27. Cavaleiro de Trapp’o

   A verdadeira história da família van Trapp, que inspirou o filme "Música no Coração".

freira  Uma jovem professora de 21 anos vivia num convento, preparando-se para ser freira. Entretanto residia, perto do convento, um militar com 46 anos, viúvo havia 4 anos e com 7 filhos. Uma das filhas do militar adoeceu e não podia ir à escola. O pai então dirigiu-se ao convento local para contratar uma professora que desse à filha as aulas que estava a perder. A jovem professora foi escolhida e contratada por um período de 10 meses, após os quais integraria o convento. Mas acabou por casar com o militar, 25 anos mais velho, com quem viria a ter 3 filhos, e não mais voltou ao convento. A família eventualmente acabou por dedicar a sua vida familiar a cantar, bem longe da sua terra natal.

   Eis uma história que será, em termos gerais, reconhecida pela maioria das pessoas. A História da família foi posta em livro e deu origem a um dos filmes que a maioria das pessoas já viu, gostou ou não gostou mas não ficou indiferente: Música no coração (Portugal) ou A noviça rebelde (Brasil).

   O filme foi baseado na verdadeira História da família von Trapp, originária da Europa Central e que emigrou para os EUA durante a Segunda Guerra Mundial. A História dos von Trapp começa com Georg Ludwig Trapp, nascido em 1880, na cidade de Zadar, no Império Áustro-Húngaro (agora cidade da Croácia). Quando Georg Trapp nasceu, o Império Áustro-Húngaro (de 1804 até 1867 apenas Império Austríaco e, de 1867 até 1918, Império Áustro-Húngaro), com os seus 676 mil e 615 km2 governava onze povos diferentes (e outras tantas línguas diferentes) num total de perto de 51 milhões de pessoas.

imp-aust-hung   Quando Georg Trapp nasceu, o Império Austríaco tinha já mudado de nome para Império Áustro-Húngaro. A Hungria era uma parte importante do Império Austríaco (maior até do que a da própria Áustria) antes de 1867 mas a casa governante era a dos Habsburgos da Áustria. Mas, em 1867, em consequência das guerras com a Sardenha (na actual Itália), em 1859, e com a Prússia (atualmente norte da Alemanha, norte da Polónia, Estónia, Letónia e Lituânia), em 1866, o Imperador Franz Joseph (marido da famosa Sissi e tio do Arquiduque Franz Ferdinand) não tinha já a mesma força unificadora de antes. Os Húngaros exigiam mais predominância no Império, a par da sua importância geográfica e populacional. Para estabilizar o Império Austríaco, Franz Joseph, em 1867, modificou a constituição da nação (e o seu nome), dando plena igualdade política à Hungria e Áustria e criando o Império Áustro-Húngaro. A Imperatriz Sissi, de verdadeiro nome Elisabeth Amalie Eugenie, Duquesa da Baviera, viveu entre 1837 e 1898, tendo sido assassina por um anarquista, na Suíça. Sissi era tia do Arquiduque Franz Ferdinand, cujo assassinato iniciou a I.ª Guerra Mundial.

georg_trapp   Foi nesse vasto Império, com uma zona costeira mediterrânica (ao contrário das actuais Áustria ou Hungria), que Georg Trapp cresceu. O seu pai, que morreu quando Georg tinha apenas 4 anos de idade, fazia parte da Marinha Áustro-Húngara e Georg seguiu-lhe as pisadas: ingressou na Academia Naval e formou-se após 6 anos (4 de estudo e 2 de navegação). Em 1900, entrou para a tripulação do Cruzador Kaiserin und Königin Maria Theresia (Imperatriz e Rainha Maria Teresa). Maria Teresa, 1717-1780, foi Arquiduquesa da Áustria e Rainha da Hungria. Em 1910, o seu fascínio por submarinos foi recompensado, sendo nomeado Comandante do recentemente construído submarino áustro-húngaro U-6. A cerimónia de baptismo da embarcação foi feita por Agatha Whitehead, neta de Robert Whitehead, inventor do torpedo, em 1866. Os dois casaram um ano depois, em 1911.

assass_fj   Em 1914, a vida dos europeus (e das suas colónias) foi abalada por um evento que viria a ter repercussões ao longo de todo o século XX e início do século XXI (e esperemos que não muito para além disto): o assassinato do Arquiduque Franz Ferdinand, herdeiro da coroa Áustro-Húngara. Em 1914, enquanto visitava o Reino dos Servos, Croatas e Eslovenos, no sul do Império, foi assassinado, nas ruas de Sarajevo, por Gravilo Princip, membro do grupo Black Hand que pretendia a independência do Reino do Império. O Black Hand foi fundado na Sérvia e era financiado por esta. A Áustria-Hungria, quando se deu o assassinato, exigiu à Sérvia que punisse o grupo e, quando esta se recusou, declarou-lhe guerra. Os Russos, aliados da Sérvia declararam guerra à Áustria-Hungria. Por sua vez, o Império Alemão, aliado dos áustro-húngaros, declarou guerra à Rússia. Os aliados de ambos os países (a Inglaterra e a França, aliadas da Rússia; o Império Otomano, aliado da Áustria-Hungria e da Alemanha) entraram por sua vez em guerra, tornando o continente europeu um barril de pólvora em explosão, cujas consequências viriam a incluir o fim da hegemonia cultural, colonial e política no Mundo da Europa, a ascensão dos EUA como a grande Superpotência Mundial, a Segunda Guerra Mundial e, eventualmente, a Guerra Fria e o terrorismo mundial dos séculos XX-XXI. É incrível como os actos de um só homem podem ter tão directo e nefasto efeito sobre o Mundo inteiroAs últimas palavras do Arquiduque Franz Ferdinand, após ser atingido, foram «Sopherl! Sopherl! Sterbe nicht! Bleibe am Leben für unsere Kinder!» «Querida Sofia! Querida Sofia! Não morras! Continua a viver pelas crianças!»

 uboat     Em 1915, Georg Trapp foi comandante do submarino U-5 e do submarino U-14 (submarino francês capturado de nome Curie). Georg distinguiu-se no comando, afundando várias embarcações inimigas na sua carreira militar. Pelos seus serviços, foi-lhe dado um título nobiliárquico, tornando-se Georg Ritter von Trapp. Ritter era o título germânico equivalente a «Cavaleiro» (ou seja, o «sir» inglês) e quem se tornava Ritter passava a ostentar, no seu nome, a partícula «von» e passava a ser barão, título hereditário (passado, por isso mesmo, para os seus descendentes masculinos). Se fosse português, nascido Jorge Trapo, ter-se-ia tornado Jorge, Cavaleiro de Trapo. Mas, em 1918, a I.ª Guerra Mundial terminou, com a derrota das Potências Centrais (Alemanha, Áustria-Hungria e Império Otomano).

Após a retirada dos Russos da Guerra (em consequência das inúmeras perdas de soldados e da consequente revolução comunista de 1916), as Potências Centrais pareceram ver o maré da Guerra virar a seu favor: depois de 4 anos de uma esgotante Guerra de Trincheiras na Frente Ocidental (em que milhares, milhões de soldados perdiam a vida para conquistar parcos quilómetros de terreno, que era pouco depois novamente perdido), as Potências Centrais podiam concentrar (em particular a Alemanha, a mais forte das três) as suas tropas na Frente Ocidental, ao longo da França, e eventualmente ganhar a Guerra. lusitaniaMas o afundamento do navio de passageiros dos EUA Lusitania, em 1915, por parte de um submarino alemão (estes acusavam, parece que correctamente, o navio de secretamente transportar armas para a Inglaterra), levou os EUA entrarem na Guerra, em 1917. A sua entrada deu novo fôlego aos esforços aliados e as Potências Centrais foram derrotadas, um ano depois. A Alemanha foi forçada a assinar o Tratado de Paz de Versailhes, onde eram forçada a assumir a culpa da Guerra (incorrectamente mas a pressão inglesa neste ponto foi muito grande) e a pagar indemnizações de guerra. Quando se deu a Grande Depressão, em 1929, a Alemanha foi particularmente atingida, obrigada a socorrer a sua população e a pagar as indemnizações que a França e a Inglaterra exigiram de imediato. O ressentimento alemão foi tal que levou à ascensão política de um desconhecido Cabo do exército alemão na I.ª Guerra Mundial, Adolf Hitler, vindo a dar cvtraigmporigem à II.ª Guerra Mundial. O Império Áustro-Húngaro foi desfeito, a Áustria foi reduzida ao seu núcleo actual, a Hungria tornou-se independente, o Império Otomano foi desfeito, reduzido ao seu núcleo turco (a moderna Turquia), os Ingleses e os Franceses ocuparam os territórios muçulmanos do Médio-Oriente ricos em petróleo, dando-lhes a soberania que tinham prometido apenas após a II.ª Guerra Mundial (o famoso Lawrence da Arábia foi um capitão inglês que ajudou os árabes a revoltarem-se contra o Império Otomano com a promessa não concretizada de independência quando a guerra terminasse).

   Georg e Agatha tiveram 7 filhos: Rupert (1911-–1992), Agathe (1913), Maria (1914), Werner (1915), Hedwig (1917–-1972), Johanna (1919–-1994) e Martina (1921–-1952). Como a Áustria perdeu a sua costa marítima em consequência da Guerra, não tinha necessidade de uma Marinha (de Guerra), pelo que Georg Trapp viu-se «Marinheiro em Terra», sem emprego e sem meios de subsistência. Felizmente a família tinha bastante dinheiro, fruto da herança de Agatha. Então, em 1922, 4 anos após o final da Guerra, Agatha morreu de Febre Escarlatina, deixando os seus 7 filhos órfãos e o seu marido viúvo. A família von Trapp mudou-se então, de Pula (na actual Croácia, nas costas do Mediterrâneo, a 150 quilómetros salzbrgda cidade natal de Georg, Zadar) para Salzburgo. Enquanto tudo isto decorria com a família von Trapp, uma jovem professora, de nome Maria Augusta Kutschera (nascida em 1905), órfã, criada por um tio ateu e socialista, ouviu, acidentalmente, um sermão de um padre de Viena (entrou na igreja pensando que estava a decorrer um concerto de Bach) e as palavras do pregador inspiraram-na. Ingressou então na Abadia de Nonnberg, em Salzburgo, como professora e com a intenção de se tornar freira. Um ano antes de professar os seus votos de freira, foi-lhe pedido, na qualidade de professora, que desse explicações a Maria Agatha von Trapp, a filha doente de um viúvo da região com 7 filhos, Georg Ritter von Trapp.

   O contrato era de 10 meses, após os quais Maria voltaria ao convento, para se tornar freira. Mas Maria, como mais tarde revelou na sua autobiografia, apaixonou-se por todos os 7 filhos do viúvo e, quando este lhe pediu em casamento nesse mesmo ano, pedindo-lhe para ser a Segunda Mãe dos seus filhos, aceitou, apesar de não estar apaixonada por ele (como revela, se ele não tivesse posto a proposta nesses termos, se só a tivesse pedido em casamento, teria recusado). Em 1927, casaram, vindo a ter três filhos: Rosmarie (1928), Eleonore (1931) e Johannes (1939). Os 10 jovens von Trapp apreciavam cantar e Maria muitas vezes juntava-se a eles. O pai não participava (o talento musical dos filhos não foi herdado dele) mas não se opunha a que os filhos cantassem. Então, 7 anos depois de casaram, em 1935, Georg perdeu a fortuna da família, em consequência da Grande Depressão (e das tensões políticas e militares provocadas pela ascensão política nazi e a sua política beligerante que conduziria, 4 anos depois, à II.ª Guerra Mundial). Mas Georg recusava-se a trabalhar, considerando-o pouco digno. Maria assumiu então as rédeas da família, despedindo os empregados e fechando o andar superior para diminuir as despesas (e, desta forma, a família podia tratar ela mesma da enorme casa).

   A Família von Trapp ganhou, de facto, em 1936, o Festival de Música de Salzburgo mas não fugiu do país logo de seguida, como apresentado no filme: continuaram a cantar como profissão, pela Europa toda. Somente 3 anos após a vitória, no festival, é que se deu a Anshluss (a unificação da Alemanha e da Áustria num único país). Nessa altura, os Nazis ofereceram, a Georg, um comando naval e convidaram os von Trapp a cantarem no aniversário de Hitler (data que nem merece divulgação). Tudo foi recusado e, como os 7 primeiros filhos de Georg tinham nascido em Pula e esta fazia agora parte da Itália (como consequência da redistribuição territorial após a I.ª Guerra Mundial), os von Trapp simplesmente foram para Itália (não fugiram, não se esconderam. Apanharam um comboio para Itália e todos estavam cientes da partida da família: ninguém os procurou impedir). Daí partiram para a Inglaterra e depois para os EUA (supostamente fazer um único concerto mas onde ficaram a residir. O filho mais pequeno, Johannes, nasceu já nos EUA, em 1939.

vontrapp_m Assim, em 1944, com uma quinta comprada nos EUA, os von Trapp pediram a cidadania americana. Apenas Maria (39 anos) e Agathe (31 anos), Maria (30 anos), Hedwig (27 anos), Johanna (25 anos) e Martina (23 anos) pediram a cidadania: Georg nunca o fez, Rupert e Werner tornaram-se cidadãos ao lutar no exército do EUA durante a II.ª Guerra Mundial, Rosmarie e Eleanore tornaram-se automaticamente cidadãs quando a sua mãe (Maria) se naturalizou e Johannes nasceu já nos EUA. Georg morreu em 1947 (com 67 anos) e foi enterrado na quinta da família, nos EUA. Um ano depois, em 1948, quatro anos depois do pedido, os von Trapp foram naturalizados como cidadãos dos EUA. Apesar do sucesso, a família parou de cantar em 1955 (30 anos depois de começarem), uma vez que cada von Trapp queria atingir objectivos diferentes na vida.
cvtrdietrppamk   Em 1949, Maria escreveu The Story of the Trapp Family Singers. Baseados no livro, cineastas alemães fizeram dois filmes baseados na família von Trapp (Die Trapp-Familie, em 1956, e Die Trapp-Familie in Amerika, em 1958). Eventualmente os direitos dos filmes foram comprados aos cineastas alemães por cineastas americanos (antes disso foi ainda feito um Musical na Broadway intitulado «The Sound of Music» baseado nos von Trapp). Mas, quando Maria vendeu os direitos da história aos cineastas alemães, a família perdeu qualquer direito à história e aos subsequentes imensos lucros que o filme alcançou a nível mundial.

   As diferenças entre a verdadeira história dos von Trapp e a constante do filme incluem: a adulteração da personalidade de Georg Trapp: este não era um tirano que desaprovava as actividades musicais da família. Tinha uma personalidade gentil e apreciava juntar-se à família nesses momentos; Maria não foi contratada para cuidar das 7 crianças, apenas dar explicações privadas a Maria Agatha, que estava doente; Maria e Georg casaram em 1927, 11 anos antes dos nazis chegarem à Áustria via Anshluss e 11 anos antes da família ganhar o Festival de Música de Salzburgo, não depois; os nomes e idades (e mesmo os sexos) das crianças von Trapp foram alteradas. Liesl era na verdade Rupert (rapaz), Friedrich era na verdade Agathe (rapariga), Louisa era Maria, Kurt era Werner, Brigitta era Hedwig, Marta era Joana e Gretl era Martina. As dois filhos que Maria e Georg tiveram antes de fugiram da Áustria, Rosmarie e Eleanore, não são mencionadas no filme; as crianças von Trapp já cantavam antes de Maria chegar à família; a personalidade de Maria era mais explosiva do que o retratado no filme: apesar de amar as crianças (e eventualmente o marido), por vezes tinha episódios repentinos de cólera e agressividade;

cvtrdietrpp   Por isso, qualquer semelhança entre a realidade e a ficção não é pura coincidência, mas é preciso estar-se atento às diferenças e respeitar as verdadeiras pessoas por detrás da ficção. Um caso em que não é uma história só história, é uma história da História. A verdadeira Maria aparece brevemente no filme, ao fundo numa cena do convento…

 

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