23. Vampiros impossíveis

  Matematicamente, os vampiros são impossíveis. Eis a história da sua criação literária e porque não podem matematicamente existir.

    Nos últimos anos (primeiros do século XXI), têm sido populares histórias/filmes/séries televisivas envolvendo vampiros e lobisomens e demais criaturas «sobrenaturais». Não se tratando de um tema muito recente, não se perde também nas difusas memórias da História/Pré-História. No início do segundo milénio da nossa era, os Seres Humanos continuam com a mesma necessidade e interesse em perceber e explicar a realidade que os rodeia.

vampiro   A «atual» noção de vampiro, com a sua vertente aristocrática, anticatólica e vulnerável ao alho, à cruz, à água «benta», à prata,… tem como base o conto do escritor inglês John Polidori (1795-1821) de 1819 intitulado «The Vampyre», protagonizado por Lord Ruthven. Com base neste conto (geralmente atribuído incorretamente ao poeta inglês Lord Byron), uma miríade de «vampiros aristocráticos» surgiu (uma camuflada crítica político-social?!), culminando no Conde Drácula, criado pelo escritor irlandês Bram Stoker (1847-1912), em 1897, fundindo os mitos eslavos com o vampiro aristocrático de Polidori e com a figura histórica de Vlad III, príncipe da Valáquia (presentemente parte da moderna Roménia), de que se falou no artigo Drácula mordeu Inês de Castro.

vpmcvp    Uma dessas explicações ad hoc foi a noção de «vampiros», seres que se alimentavam das «almas» dos Seres Humanos, tornando-os também num quando o faziam. Vampiro vem da palavra eslava (comum a todas as línguas da Europa de Leste) «vampir» e foi daí que irradiou para o resto da Europa. Após os Descobrimentos, os Europeus tiveram conhecimento das únicas três espécies de morcegos (de entre as 1240 conhecidas e catalogadas a nível mundial) que são hematófagas (alimentam-se de sangue) e, graças à ainda presente e incorreta ligação entre sangue/hereditariedade/«alma» rapidamente a «prova» da existência de vampiros reforçou os mitos medievais eslavos. E os morcegos ficaram injustamente associados ao vampirismo desde então. Como se uma família de 1240 honestos e trabalhadores membros passasse a ser rotulada de «gatuna» porque 3 (0,24%) dos seus familiares foram acusados de roubo).

vlad_b   Esta é uma das divergências entre o «Drácula» histórico e o Drácula ficcionado pois Vlad «Drácula» era acérrimo inimigo dos muçulmanos, o que começou na sua infância quando foi entregue aos Otomanos como resgate pelo seu pai, tendo sido sujeito a torturas físicas e mentais que o marcaram toda a vida. Foi portanto um defensor do cristianismo e da cruz e não seu inimigo. Além de não ser Conde mas Príncipe…   O pai de Vlad, chamado Vlad II, passou a ser designado por Dracul após ter integrado a Ordem Religiosa Militar do Dragão. Esta foi criada e formada por reis e príncipes cristãos europeus com o intuito de combater o avanço religioso, militar e geográfico dos Otomanos (muçulmanos) no continente europeu (infrutiferamente, já que a Albânia, Bósnia, Bulgária, Croácia, Eslovénia, Grécia, Sérvia e Roménia durante alguns séculos fizeram parte do Império Otomano). Sendo filho de um membro da Ordem do Dragão, Vlad III era conhecido como «Pequeno Dragão» ou Draculae em Latim, de onde Bram Stoker retirou o nome para a sua personagem. Muitas são as histórias sobre a crueldade do «Pequeno Dragão» e que lhe valeram também a alcunha de «o Impalador» mas ainda hoje ele é lembrado e celebrado na Roménia como um herói (uma espécie de «D. Sebastião» romeno que morreu inimigo dos muçulmanos.

pass-vamp   O próprio conceito de «vampiro» é biologicamente pouco provável em mamíferos (só as 3 espécies de morcegos), havendo pássaros vampiros (como o Geospiza difficilis septentrionalis nas Ilhas Galápagos) sendo mais frequente em insetos e minhocas. Mas o conceito de «vampiro» é matematicamente impossível. Uma das principais características dos «vampiros-humanos» é o de transformarem as suas vítimas em «vampiros» (os «lobisomens» também) também depois de as morderem, talvez uma reminiscência dos «devoradores de alma» dos mitos eslavos. Mas esse conceito cai por terra com um simples cálculo que se pode fazer com uma calculadora simples/telemóvel. Tem a ver com o conceito de progressão geométrica e pode ser encontrada no crescimento explosivo de bactérias ou numa lenda relacionada com a criação do jogo de xadrez.

popgro     Imagine-se então um só «vampiro», com as características definidas desde o século XIX por Polidori. Talvez tenha surgido em 1800 e morde alguém, que se torna «vampiro» também. No dia seguinte, há 2 vampiros e, cada um, morde alguém. No dia seguinte há 2×2 = 4 «vampiros». No dia seguinte, cada um dos quatro vampiros morde alguém e passam a existir 8 «vampiros». Assim, no primeiro dia há 1 «vampiro», no segundo dia há 2 «vampiros», no terceiro dia há 4  «vampiros», no quinto dia há 8 «vampiros»: cada dia tem duas vezes mais vampiros do que no dia anterior. Com uma calculadora/telemóvel é possível fazer a contagem para os 20 dias seguintes: 1; 2; 4; 8; 16; 32; 64; 128; 256; 512; 1024; 2048; 4096; 8192; 16 384; 32 768; 65 536; 131 072; 262 144; 524 288.

flp   20 dias depois já há mais de 520 mil «vampiros»! O crescimento começa lenta mas acelera rapidamente.  Ao fim de 25 dias, há mais de 16 milhões de «vampiros» (a população portuguesa é, atualmente, menos de 11 milhões). Depois de 29 dias, há cerca de 206 milhões de «vampiros» (a população brasileira é, atualmente, pouco acima de 201 milhões). Depois de 34 dias, há perto de 8 mil e 600 milhões de «vampiros» (a população mundial, neste momento, é cerca de 7 mil e 120 milhões). É sempre importante relembrar que os «biliões» usados nos EUA correspondem aos nossos «mil milhões»

vampyr   Se o «vampiro» tivesse surgido em janeiro de 1800, em Abril mais do que a atual população mundial seria «vampira». Se o «vampiro» tivesse surgido em janeiro de 2013, hoje seríamos todos «vampiros». Como qualquer um pode avaliar por si mesmo, há pelo menos uma pessoa que não é «vampira». Então ninguém é ou não haveria sobreviventes, já que os «vampiros» não se alimentam uns dos outros.

   Esta constatação matemática não rouba valor literário ao género «vampiresco» (tal como o facto de os cães/gatos/galos/… não terem raciocínio lógico-dedutivos não retira mérito a’«Os Bichos» de Miguel Torga), apenas enquadra estas histórias no campo estrito da ficção! 

4 pensamentos em “23. Vampiros impossíveis

  1. I simply wanted to thank you very much once more. I do not know what I would have tried without these techniques shared by you regarding that subject matter. It was before an absolute scary scenario in my position, nevertheless taking note of this specialized tactic you solved the issue took me to weep with happiness. Now i’m thankful for your support and thus trust you are aware of a powerful job that you are accomplishing educating many people by way of a site. I am certain you’ve never come across all of us.

  2. My spouse and i have been really lucky that Louis managed to finish off his research through your precious recommendations he made through your web pages. It is now and again perplexing to just find yourself handing out steps which people today may have been selling. Therefore we know we need the writer to give thanks to for that. The specific illustrations you have made, the simple web site navigation, the relationships you will help to instill – it’s got most powerful, and it’s really leading our son in addition to the family reason why the subject is fun, which is really pressing. Thank you for the whole lot!

  3. Thanks for your whole work on this website. My mum takes pleasure in setting aside time for research and it is simple to grasp why. We notice all relating to the powerful ways you provide very useful tips and tricks via your website and therefore strongly encourage response from visitors on this theme while our own simple princess is without a doubt understanding so much. Take pleasure in the rest of the year. Your performing a useful job.

  4. I am also commenting to let you know of the helpful encounter my friend’s daughter found reading through your web page. She figured out numerous issues, not to mention what it’s like to have an amazing giving mood to have most people really easily know selected impossible subject areas. You really exceeded our own expectations. Many thanks for imparting the invaluable, safe, explanatory and even easy thoughts on the topic to Janet.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *