24. Caixa de Pandora

   O mito grego de Pandora e as diversas interpretações que dele se podem fazer.

Waterhouse - Pandora-1896   A maioria das pessoas já ouviu falar do mito de Pandora. Sabem que está relacionado com uma mulher de nome Pandora que, devido à sua curiosidade, abriu uma caixa contendo todos os males do Mundo. Todos se libertaram e espalharam pela Terra menos a Esperança. Há quem interprete este mito como significando que, quando tudo está perdido, sempre sobra a esperança; há quem veja o mito como aviso quanto à curiosidade

   O mito de Pandora é mais ou menos o seguinte: os Deuses criaram todos os animais à face da Terra, incluindo o Ser Humano. O Titã Epimeteu (os Titãs foram as 12 divindades originais, filhas de Urano «o céu» e de Gaia «a Terra») ficou responsável pela atribuição dos dons aos diversos animais: força para o urso, visão apurada para a águia,… Quando chegou à vez do Ser Humano, todos os dons já tinham sido dados. às pessoas nenhum dom especial foi dado, daí a «explicação» mitológica para a fraqueza física do Ser Humano face aos outros animais: não temos força de alguns, nem a velocidade de outros, nem as garras daqueles, nem a visão destes,…

prometeu-fogo   Mas o Titã Prometeu, irmão de Epimeteu, achou que, tendo sido as pessoas criadas superiores aos outros animais, deviam também ter um dom especial. Na altura, apenas os Deuses possuíam e utilizavam o fogo, por isso Prometeu decidiu roubá-lo a Zeus e dá-lo às Pessoas. Nesse tempo, os seres humanos eram felizes e viviam em harmonia com a Natureza. Não havia fome, guerra, inveja, frio, desconforto,… E viviam agora com o presente de Prometeu, o até-então-divino fogo. Por ter cometido tal ato de traição contra os deuses, Prometeu foi agrilhoado a uma rocha e o seu fígado era comido todos os dias por águias (ou abutres, depende da versão). Como era imortal, todos os dias lhe nascia um fígado novo, todos os dias era comido e as dores eram imensas, tal era o desagrado dos deuses perante a sua atitude de conceder a meros mortais atributos divinos.

monte-olimpo   A Mulher não tinha sido ainda criada e Zeus procurava uma forma de também castigar os mortais, por terem aceitado a dádiva de Prometeu. Para tal, reuniu os deuses no Monte Olimpo para que juntos pensassem num castigo adequado. Decidiram então, em conjunto, criar a Mulher e depois oferecê-la a Prometeu. Cada deus ofereceu-lhe uma dádiva divina e decidiram chamar-lhe Pandora (Πανδώρα «todos os dons» em grego):deuses-gregos   Efesto, deus dos artífices e da metalurgia, moldou-a do barro e deu-lhe as sua belas formas; Atena, deusa da caça, da tecelagem e da guerra, deu-lhe belas roupas; As Cáritas (Agleia «beleza», Eufrosina “alegria sorridente” e Tália «boa disposição»), deusas do charme, da beleza, da natureza, da criatividade e da fertilidade, deram-lhe belos ornamentosAfrodite, deusa da beleza e da sensualidade, deu-lhe belezaApolo, deus da medicina, da música e da poesia, deu-lhe talento musical e o dom da cura; Deméter, deusa da agricultura, ensinou-a a tornar belos os jardins; Posídon, deus do mar, dos cavalos e dos terramoto (uma explicação alternativa do Cavalo de Tróia é que foi um terramoto, já que cavalos e terramotos estão ligados através de Posídon), deu-lhe um colar de pérolas e a habilidade de nunca se afundar; Zeus, deus dos trovões e dos relâmpagos, tornou-a frívola, mesquinha e inconstante (a componente da vingança de Zeus); Hera, esposa-irmã de Zeus, deu-lhe a curiosidade (a componente essencial da personalidade de Pandora no mito); Hermes, mensageiro dos deuses, deus dos viajantes, dos pastores, dos oradores, do engenho, da literatura, dos poetas, do desporto, das medições, da invenção (foi ele quem tinha inventado o fogo), do comércio, dos ladrões e dos vigaristas, deu-lhe o engenho e a coragem.

pandora   Hermes entregou-a então a Prometeu. Este, desconfiando que nada de bom os deuses lhe poderiam dar, recusou o presente e aconselhou o seu irmão, Epimeteu, a fazer o mesmo. Mas Epimeteu tinha uma natureza mais crédula e, quando viu Pandora, exclamou “Certamente que um ser tão bonito e gentil não pode causar mal algum!” e aceitou alegremente ficar com o presente. Os primeiros dias foram maravilhosos e o seu amor despontou. Uma noite, estando os dois a dançar no jardim, viram Hermes a passar. Os seus trajes estavam esfarrapados, os seus passos lentos e as suas costas arqueadas sob o peso de uma grande caixa. Pandora imediatamente quis saber o que tinha a caixa. Hermes evitou a questão, pedindo unicamente para deixar à sua guarda a caixa, pois já estava muito cansado. Brevemente, voltaria para a levar de volta e partiu. Epimeteu voltou para dentro de casa mas Pandora ficou sozinha com a caixa. A sua curiosidade aproximou-a da caixa, de onde saíam vozes que diziam “Pandora, doce Pandora, tem pena de nós e liberta-nos!“. Pandora, ouvindo Epimeteu voltar, decidiu dar só uma breve espreitadela no interior da caixa. Mas Júpiter tinha colocado na caixa todas as doenças, invejas, desconfortos e defeitos que tinha afastado da Humanidade. Assim que ela abriu a caixa todos eles saíram rapidamente da caixa e espalharam a miséria e a dor pelo Mundo. Assim que Epimeteu chegou, pela primeira vez eles discutiram. Mas, no meio da discussão, ouviram uma voz vinda da caixa que lhes pedia para a libertarem. Epimeteu, curioso, abriu pela segunda vez a caixa e dentro viu a Esperança, cuja missão era aliviar aqueles afetados pelos seus companheiros na caixa. Pandora e Epimeteu rapidamente fizeram as pazes e a Esperança saiu para o Mundo para aliviar as outras pessoas.

mulher  Algumas considerações podem ser feitas a partir deste mito: Primeiro Não deixa de ser curioso que Zeus, querendo castigar os homens, tenha engendrado a Mulher para castigar Prometeu. Talvez porque Zeus estava indirectamente a castigar a vontade humana de se equiparar aos deuses (a famosa hubris grega) e as mulheres são a componente mais divina do Homem. Segundo os dons dos Deuses: a vingança de Zeus na inconstância, a da sua mulher na curiosidade e o de Posídon de não se afogar (teriam os gregos já noção que as mulheres têm uma maior percentagem de gordura corporal do que os homens, o que as torna menos propensas a afogarem-se?); Terceiro Epimeteu aceitou a prenda destinada ao irmão. A possível lição é que não se deve aceitar prendas recusadas por outros e, além disso, que não nos devemos fiar em aparências. Quarto É verdade que Pandora estava curiosa para ver o interior da caixa mas só decidiu abrir a caixa quando ouviu Epimeteu chegar, talvez para impedir que ela o fizesse. Mais uma vez constato que, por vezes, a tentativa de impedir algo é o que conduz à sua realização. Quinto Não foi meramente a curiosidade que a levou a abrir a caixa. Foi também por consideração perante os pedidos de libertação vindos da caixa. Há aqui também um fundo de bondade num acto referido como sendo unicamente de curiosidade. Sexto Não foi unicamente Pandora a abrir a caixa. Também Epimeteu a sentiu. Desconhecia o interior da caixa e fê-lo. Pelos vistos, os supostos “defeitos” femininos são também masculinos. Sétimo Uma vez que a Esperança estava na caixa juntamente com todos os males da Humanidade será que a Esperança é um mal que aflige a Humanidade? Bom, talvez quando as pessoas têm a tendência de se agarrar à Esperança de que tudo melhorará e não vêem que lhes cabe fazerem por mudar as coisas. A Esperança pode conduzir à inacção ou servir como desculpa para ela. Talvez a Esperança seja o Mal mais sorrateiro pois aparenta ser boa. Se o fosse realmente deveria ter saído juntamente com os males para imediatamente remediar o que fariam. Oitavo A Humanidade foi criada feliz e realizada sem males, aflições, invejas, defeitos… Antes de ter caixa-de-pandoraEsperança. A Esperança foi libertada da caixa depois da criação do Homem e até Pandora surgir a Humanidade era feliz sem esperança. A esperança não é então uma condição necessária à felicidade. Nono Por outro lado a Humanidade vivia num mundo perfeito, em que não havia males nem sofrimento. A Esperança era então desnecessária. Mas no mundo imperfeito em que vivemos talvez seja a Esperança o mal mais necessário…

nietsche   Já Friedrich Nietzsche, no seu livro “Ecce Homo”, interpreta este mito à luz do facto de a Esperança estar na caixa com todos os males do Mundo. Como tal, a esperança é um mal, propositadamente lá colocada por Zeus, para prolongar o sofrimento humano já que quem tem esperança de que tudo vai mudar mais facilmente se resigna a esperar que tudo melhore em vez de lutar para que isso aconteça. É de notar também que, quando o Homo Sapiens surgiu (há  ceerca 200 mil anos), já o fogo tinha sido domado pelos seus antepassados Homo Erectus (de há 1,9 milhões de anos até há cerca de 70 mil anos, de que o Homo floresiensis na ilha Flores, na Indonésia, é descendente e terá sido a última espécie parente dos Seres Humanos a conviver com estes.

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