23. Vampiros impossíveis

  Matematicamente, os vampiros são impossíveis. Eis a história da sua criação e impossibilidade.

    Nos últimos anos (primeiros do século XXI), têm sido populares histórias/filmes/séries televisivas envolvendo vampiros e lobisomens e demais criaturas «sobrenaturais». Não se tratando de um tema muito recente, não se perde também nas difusas memórias da História/Pré-História. No início do segundo milénio da nossa era, os Seres Humanos continuam com a mesma necessidade e interesse em perceber e explicar a realidade que os rodeia.

vampiro   A «atual» noção de vampiro, com a sua vertente aristocrática, anticatólica e vulnerável ao alho, à cruz, à água «benta», à prata,… tem como base o conto de John Polidori de 1819 intitulado «The Vampyre», protagonizado por Lord Ruthven. Com base neste conto (geralmente incorretamente ao poeta inglês Lord Byron) uma miríade de «vampiros aristocráticos» surgiu (uma camuflada crítica político-social?!), culminando no Conde Drácula, criado, por Bram Stoker, em 1897, fundindo os mitos eslavos com o vampiro aristocrático de Polidori e com a figura histórica de Vlad III, príncipe da Valáquia (presentemente parte da moderna Roménia), de que se falou no artigo Drácula mordeu Inês de Castro.

vpmcvp    Uma dessas explicações ad hoc foi a noção de «vampiros», seres que se alimentavam das «almas» dos Seres Humanos, tornando-os também num quando o faziam. Vampiro vem da palavra eslava (comum a todas as línguas da Europa de Leste) «vampir» e foi daí que irradiou para o resto da Europa. Após os Descobrimentos, os Europeus tiveram conhecimento das únicas três espécies de morcegos (de entre as 1240 conhecidas e catalogadas a nível mundial) que são hematófagas (alimentam-se de sangue) e, graças à ainda presente e incorreta ligação entre sangue/hereditariedade/«alma» rapidamente a «prova» da existência de vampiros reforçou os mitos medievais eslavos. E os morcegos ficaram injustamente associados ao vampirismo desde então (um pouco como uma família de 1240 honestos e trabalhadores membros passasse a ser rotulada de «gatuna» porque 3 (0,24%) dos seus familiares foram acusados de roubo).

vlad_b   Esta é uma das divergências entre o «Drácula» histórico e o Drácula ficcionado: Vlad «Drácula» era acérrimo inimigo dos muçulmanos, o que começou na sua infância quando foi entregue aos Otomanos como resgate pelo seu pai, tendo sido sujeito a torturas físicas e mentais que o marcaram toda a vida. Foi portanto um defensor do cristianismo e da cruz e não seu inimigo. Além de não ser Conde mas Príncipe…   O pai de Vlad, chamado Vlad II, passou a ser designado por Dracul após ter integrado a Ordem Religiosa Militar do Dragão. Esta foi criada e formada por reis e príncipes cristãos europeus com o intuito de combater o avanço religioso, militar e geográfico dos Otomanos (muçulmanos) no continente europeu (infrutiferamente, já que a Albânia, Bósnia, Bulgária, Croácia, Eslovénia, Grécia, Sérvia e Roménia durante alguns séculos fizeram parte do Império Otomano). Sendo filho de um membro da Ordem do Dragão, Vlad III era conhecido como «Pequeno Dragão» (Draculae em Latim), de onde Bram Stoker retirou o nome para a sua personagem. Muitas são as histórias sobre a crueldade do «Pequeno Dragão» (e que lhe valeram também a alcunha de «o Impalador») mas ainda hoje ele é lembrado e celebrado na Roménia como um herói (uma espécie de «D. Sebastião» romeno que morreu inimigo dos muçulmanos.

pass-vamp   O próprio conceito de «vampiro» é biologicamente pouco provável em mamíferos (só as 3 espécies de morcegos), havendo pássaros vampiros (como o Geospiza difficilis septentrionalis nas Ilhas Galápagos) sendo mais frequente em insetos e minhocas. Mas o conceito de «vampiro» é matematicamente impossível. Uma das principais características dos «vampiros-humanos» é o de transformarem as suas vítimas em «vampiros» (os «lobisomens» também) também depois de lhes morderem (talvez uma reminiscência dos «devoradores de alma» dos mitos eslavos». Mas esse conceito cai por terra com um simples cálculo que se pode fazer com uma calculadora simples/telemóvel. Tem a ver com o conceito de progressão geométrica e pode ser encontrada no crescimento explosivo de bactérias ou numa lenda relacionada com a criação do jogo de xadrez.

popgro     Imagine-se então um só «vampiro», com as características definidas desde o século XIX por Polidori. Talvez tenha surgido em 1800 e morde alguém, que se torna «vampiro» também. No dia seguinte, há 2 vampiros e, cada um, morde alguém. No dia seguinte há 2×2 = 4 «vampiros». No dia seguinte, cada um dos quatro vampiros morde alguém e passam a existir 8 «vampiros». Assim, no primeiro dia há 1 «vampiro», no segundo dia há 2 «vampiros», no terceiro dia há 4  «vampiros», no quinto dia há 8 «vampiros»: cada dia tem duas vezes mais vampiros do que no dia anterior. Com uma calculadora/telemóvel é possível fazer a contagem para os 20 dias seguintes: 1; 2; 4; 8; 16; 32; 64; 128; 256; 512; 1024; 2048; 4096; 8192; 16 384; 32 768; 65 536; 131 072; 262 144; 524 288.

flp   20 dias depois já há mais de 520 mil «vampiros»! O crescimento começa lenta mas acelera rapidamente.  Ao fim de 25 dias, há mais de 16 milhões de «vampiros» (a população portuguesa é, atualmente, menos de 11 milhões). Depois de 29 dias, há cerca de 206 milhões de «vampiros» (a população brasileira é, atualmente, pouco acima de 201 milhões). Depois de 34 dias, há perto de 8 mil e 600 milhões de «vampiros» (a população mundial, neste momento, é cerca de 7 mil e 120 milhões). É sempre importante relembrar que os «biliões» usados nos EUA correspondem aos nossos «mil milhões»

vampyr   Se o «vampiro» tivesse surgido em janeiro de 1800, em Abril mais do que a atual população mundial seria «vampira». Se o «vampiro» tivesse surgido em janeiro de 2013, hoje seríamos todos «vampiros». Como qualquer um pode avaliar por si mesmo, há pelo menos uma pessoa que não é «vampira». Então ninguém é ou não haveria sobreviventes, já que os «vampiros» não se alimentam uns dos outros.

   Esta constatação matemática não rouba valor literário ao género «vampiresco» (tal como o facto de os cães/gatos/galos/… não terem raciocínio lógico-dedutivos não retira mérito a’«Os Bichos» de Miguel Torga), apenas enquadra estas histórias no campo estrito da ficção! 

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