151. Umbigo do Mundo

Os dois locais mais isolados do Mundo que nos dão um sério aviso quanto ao
 destino deste planeta que partilhamos.

   Há dois locais no planeta que são considerados os mais isolados do Mundo devido à distância a que estão de outros locais habitados. Um deles é a Ilha da Páscoa (no meio do Oceano Pacífico, a 2 mil quilómetros do mais próximo local habitado) e o outro é a Ilha Tristão da Cunha (no meio do Oceano Atlântico, a 2 mil quilómetros do mais próximo local habitado).

   Uma dessas ilhas mais isoladas do mundo tem uma curta história que serve de sério aviso à Humanidade. No artigo População, falou-se na experiência conduzida pelo investigador John B. Calhoun sobre os efeitos da sobrepopulação nos ratos. A experiência foi repetida por outros investigadores com outras espécies animais. Muitas conclusões foram retiradas sobre os efeitos da sobrepopulação nos Seres Humanos. A derradeira experiência humana tinha já sido inadvertidamente feita 700 anos antes a milhares de quilómetros de distância na Ilha da Páscoa, ilha sob soberania do Chile no Pacífico Sul.

   Quando os primeiros habitantes, os Polinésios, chegaram à ilha (em mais ou menos 1200) encontraram uma ilha paradisíaca, coberta de floresta luxuriante e uma fauna variada. Os colonos, fugindo às guerras na sua ilha de origem, nas Ilhas Marquesas, espalharam-se pela ilha e multiplicaram-se, tendo chegado a um máximo de 15 mil pessoas e construído, entre 1250 e 1500, 887 estátuas conhecidas como Mo’ai. No continente americano, os Astecas (de que se falou no artigoTripla lição) chegaram ao vale do México vindos do norte e no continente europeu era rei em Portugal D. Afonso II.

   Mas, quando os Europeus chegaram à ilha em 1722, num navio holandês capitaneado por Jakob Roggeveen (1659-1729), encontraram uma ilha desprovida de árvores, com apenas entre 2 mil e 3 mil habitantes a morrer de fome por falta de árvores para fazerem barcos para pescarem e um solo com uma forte erosão por falta de vegetação protetora. Chegaram à ilha a 5 de Abril de 1722 (dia da Páscoa de 1722) e chamaram-lhe, com a habitual imaginação e criatividade europeias para terras que desconheciam, Ilha da Páscoa. Tanto os habitantes como a língua que falam são chamados Rapa Nui.

   Quando à ilha chegaram os Polinésios esta era coberta por uma floresta tropical. Devido à distância que os separavam dos seus locais de origem, os habitantes (os futuros Rapa Nui) viram-se isolados do Mundo, tendo eventualmente desenvolvido uma Mitologia na qual todas as ilhas do Mundo (os Polinésios só conheciam ilhas) tinham sido afundadas por um Gigante. Só esta ilha restou. Os habitantes consideravam-se as últimas pessoas à face da Terra e habitantes do último paraíso.

Com o tempo o seu número acabou por crescer até atingir cerca de 15 mil pessoas, número considerável para o pequeno tamanho da ilha (163,6 quilómetros quadrados ou 92 pessoas por quilómetro quadrado). Com o tempo estas últimas pessoas à face da Terra tinham desflorestado por completo a ilha, trazido a ratazana do Pacífico Rattus exulans que contribuiu também para a desflorestação, construído as gigantescas cabeças de pedra, começado a guerrear entre si (irmãos contra o irmãos), começaram os assassinatos e até o canibalismo. Após a chegada dos Europeus, começaram Guerras civis durante as quais todas as Mo’ai da ilha foram derrubados, tendo apenas dois séculos mais tarde, em 1922, começado um projeto para serem de novo levantados.

   O atual nome polinésio da ilha, Rapa Nui (Grande Rapa), surgiu apenas após os ataques esclavagistas do início dos anos 1860s e parece referir-se à semelhança topográfica com a ilha Rapa Iti, nas ilhas de Bass (Rapa Iti e Marotiri), parte das Ilhas Austrais francesas. Mas Rapa pode ter sido o nome original da Ilha da Páscoa e Rapa Iti ter sido assim chamada por refugiados de lá. A frase Te pito o te henua pode também sido o nome original da ilha, podendo ser traduzida como “O Umbigo do Mundo” ou ser uma referência à forma triangular da ilha. Há também a possibilidade de ter sido Te pito o te kainga a Hau Maka “O pequeno pedaço de terra de Hau Maka”, o mítico primeiro líder da expedição que chegou à ilha.

Rongo-rongo da Ilha da Páscoa

   Na ilha há também inscrições em pedra e em madeira numa língua ainda não decifrada chamada rongorongo, escrita na orientação bustrofédon (esquerda para a direita numa linha e direita para a esquerda na seguinte) mencionada por uma missionário francês em 1864. Na altura, ainda existiam nativos da ilha capazes de as lerem mas nenhum sobreviveu às expedições esclavagistas e às epidemias que arrasaram a população da ilha. Poucas inscrições sobrevivem, apenas cerca de duas dúzias, nenhuma delas ainda na ilha.

   Quando os exploradores europeus chegaram, a ilha tinha apenas vegetação rasteira, a população era já escassa e apenas as grandes cabeças subsistiam. Os Rapa Nui existentes foram vendidos como escravos e a língua e a cultura quase se perderam. Há, na História da Ilha da Páscoa, muitos paralelismos com a Terra como um todo, numa sinédoque à escala do planeta (a sinédoque é a figura de estilo que toma o todo, neste caso a Terra, pela parte, aqui a Ilha da Páscoa). Também nós desconhecemos a existência de vida para além da nossa pequena “ilha” no vasto “oceano” do Universo. Também nós vivemos num paraíso no meio do “oceano”. Também nós caminhamos para a destruição do nosso meio ambiente. Também nós nos envolvemos em guerras civis com os nossos irmãos. Espero que nós também não partilhemos “perifrasicamente” o destino dos Rapa Nui neste nosso “Umbigo do Universo”.
O isolamento da Ilha da Páscoa é apenas quebrado, desde 1967, pelo seu aeoroporto.

   A outra ilha mais isolada do mundo é a Ilha Tristão da Cunha, que faz parte de um território de soberania inglesa no Atlântico Sul chamado Território de Santa Helena, Ascenção e Tristão da Cunha. A Ilha de Santa Helena é mais conhecida por ter sido a ilha para a qual Napoleão (de que se falou no artigo Legião Laranja), após a derrota na Batalha de Waterloo, foi exilado de 1815 até à sua morte em 1821. A ilha foi descoberta (era desabitada quando foi encontrada) em 1502 pelo Navegador português João da Nova. As outra ilhas do arquipélago foram também descobertas por navegadores portugueses, nomeadamente a Ilha de Tristão da Cunha, que faz parte de um arquipélago com a Ilha de Gonçalo Álvares. O local habitado mais próximo da Ilha de Tristão da Cunha é a Ilha de Santa Helena, 2 420 km mais a Norte.
Devido ao seu tamanho e terreno inóspito, não há aeroporto e somente uma povoação chamada Edimburgo dos Setes Mares, a que se chega após uma viagem de 12 dias de barco.

 

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