158. Canção de Paz forjada na Guerra

   Nesta época de Natal, esta é uma das músicas mais tocadas  pelo mundo, conhecida em Portugal como “Noite de Paz” (originalmente em Alemão "Stille Nacht") mas cuja letra foi já traduzida em, pelo menos 300 línguas e foi tocada em variados estilos musicais desde Reggae a Heavy Metal. Foi declarada pela UNESCO como UNESCO Património Cultural Imaterial da Humanidade em Março de 2011, no mesmo ano em que o Fado também foi integrado nesta lista.

   A música foi criada no século 19 com o nome “Stille Nacht(literalmente "Noite silenciosa") na Áustria  numa Europa devastada por 12 anos de Guerras Napoleónicas. A letra da canção foi escrita, em 1816,  por um jovem padre austríaco chamado Josephus Franciscus Mohr (1792-1848) no município de Mariapfarr, distrito de Tamsweg, estado de Salzburgo, Áustria. No Outono desse ano, a congregação da pequena cidade estava abalada pela destruição do país e das suas infraestruturas políticas e sociais. Para comemorar a criação desta icónica música, foi erigida uma capela, a Capela “Stille Nacht” em Oberndorf bei Salzburg, Austria, entre 1924 e 1937.

   Dois anos antes (1814), a Guerra Peninsular, em que as tropas francesas invadiram a Península Ibérica, tinha terminado após a desastrosa invasão da Rússia, a derrota de Napoleão pela Sexta Coligação e subsequente exílio na ilha italiana de Elba. Foi durante esta Guerra que o famoso explorador Belzoni esteve em Portugal, como visto no artigo Indiana Jones cantou ópera em Portugal. Houve também a criação de uma Legião Portuguesa que acompanhou Napoleão até à sua derrota na Rússia, como visto em Legião Laranja. Testemunhou também o desuso em Portugal do nome Marrom para a cor castanha, ao contrário de todas as outras línguas latinas e ao seu uso no Brasil, como visto em Palavras Coloridas. Também surgiram as expressões “ir para o maneta”, “para Inglês ver”, “de armas e bagagens” e mesmo a palavra “guerrilha“. Napoleão seria exilado num dos dois locais habitados mais isolados do mundo, de que se falou em Umbigo do Mundo.

   Um ano antes (1815), a catastrófica erupção do vulcão indonésio Tambora cobriu  o mundo de cinzas vulcânicas, causando  trouxe um ano sem Verão, com frio e neve a devastarem as colheitas e a trazerem fome e frio a todo o planeta. Houve cinzas na atmosfera durante vários meses após a erupção que refletiram a radiação solar. Durante 9 anos, a Europa teve de lidar com a devastação das Guerras Napoleónicas e das consequências de uma das maiores erupções vulcânicas de que há registo.  A coluna de fumo subiu até aos 43 quilómetros de altura, a temperatura média do planeta desceu −0,5ºC e mais de 71 mil pessoas morreram como consequência direta da erupção e milhões morreram da fome e das doenças trazidas pelo arrefecimento global.

   A congregação de Mohr estava sem dinheiro, faminta e traumatizada. Por isso, ele escreveu seis versos poéticos para lhes dar algum alento e esperança nesse terrível ano de 1816.  Dois anos mais tarde (1818) Franz Xaver Gruber (1787-1863), professor da escola primária local e organista da igreja, compôs a melodia para acompanhar os versos. A música foi interpretada na noite de Natal de 1818 sendo bem recebida por todos. O próprio Gruber cantou a letra e o padre Mohr  acompanhou-o com guitarra porque o órgão não estava a funcionar na altura. A música fez tanto sucesso que no Natal de 1819 foi interpretado perante o imperador austríaco Francisco I of Austria e o imperador russo Alexandre I. Em 1839 foi cantada, na versão original em Alemão, nos EUA e tornou-se a música preferida de Frederico Guilherrme IV da Prússia. Foi traduzida para o idioma em que é mais tocada atualmente, Inglês como “Silent night”, em 1859 por John Freeman Young usando apenas 3 dos 6 versos originais de Mohr. A atual versão da música é mais lenta e meditativa (em particular o final) do que a oiginal de Gruber, que tinha uma andamento mais moderato.  Tanto a música como  a letra são atualmente de domínio público (ainda que nem todas as  traduções e interpretações o sejam).

   No primeiro Natal de 1914, na frente de combate entre as tropas alemãs e as inglesas, esta música foi cantada nas duas trincheiras inimigas. Rapidamente uma confraternização entre os inimigos foi feita e árvores de Natal foram decoradas, como visto no artigo Trégua de Natal. As árvores de Natal são uma tradição de Natal alemã  em que se usam abetos, que são árvores da família dos pinheiros, enfeitados com velas. Desde o século 16 que estas árvores eram decoradas publicamente. Após o casamento da rainha inglesa Vitória (1819-1901) com o seu primo, o príncipe da Saxónia Alberto (1819-1861), muitas tradições alemãs foram trazidas para ao império inglês, como este de enfeitar árvores no Natal.  A mãe da Rainha Vitória, também chamada Vitória, era também da Saxónia. Os vestidos de casamento brancos só se tornaram comuns após a Rainha Vitória usar essa cor no seu casamento. Branco era tradicionalmente a cor usada no luto que só passou a ser preto quando a Rainha Vitória passou a usá-la exclusivamente após a morte de Alberto.

 Os itens da lista do Património cultural têm de ser reconhecidos como tendo valor social e cultural por todos os 193 estados-membro da UNESCO.  Esta organização  foi fundada em 1946 e teve como o seu primeiro diretor-geral Julian Huxley (1887-1975), irmão mais velho do escritor inglês Aldous Huxley (1894-1963), cuja distopia Admirável Mundo Novo foi inspirada pela sua vida na itália fascista dos anos 20. Falou-se na origem etrusca da palavra fáscia e de muitas outras em Janela fascinante.

A música de Natal mais ouvida e conhecida é “A todos um Bom Natal“, composta em 1980 e interpretada pelo Coro Infantil de Santo Amaro de Oeiras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *