29. Influência astral

  As diferenças entre constipações e gripes, o que são, como tratá-las.

   espirroNuma sala, alguém espirra. Comentários à sua volta: – Coitada, constipou-se. Apanhou alguma rajada de vento mais frio. – Pois, andam por aí estas gripes. Se calhar não apanhou a vacina. – Isto agora só lá vai com descanso e antibióticos!

   Gripes e constipações são doenças bem diferentes nas suas causas, pericolosidade e efeitos. A gripe é mais perigosa, demora mais a passar e pode levar a doenças mais graves, como a pneumonia. É, além disso, a doença que mais mortos provocou na espécie humana (só num ano, entre 1918 e 1919 matou tantas pessoas no mundo inteiro como toda a peste negra). Uma  ideia incorreta que se tem sobre as gripesconstipações é que podem ser prevenidas comendo citrinos, por causa do seu teor em vitamina C. Mas nenhum estudo científico mostrou alguma relação entre tomar essa vitamina e a amraprevenção de doenças. E os citrinos não são as maiores fontes dessa vitamina. A quantidade de  vitamina C por 100 gramas de fruto é na acerola (0,72 g), na amora (0,2 g), nos pimentos-não-picantes (0,19 g), na salsa (0,13g), no kiwi (0,09 g), nos bróculos (0,09 g), nas couves-de-bruxelas (0,08 g), nos dióspiros (0,06 g), na papaia (0,06 g), nos morangos (0,06 g), na laranja (0,05 g), no limão(0,04 g) e em outros frutos, em quantidades cada vez menores. A amora tem 4 vezes mais vitamina C do que uma laranja. Até os morangos têm mais do que a laranja. A maior fonte natural de vitamina C que se conhece é o fruto de uma planta australiana, de nome Terminalia ferdinandiana, que tem 3,15 g de vitamina C por cada 100 gramas de fruto.

cgpf   Outra erradas mas mais difundida ideia sobre quer as gripes quer as constipações é a que as liga ao frio e a ter os pés ou a roupa molhada. Repete-se, sem fundamento algum e só porque se ouviu dizer, «Não apanhes frio, olha que te constipas!» ou «Vai já tirar essa roupa molhada e tomar um banho quente antes que te constipes!» Mas o frio não causa nem gripes nem constipações. Em climas frios, a taxa de incidência das duas doenças é igual ou inferior às dos países de temperatura moderada ou quente. Esta errónea John Wesleyideia surgiu no século XVIII, quando John Wesley (1703-1791), clérigo anglicano, publicou um livro em que afirmava que os arrepios de frio provocavam a constipação e, por isso, não se devia tomar banhos de água fria. Também William Buchan (1729-1805), médico, afirmava que a causa da constipação eram pés e roupas molhadas. É uma ideia com perto de 300 anos, desactualizada e várias vezes demonstrada ser errada, e no entanto, continua a ser repetida! Foram levadas a cabo, de forma séria e rigorosa, já no século XX, experiências para determinar se o frio aumentava a susceptibilidade às constipações e gripes. Nenhuma das já feitas mostrou qualquer relação entre o frio e a constipação ou a gripe. A maior incidência de gripes e constipações no Inverno não se deve ao frio que se faz sentir coldmas ao facto de as pessoas estarem mais tempo juntas em locais aquecidos e mais próximas umas das outras. O que acaba por difundir a constipação e a gripe não é o frio, é o que fazemos para fugir dele. Claro que, como ambas as doenças afectam as mucosas nasais, apanhar ar frio depois de se ter a doença realça o mal-estar. Mas isto, de forma alguma, quer dizer que o frio as causa. A gripe e a constipação são doenças provocadas por vírus e não pelo frio e que não têm cura conhecida. Pode-se aliviar os sintomas mas não se pode curar. A razão porque todos os anos é necessário apanhar uma nova vacina da gripe relaciona-se com a sua taxa de mutação. Ninguém sabe exactamente que mutação se dará a seguir, mas os médicos fazem uma ideia aproximada de algumas das características da mutação e incluem-na na vacina.

   A constipação é mais ligeira, menos perigosa e demora menos a passar mas também pode levar ao aparecimento de uma pneumonia. Partilham alguns (mas não todos os) sintomas. Os sintomas da gripe são tosse, dor de cabeça, fadiga física, garganta inflamada, febre e dores musculares. Os sintomas da constipação são tosse, dor de cabeça, fadiga física, garganta inflamada, espirros e nariz congestionado. Alguns dos sintomas são comuns (mais graves na gripe), mas há outros sintomas específicos de cada uma delas. Se alguém espirra, tem uma constipação, se tem febre alta é uma gripe. A constipação pode ser acompanhada de febre baixa de 38º, enquanto a da gripe é superior de 40º. Veja-se o artigo Termos ordinais para a diferença entre 40º e 40.º

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Vírus influenza

   A gripe é causada por um de três vírus (tipo A, tipo B e tipo C) da família Ortomixoviridae (influenza), que ataca aves e mamíferos. A constipação pode ser provocada por uma miríade de diferentes vírus (mais de uma centena foram já identificados), desde vírus da família Picornaviridae (rinovírus, ecovírus, coxsackievírus), da família Coronaviridae (coronavírus) e da família Paramixoviridae (paramixovírus). Outra diferença entre as duas doenças é as formas de propagação. Embora ambas se propaguem pelo ar, têm vários mecanismos de propagação diferentes. Os vírus influenza (causadores da gripe) também se transmitem pela saliva (um beijo mais intenso, por exemplo), secreções nasais, fezes (a falta de higiene pessoal, água contaminada por fezes,…) e sangue. Os diferentes vírus que provocam a constipação transmitem-se pela secreções nasais, através dos espirros e da tosse, ou directamente ou através de apertos de mão ou puxadores de porta (sendo depois a mão levada ao nariz).

dut   Os vírus da constipação podem durar várias horas no exterior, enquanto «aguardam» alguém para infectar. Após alguém constipado espirrar, o ar fica contaminado de vírus por horas e estes caem a um ritmo muito vagaroso, pelo que são contagiosos mesmo após horas depois de uma pessoa constipada passar. Entram no organismo principalmente através do nariz e da garganta e pelos olhos por vezes também, através do líquido lacrimal que é «despejado» através do duto nasolacrimal (canal que liga olhos e nariz e através do qual o excedente lacrimal é expelido. É por esta razão que o nariz se enche de líquido quando se chora). A boca não é um ponto especialmente vulnerável à entrada dos vírus da constipação, pelo que contactos orais (como num beijo) não transmitem a doença. Um aspecto comum às duas doenças é que os vírus que as provocam estão em constante mutação, permanecendo virais mas suficientemente diferentes para que uma vacina permanente para qualquer uma delas seja muito difícil (se não impossível) de encontrar. Uma pessoa que fique doente e depois se cure fica imunizado contra a variante do vírus que a atacou, mas não contra todas. Devido à rápida propagação dos vírus, novas variantes surgem constantemente, pelo que uma pessoa imunizada contra uma das variantes possa facilmente adoecer com outra.

antb   Um outro aspecto fundamental nas duas doenças é que são provocados por vírus. Os antibióticos funcionam unicamente contra bactérias, que são organismos vivos, com uma parede celular e informação genética necessária para a reprodução do indivíduo. Uma descrição simplificada do mecanismo de atuação do antibióticos é que estes rebentam essa parede celular das bactérias (mas não as do corpo humano), levando à destruição bacteriana. Mas os vírus não são seres vivos: não possuem paredes celulares (há alguns que têm um invólucro exterior mas não uma verdadeira membrana celular) e não são capazes de se reproduzirem com outro membro da sua «espécie», não têm o equipamento genético para isso (e essa é uma condição indispensável há classificação de algo como «ser vivo», a capacidade de auto-reprodução). Em vez disso, usam e abusam das células de seres vivos para que estas produzam novos vírus. São meros motores de injeção de material genético.

cghp   É por esta razão que tomar antibióicos não cura gripes ou constipações, estes não os afectem em nada, é como mandar uma horda de mosquitos para parar uma manada de elefantes. Os «remédios caseiros» e as «explicações populares» abundam nas duas, devido à sua longa convivência com os seres humanos. A constipação era já conhecida no Antigo Egipto, havendo hieróglifos (do grego «hieros» -sagrado e «glifo» -escrita) que representam pessoas com os seus sintomas. Também Hipócrates (o do célebre juramento que os médicos fazem) descreveu a doença no século 5 AC. Igualmente os Maias (e os Aztecas, seus descendentes culturais) conheciam a doença e também tinham os seus «remédios populares» (que incluíam folhas de tabaco, pimentos picantes e mel). Hipócrates descreveu também a gripe, no mesmo século (400 AC). Por todo o mundo, ao longo da História, se têm registado surtos mais ou menos pandémicos de gripe. O surto mais grave de gripe deu-se entre os anos 1918 e 1919, a chamada «Gripe Espanhola» (apesar da doença não ter começado em Espanha nem lá ter sido a população mais atingida. O facto de a Espanha não ter entrado na I.ª Guerra Mundial, ao contrário de Portugal, levou a que não houvesse censura militar aos jornais da época, pelo que relatos da doença eram livremente imprimidos. Como apenas os jornais espanhóis falavam abundantemente da doença, acabou por se pensar erradamente que era ali que tinha surgido e onde era mais virulenta). A guerra tinha acabado e milhares de soldados regressaram a casa, levando consigo a doença. Esta espalhou-se como fogo por um mundo devastado pela Guerra e entre 40 milhões e 50 milhões de pessoas morreram, até mesmo no Ártico e em remotas ilhas do Pacífico.

cggl   A gripe tem 3 tipos diferente de vírus (e dentro desses tipos novas variantes vão surgindo): tipo A é o responsável pela gripe aviária. Este tipo surge nas aves mas geralmente infecta depois mamíferos (como o Homem). A gripe do início do século XX foi a variante H1N1 (que actualmente só existe em reservas genéticas em laboratórios militares) e a do início do século XXI é a variante H5N1. Estas variantes recebem o seu nome científico devido às moléculas que contêm. É o tipo mais perigoso, com a maior velocidade de mutação dos três tipos. O tipo B, que afecta unicamente seres humanos (e focas!), que é pouco patogénico e não provoca pandemias como o tipo A. Os influenza B têm mutações mais lentas do que os do tipo A (cerca de metade ou um terço da velocidade de mutação do tipo A). O tipo B não recebe a denominação H*N* que tem o tipo A. O tipo C, que afecta seres humanos e porcos e é o tipo mais lento a sofrer mutações. No entanto, é mais perigoso do que o tipo B e pode provocar pandemias regionais. Também este tipo não tem as designações H*N*.

eritoOs vírus que provocam a constipação são vários e também em constante mutação. Não são, em geral, mortais. Estes vírus atacam as células da mucosa do nariz e da faringe, ligando-se aos receptores ICAM-1 (moléculas de adesão intercelular) das células ali presentes. As moléculas ICAM são as responsáveis pela adesão entre diversas células, em especial entre os glóbulos brancos. Os receptores destas moléculas encontram-se nas paredes celulares dos eritrócitos e é pela porta da «polícia» que estes bandidos se infiltram e roubam a «esquadra»! Para mais sobre os glóbulos brancos e vermelhos do sangue ver Silêncio mortal). Os vírus da constipação (e os da gripe) não têm cura conhecida, nenhuma mezinha da avó resolve o problema, nenhum leite aquecido com mel ao deitar cura… É o corpo, e apenas o corpo, o responsável pela cura. Mesmo tratamentos ditos «modernos», como os suplementos de vitamina C, ainda não se provaram como eficazes no combate à doença. É só mais um «remédio popular» que é como andar a pôr alho para afugentar vampiros: o bem que faz é psicológico… Já se mostrou matematicamente, em Vampiros impossíveis, que não há vampiros.

   O nome do vírus influenza surgiu na Itália do século XV, quando se acreditava que a gripe era provocada por «influências astrológicas desfavoráveis» e, mais tarde, no século XVIII, quando se pensava que era por «influência do frio». O termo «influenza» sobreviveu, como o termo «desastre», que significa «mau astro», má influência astrológica…

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