28. Silêncio mortal

   O que é o monóxido de carbono, como atua e mata libertando-se de esquentadores e tubos de escape.

mocesq   Há, por vezes, infelizmente notícias de vítimas dos esquentadores a gás. Quando ocorrem fala-se no gás que as vítimas inalaram e que as asfixiou. Mas o gás a que os bombeiros se referem não é o gás que alimenta os esquentadores. Ao gás doméstico é acrescentado um cheiro característico e difícil de ignorar, quer ao metano (CH4) do gás natural quer ao butano (C4H10) das botijas. O gás usado em casa, quer nos esquentadores quer nos fogões não tem cheiro no seu estado puro, mas no processo de extracção e engarrafamento são misturados com compostos sulfurosos de cheiro intenso. O metano não é de forma alguma tóxico e não se morre por se o respirar. É um poderoso agente de efeito de estufa, 23 vezes mais poderoso do que o dióxido de carbono (CO2). Já o butano comercial é tóxico quando respirado (os sintomas incluem sonolência, batimentos irregulares do coração e asfixia).

   mocbtjmetano não é tóxico e o butano tem um cheiro característico que se sente facilmente a sua presença e escapa para um local mais ventilado, que gás é esse que provoca estas mortes? O gás em causa é o monóxido de carbono (CO) e este não é um gás que se liberte das botijas ou dos canos de gás natural. O monóxido de carbono é um gás que se forma quando há combustões de qualquer tipo em que o fornecimento de oxigénio é reduzido. Os animais inspiram oxigénio e expiram dióxido de carbono. O dióxido de carbono é constituído por um átomo de oxigénio e dois de carbono. O carbono tem geralmente 4 átomos de valência e o oxigénio tem geralmente 6 átomos de valência (e como a forma estável de qualquer átomo é ter 8 átomos de valência) numa combustão normal os 4 electrões do carbono são divididos, dois para um átomo de oxigénio (ficando este com oito) e os outros dois para o outro átomo de oxigénio (assim o carbono recebe dois electrões de um oxigénio e outros dois do outro oxigénio). Forma-se assim o dióxido de carbono (CO2) em condições normais. Em combustões com pouco oxigénio presente (ou muito carbono presente), um átomo de carbono liga-se a apenas um átomo de oxigénio, formando assim o monóxido de carbono. A ausência de um simples átomo torna uma molécula que o próprio corpo produz numa substância tão tóxica.

mocsng   Para compreender a razão, o sangue transporta oxigénio e dióxido de carbono para e das células. O sangue é composto de vários tipos de células, genericamente englobadas em 3 categorias:
glóbulos brancos (que incluem os monócitos, neutrófilos, eosinófilos, basófilos, linfócitos, monócitos, entre outros) conhecidos também como leucócitos (do grego «λευκό» – branco), encarregues de proteger o corpo de agentes perigosos; Há cerca de 7 biliões, 7×1012 (entre 4 biliões e 11 biliões) de glóbulos brancos por litro de sangue;
plaquetas sanguíneas ou trombócitos (por produzirem a proteína trombina), responsáveis pela coagulação do sangue; Há cerca de 300 biliões, 3×1014 (entre 150 biliões e 400 biliões) de plaquetas sanguínea por litro de sangue;
glóbulos vermelhos ou eritrócitos (do grego «ερυθρός» – vermelho) responsáveis pelo transporte do oxigénio dos pulmões para as células e do dióxido de carbono produzido pelas células para os pulmões; Há cerca de 5 mil biliões, 5×1015, de glóbulos vermelhos por litro de sangue. Como referido no artigo Termos ordinais, os biliões aqui usados são os biliões europeus (1012) e não os biliões estado-unidenses (109). 5 000 000 000 000 é 5 biliões na Europa mas 5 triliões nos EUA. 

  mocert E são os eritrócitos a razão pela qual o monóxido de carbono é venenoso. Cada glóbulo vermelho é principalmente constituído por hemoglobina, uma substância que contém átomos de ferro (no total de todos os eritrócitos do corpo humano, há aproximadamente 4 gramas de ferro dos 5 gramas que tem todo o corpo). São esses átomos que conseguem capturar os átomos de oxigénio, libertá-los depois nas células e em seguida capturar o dióxido de carbono e libertá-lo nos pulmões. As ligações que prendem quer o oxigénio quer o dióxido de carbono aos átomos de ferro são fracas, permitindo a sua fácil libertação. Mas o monóxido de carbono interage de forma diferente com a hemoglobina do sangue: liga-se de forma permanente (220 vezes superior à ligação do oxigénio). Quando os glóbulos vermelhos entram em contacto com monóxido de carbono nos pulmões, não conseguem libertá-lo. Enquanto esses glóbulos vermelhos existirem, não têm mais a capacidade de transportar oxigénio às células e cada glóbulo vermelho vive aproximadamente 120 dias (cerca de 4 meses).

   As principais fontes de monóxido de carbono na vida diária das pessoas são os veículos automóveis de combustão interna (gasolina, gasóleo, diesel,...); os esquentadores das casas (quando há uma insuficiente ventilação interna do aparelho) e também do fumo do cigarros (ver A vida num sopro). Uma única molécula de monóxido de carbono não é perigosa (apenas incapacita motabum glóbulo vermelho); 100 moléculas de monóxido de carbono não são perigosas (apenas incapacitam 100 glóbulos vermelhos). Mas cada eritrócito incapacitado é menos um transportador do oxigénio vital para as células e a quantidade de eritrócitos que podem estar bloqueados na corrente sanguínea sem risco de saúde é bastante pequena. Na tabela são apresentados os efeitos de uma pequena percentagem de monóxido de carbono por tempo de exposição continuada a este gás invisível e que não tem cheiro.

   Além disso estudos recentes apontam para que a exposição ao monóxido de carbono reduza a esperança média de vida, por destruir o músculo cardíaco (más notícias para quem é fumador, mas também para os mecânicos…) Um adulto inspira, em média e em respcada respiração, meio litro de ar (500 cm3), apesar dos pulmões conseguirem conter perto de 5 litros (500 cm3) de ar. Bastam 1,28%×0,5 = 0,0128×0,5 = 0,0064 litros (6,4 cm3) de monóxido de carbono para nos matar em menos de 3 minutos! O monóxido de carbono tem outras características que, a par com a sua extrema toxicidade, o tornam um terrível assassino doméstico. A razão porque as pessoas morrem nas suas casas devido ao monóxido de carbono, ou dentro de veículos com as janelas fechadas, não é porque estejam desatentas e não sintam o cheiro a gás. É porque o monóxido de carbono não tem cheiro e não tem cor! Não se vê, nem se sente. A única coisa que se pode fazer é, quando se sente alguma tontura ou dor de cabeça, num carro a trabalhar parado dentro de um espaço fechado ou dentro de casa (onde, como bem lembrado por «Maria Papoila», há também «as lareiras e os fogões a lenha em cozinhas fechadas») imediatamente abrir uma janela ou a porta da rua e em seguida verificar se alguma fonte de combustão em casa que possa estar a originar a libertação de monóxido de carbono. Essa simples cautela pode salvar a vida a quem morre vítima deste assassino silencioso. Segundo a Direcção-Geral de Geologia e Energia, «em Portugal, entre 1995 e 2003, ocorreram 268 mortes por efeito tóxico do monóxido de carbono, o que corresponde a quase 30 mortes por ano.

cigarro   A origem da palavra assassino não é consensual. Há quem defenda que surgiu primeiramente associado a um grupo muçulmano que, na altura das cruzadas, jurou expulsar os invasores cristãos. Para adquirirem uma coragem cega e uma violência suicida, consumiam grandes quantidades de haxixe. Eram por isso conhecidos como os «hashashin», os consumidores de haxixe. Mas, segundo o escritor libanês Amin Maalouf, no seu livro Samarcanda, assassiyun são fiéis ao Assass («fundamento» da fé) e Marco Polo terá popularizado a ideia de que haschichiyun «fumadores de haxixe» atuavam sob o efeito do haxixe.

3 pensamentos em “28. Silêncio mortal

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