nacional instituiu a divisão decimal do tempo, de acordo com a adopção do sistema métrico pela jovem república. A 24 de Novembro de 1793, foram feitas algumas alterações, com o acrescento da definição de que as 10 divisões do dia se chamariam horas e que as divisões e subdivisões destas seriam respectivamente os minutos decimais e os segundos decimais. Dessa forma o Calendário Gregoriano foi substituído pelo Calendário
Republicano. O ano estava dividido em 13 meses, 12 de 30 dias cada e um adicional de 5 dias (ou de 6 nos anos bissextos). Da mesma forma que no calendário decimal egípcio, cada mês de 30 dias era dividido em 3 décadas de 10 dias cada. Os dias eram chamados de primidi, duodi, tridi, quartidi, quintidi, sextidi, septidi, octidi, nonodi e décadi. O dia passava a estar dividido em 10 horas (em vez das 24), cada hora em 100 minutos e cada minuto em 100 segundos.relogio-decimal Assim uma hora republicana era equivalente a 2,4 horas (ou 2 horas e 20 minutos) tradicionais. Mas as mudanças na contagem do tempo eram difíceis de usar e então um período de habituação foi instituído no qual os relógios tinham simultaneamente as novas horas republicanas e as horas tradicionais. Mas a população no geral permaneceu renitente em aceitar a nova divisão do tempo. A tal ponto que, a 7 de Abril de 1795, um novo decreto abolia a obrigatoriedade do uso das novas horas republicanas. Não só a população tinha dificuldades em aceitar o novo sistema como os fabricantes de relógios estavam a passar por dificuldades económicas, uma vez que só poderiam produzir relógios que contivessem as novas horas, o que os limitava ao mercado interno francês. Os Relógios Revolucionários, com as novas horas, foram unicamente produzidos durante 18 meses e o novo calendário foi definitivamente abolido pelo auto-coroado imperador francês Napoleão I, a 1 de Janeiro de 1806.

   Uma outra tentativa de decimalizar o tempo foi feito em 1897, quando a «Commission de décimalisation du temps» (Comissão da Decimalização do Tempo) foi criada, sob a presidência do famoso matemático francês Henri Poincaré. Esta propôs a divisão do dia em 24 horas mas cada hora seria constituída por 100 minutos de 100 segundos cada, mas a proposta foi tão bem aceite como a anterior.

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