30. Compatibilidades

O que são os diversos tipos de sangue, formados pelo grupos A, B e Zero, as suas compatibilidades, a sua história.

sanggbv   Há vários tipos de sangue diferentes, os «tipos sanguíneos». Há A, B, AB e 0 (é um zero e não a letra «o», já que indica ausência) e cada um deles pode ser positivo ou negativo. Os grupos sanguíneos são determinados pela presença ou ausência, na parede exterior dos glóbulos vermelhos, de certas moléculas conhecidas como antigenes. Os antigenes (que são geralmente ou proteínas ou polissacarídeos) são substâncias que induzem uma resposta imunitária por parte dos glóbulos brancos (de que se falou brevemente no artigo Silêncio mortal) do corpo quando estes não os conhecem. Os antigenes podem ser produzidos pelo metabolismo natural do corpo (e esses antigenes não induzem normalmente respostas imunitárias) ou provirem de fontes externas (podendo despoletar ataques do sistema imunitário caso esses antigenes sejam desconhecidos para o sistema imunitário). Estes grupos sanguíneos, A, B, AB e 0, foram descobertos em 1901. Estes quatro grupos sanguíneos são determinados por apenas 2 antigenes (A e B). Caso os glóbulos vermelhos tenham apenas antigenes A, o grupo sanguíneo é A; se tiverem apenas antigenes B, o grupo sanguíneo é B; se tiverem antigenes A e B, o grupo sanguíneo é AB; se não tiverem antigenes A nem B, o grupo sanguíneo é 0.

sangrh   Além destes 2 antigenes, há ainda o chamado Factor Rhesus, que deve o seu nome à designação comum dada a uma espécie de macacos, os macacos Rhesus (Macaca mulatta). Os Macacos Rhesus são amplamente usados em pesquisas médicas e foi neles que primeiro se determinou a existência do antigene Rhesus, descoberto depois também nos seres humanos, em 1937. Quando o antigene Rhesus está presente nos glóbulos vermelhos, o sangue é Rh+. Quando está ausente, é Rh-. Assim quem, nos glóbulos vermelhos, tem os antigenes A e Rh é A+. Quem não tem o antigene A nem B nem Rh é 0-. Quem tem o antigene B mas não o Rh é B-.

rhd   Na verdade, o grupo Rh tem vários antigenes diferentes, sendo os mais importantes os antigenes C, c, D, E, e. D é o antigene mais importante e, quando se diz que se é Rh+ ou Rh-, isto indica exclusivamente a presença ou ausência do antigene D. Apesar de ser mais prático utilizar os sinais «+» e «-» após o grupo sanguíneo, em termos de laboratório é utilizada a nomenclatura RhD positivo e RhD negativo, por ser mais seguro: não há o risco de um traço mal feito ou apagado gerar confusões.

transf  A determinação do tipo sanguíneo de uma pessoa é crucial em transfusões sanguíneas e na gravidez de uma mulher. (Apesar de serem muitas vezes usadas como expressões sinónimas, Grupo sanguíneo e Tipo sanguíneo não são a mesma coisa: grupo sanguíneo refere-se ao sistema AB0 mas o tipo sanguíneo inclui o sistema AB0 e o factor Rh. AB é o meu grupo sanguíneo e AB- é o meu tipo sanguíneo, por exemplo). O sistema imunitário ataca os glóbulos vermelhos que contenham antigenes que desconhece e as consequências, no caso de transfusões sanguíneas com tipos sanguíneos incompatíveis, incluem anemia hemolítica (destruição de glóbulos vermelhos), falha renal (os rins deixam de funcionar), choque (hipoperfusão, as células do corpo não recebem o oxigénio que necessitam) e morte.

    Se alguém é A+ e receber sangue do tipo AB-, o sistema imunitário reconhece o antigene A, não estranha a ausência do Rh mas ataca o antigene B. A pessoa entra em hipoperfusão e morre. Se uma pessoa for AB- e receber sangue A-, o sistema imunitário reconhece o antigene A, não estranha a ausência de B nem estranha a ausência de Rh. A transfusão é bem sucedida e a pessoa fica bem. Se uma pessoa é 0- e receber B+, o sistema imunitário ataca o antigene B e o Rh. A pessoa entra em choque e morre. Na verdade o tipo 0- só pode receber sangue do tipo 0-. Qualquer outro tipo é letal. Se uma pessoa é AB+ e receber 0+, o sistema imunitário não estranha a ausência do A, nem do B e reconhece o Rh. A transfusão é bem-sucedida.

tpsngrd   Como regra geral, o corpo estranha e ataca o que não tem e é indiferente à ausência do que tem. Pode-se assim, com base nesta simples regra, estabelecer os seguintes quadros para tipos compatíveis em transfusões sanguíneas. Analisando-se os quadros, percebe-se porque o tipo AB+ é receptor universal (como tem todos os antigenes presentes, não estranha nenhum tipo de sangue); o tipo 0- é o dador universal (não tem qualquer antigene que um sistema imunitário possa estranhar e atacar). A questão pode nem sempre ser assim tão simples (apesar de geralmente o ser) e, para efeitos práticos, isto é o mais importante. Nas colunas ao lado estão as percentagens de pessoas a quem os diferentes tipos sanguíneos podem dar ou receber sangue.

sangpais   Em termos de herança genética, o grupo sanguíneo (A, B, AB ou 0) tem regras muito simples e é determinado principalmente por um par de alelos. Dessa forma, é fácil determinar as possibilidades do grupo sanguíneo dos filhos, tendo em conta os grupos sanguíneos dos pais. O Fator Rhesus é determinado por vários pares de alelos, pelo que não é linear a sua determinação no sangue dos filhos. A regra básica é que A e B são dominantes e O é recessivo. Assim, por exemplo, se um dos pais é A e o outro é A os filhos podem ser A ou 0 (mas não B ou AB); se um dos pais é A e o outro é AB, os filhos podem ser A, B ou AB (mas não 0); se um dos pais é B e o outro é 0 os filhos podem ser B ou 0 (mas não A ou AB). A primeira tabela é facilmente transformada na segunda, que indica, tendo em conta o grupo sanguíneo da criança, os possíveis grupos sanguíneos dos pais (tanto faz que a primeira seja da mãe ou que a primeira seja do pai).

casam   Não há incompatibilidades entre os sangues dos pais. Todos os grupos sanguíneos dos pais são compatíveis em termos genéticos. Problemas de saúde como Síndrome de Down, paralesia cerebral, … não se devem a quaisquer incompatibilidades entre os sangues dos pais. Esses problemas surgem por excesso de compatibilidade genética entre os pais. Se um tiver nos genes a informação para uma doença (mesmo que não a revele) e o outro também, há, pelo menos, uma probabilidade de 25% de que os filhos a tenham e revelem. Há casamentos que terminaram devido ao nascimento de uma criança com síndrome de Down. Como a explicação incorrecta que lhes deram foi que se devia à incompatibilidade entre os seus sangues, acabaram por transpôr essa suposta incompatibilidade para a sua relação pessoal. Aqui está um caso de crendices que influenciam directamente o bem-estar emocional das pessoas…

sangpreg   A questão da incompatibilidade é também importante na gravidez, conforme o tipo de sangue da mãe grávida e do feto. Se a mãe for Rh- e o feto Rh+, o sistema imunitário pode criar defesas contra os antigenes Rh do feto do bebé, levando a um aborto espontâneo. Por vezes, essa incompatibilidade não surge com o primeiro filho Rh+ de uma mãe Rh- mas se um segundo filho tiver também Rh+, os anticorpos maternos acumulados na primeira gravidez podem atacar e matar o bebé. Felizmente, há tratamentos para ambas as situações, bastando fazer análises pré-natais e efetuando o tratamento adequado.

   Acresce-se ainda que a distribuição dos tipos sanguíneos no mundo não é uniforme. Dos habitantes do mundo: 38% são 0+, 34% A+, 9% B+, 7% 0-, 6% A-, 3% AB+, 2% B- e 1% AB-. Dos Portugueses, 39,9% são A+; 6% 0+ ; 7% B+ ; 6,6% A- ; 6,1% 0- ; 2,9% AB+ ; 1,1% B- ; 0,4% AB-. É claro que quando se refere «+» é Rh+ e quando é «-» é Rh-. A tabela seguinte mostra a probabilidade da combinação dos diversos tipos de sangue de um casal, tendo em conta as percentagens de distribuição dos diversos tipos de sangue no Mundo:

tpsngtb

   Assim, a probabilidade de haver um casal com tipos de sangue A+ e A+ é 11,56%; A- e AB+ é 0,18%; 0+ e AB- é 0,38%. A probabilidade de um casal ter o mesmo tipo de sangue é 11,56%+0,36%+0,81%+0,04%+0,09%+0,01%+14,44%+2,66% = 29,97%. Se os tipos de sangue fossem incompatíveis, quase 30% (aproximadamente 1 em cada 3 crianças) teriam problemas de saúde, o que é obviamente ridículo. Em Portugal, a probabilidade de um casal ter o mesmo tipo de sangue é 41,14%. No Brasil, a probabilidade de um casal ter o mesmo tipo de sangue é 39,8%. Nenhum destes países tem quase metade das crianças com problemas genéticos…

babygif   De acordo com a página Index Mundi, a taxa de natalidade no Brasil é de 14,72 por cada 1000 habitantes, a de Portugal 9,42/1000 e a mundial 18,7/1000. Da tabela verifica-se que, em 6,95% dos casais, ambos têm o mesmo tipo de sangue. Mas 6,95% de todos os bebés nascidos não têm problemas de saúde. Isso seriam perto de 9 milhões e meio no mundo (6 mil milhões, 706 milhões, 993 mil e 152 habitantes), perto de 212 mil bebés no Brasil (190 milhões, 132 mil e 630 habitantes) e perto de 8 mil e 500 bebés em Portugal (10 milhões, 617 mil e 575 habitantes) teriam problemas de saúde apenas devido a o tipo sanguíneo dos pais ser o mesmo. O tipo sanguíneo parental não tem a ver com a saúde dos bebés. No Mundo, morrem, por ano, cerca de 282 milhões de crianças, 4 milhões e meio no Brasil e 51 mil e 500 em Portugal. 3% dos bebés do Mundo morreriam só por causa de os pais terem o mesmo tipo de sangues? 5% dos bebés brasileiros? 15% dos bebés portugueses? Das principais causas de mortalidade no Mundo são, de acordo com a página 20 principais causas mundias de mortalidade, a SIDA (AIDS) que mata 4,9% da população mundial. Esse número é enorme e assustador. Se 3%, 5% ou 15% dos bebés tivessem problemas de saúde por o tipo sanguíneo dos pais ser igual, haveria campanhas tão intensas a nível mundial como as que são feitas para a prevenção de comportamentos de risco na infecção por HIV!

   Além do grupo sanguíneo do sistema ABO (o mais comum), e o Rh, há ainda outros, muito raros, 27 grupos (que receberam o nome da primeira pessoa na qual foram identificados):

  • Diego positivo é um tipo de sangue encontrado apenas em populações asiáticas e em nativos norte-americanos (como consequência da expansão dos seres humanos da África, para a Ásia e daí para a América);
  • o sistema MNS, com os tipos M, N e MN de antigenes.
  • Duffy negativo confere imunidade parcial à malária e é apenas encontrado em populações africanas (resultado de alguma mutação que conferiu ao indivíduo original proteção contra essa doença que ainda hoje mata milhares de pessoas no continente).
  • o sistema Luterano contém 21 antigenes diferentes.

   Outros sistemas são o Colton, Kell, Kidd, Lewis, Landsteiner-Wiener, P, Cartwright, XG, Scianna, Dombrock, Chido, Kx, Gerbich, Cromer, Knops, Indian, Ok, Raph e o JM. Mas qualquer um destes é tão raro que a maioria das pessoas não tem de se preocupar com eles, exceptuando se forem de um grupo étnico onde forem mais comuns.

hsap   Em termos evolutivos, pensa-se que inicialmente todos os seres humanos eram do grupo 0. À medida que os seus descendentes se iam expandindo pelo mundo, foram ocorrendo mutações. Por volta de 20 mil AC, ocorreu uma mutação e surgiu o grupo A nos seres humanos que habitavam a Europa Central e a Escandinávia (Suécia, Noruega e Finlândia). Em 10 mil AC, com uma nova mutação, surgiu o grupo B nos seres humanos que tinham chegado à Ásia. Com os Descobrimentos europeus, a partir de 1 500 DC, as populações Africanas, Europeias e Asiáticas começaram a cruzar-se e surgiu um novo grupo, o grupo AB. Provavelmente é esta a razão pela qual os grupos sanguíneos estão distribuídos numericamente como estão, sendo o tipo 0 (o mais antigo) o mais comum e o tipo AB (o mais recente) o menos frequente.

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