31. Toques espirituosos

  O que é o álcool, como atua no organismo, cuidados a ter.

etanol   Quem sai à noite, raramente, mesmo que saia sozinho (ou especialmente se o fizer), dispensa a companhia deste companheiro-por-excelência-em-eventos-sociais. Em casos de enamoramento mais grave, é companheiro para todas as ocasiões, mesmo que não sociais. Esse (falso) amigo de todas as ocasiões tem, como nome, etanol (C2H6O). É uma substância tóxica, líquida em condições TPN (temperatura e pressão normais), inflamável (entra em combustão facilmente), insípida (não tem sabor), incolor (não tem cor), mas não é inodora, porque tem um cheiro muito característico.

alcvn   O etanol é uma substância psico-activa (isto é, actua ao nível do Sistema Nervoso Central modificando funções cerebrais) com uma grande leque de efeitos no organismo, dependendo das circunstâncias e da quantidade do consumo. Os seus efeitos têm duas fases diferentes ao longo do tempo: inicialmente o consumo de álcool (palavra esdrúxula, pelo que obrigatoriamente tem de ter acento na sua sílaba tónica) provoca relaxamento mas um consumo continuado provoca os conhecidos problemas de descoordenação motora que facilmente se associa a quem se encontra intoxicado por etanol. As membranas celulares são muito permeáveis ao Etanol. Quando este se encontra na corrente sanguínea, propaga-se facilmente por todos os tecidos corporais. Consumo excessivo de álcool leva à perda de consciência e, em níveis muito elevados, ao envenenamento e à morte (que pode surgir após o consumo de 330 gramas de álcool, o que existe em, por exemplo, 20 «shots» de vodca) ou por asfixia no próprio vómito (como o famoso guitarrista Jimmy Hendrix em 1970). Quando alguém desmaia é aconselhável colocá-la na «posição de recuperação», para evitar asfixia).

alcpsCuidados a ter ao colocar alguém na «posição de recuperação»: não pôr alguém que está consciente e caiu de costas se não estiver a asfixiar, pois pode agravar potenciais lesões na coluna; alguém que tem uma lesão no peito deve ser virada para o lado da ferida. Desta forma, se um pulmão estiver afectado, o pulmão sem lesão não terá uma acumulação de sangue e poderá funcionar normalmente; quando um mulher grávida desmaia, deve ser colocada sobre o seu lado esquerdo. Assim evita-se a compressão da Veia Cava Inferior, que leva o sangue desoxigenado para os pulmões, pelo Útero, o que pode ser fatal para a mãe e para o feto. O efeito do álcool sobre mulheres grávidas é relevante pois o álcool liga-se à glicose para ser transportado na corrente sanguínea e por isso provoca, quando em excesso, hipoglicémia, principalmente nos jovens. O álcool atravessa a barreira hematoencefálica e a placenta e pode causar graves problemas ao feto e ao recém-nascido filho de mães que consomem álcool durante a gravidez. Nas mães alcoólicas, é muito frequente a hipoglicémia no recém-nascido e, por vezes, síndrome de privação alcoólica.

cerebro   O etanol, ao chegar ao cérebro, induz a produção de dopamina e de endorfinas. A dopamina é um neuro-transmissor (possibilita a transmissão dos impulsos nervosos no cérebro) com muitas e importantes funções no cérebro. Um das suas funções é a de provocar bem-estar no cérebro quando este aprende ou faz previsões correctas. É por causa da libertação da dopamina que o primeiro efeito do álcool é a falsa sensação de bem-estar. As endorfinas são as substâncias que o corpo produz para aliviar a dor e aliviar o desconforto. Mais uma razão para o efeito inicial do álcool. Ambos os efeitos podem conduzir à habituação e ao vício. Além disso, o etanol produz um efeito depressivo no Sistema Nervoso Central, por aumentar a actividade dos Canais KN, que transportam potássio com a ajuda de cálcio. O aumento da actividade dos canais BK levam a uma diminuição da velocidade das transmissões nervosas. Além disso, o etanol actua directamente sobre as sinapses (as «ligações» entre os neurónios), o que leva ao desequilíbrio das funções cerebrais.

alchm   Mas, ao contrário do que geralmente se pensa, o álcool não mata quaisquer neurónios. Os efeitos sobre a memória e sobre as capacidades cognitivas (que estão presentes quer nas ressacas quer nos bêbados crónicos) só existem enquanto o etanol está presente no organismo. Antes de o álcool poder destruir células nervosas (devido à sua concentração) já o limite fatal foi há muito ultrapassado e a pessoa já morreu: o limite fatal no organismo é cerca de 5 gramas de álcool por litro de sangue. No entanto, há provas de que o etanol é cancerígeno, como referido pela OMS (Organização Mundial de Saúde). O efeito cancerígeno é provocado pela acumulação de etanal no organismo, resultado da decomposição do etanol. Os cancros no Sistema Digestivo superior (esófago, boca, laringe, faringe) são mais comuns em bêbados crónicos. No fígado, a cirrose acompanha o consumo exagerado de álcool, na qual cicatrizes substituem o tecido normal hepático, impedindo a circulação do sangue no fígado. (ver, em Inglês, Global Status Report on Alcohol 2004)

hcc   A decomposição do etanol pelo fígado, explica também outra conhecida característica de quem bebe álcool, os soluços. O fígado é o maior órgão interno do organismo humano (o maior orgão do corpo humano é a pele) e possui enzimas que decompõem o etanol em etanal. Outras enzimas depois decompõem o etanal em gorduras, dióxido de carbono e água. Estas gorduras são armazenadas localmente, no fígado. Como o fígado se situa no limiar inferior das vértebras, o aumento do volume é sentido mais abaixo, na barriga. A água produzida leva à constante necessidade de deslocação à casa-de-banho de quem está a ingerir bebidas alcoólicas (nesta situação, a palavra é esdrúxula também, pelo que o acento tem de se deslocar da primeira sílaba em álcool para a antepenúltima sílaba em alcoólicas, porque nenhuma palavra portuguesa pode ter acentos tónicos fora das últimas três sílabas).

fig   Um dos efeitos do álcool é a chamada ressaca (ou «veisalgia», do Norueguês ‘kveis’, a tontura sentida depois de se cometerem excessos). As causas para a veisalgia ainda não são completamente conhecidas, estando a desidratação (carência de água no organismo), hipoglicémia (carência de açúcares no sangue) e défice de vitamina B12 (que pode, entre outros efeitos, causar anemia) na lista das possíveis causas (podendo, contudo, ser tanto causas como efeitos do consumo de etanol). A desidratação provocada pela ressaca provoca uma ligeira e temporária diminuição do volume cerebral, devido à perda de água. Não há qualquer remédio conhecido para a ressaca, uma vez que o fígado tem de processar o etanol existente na corrente sanguínea para que os efeitos passem. E não se conhece qualquer forma de acelerar a actividade do fígado. Há vários supostos remédios caseiros para a veisalgia, alguns simplesmente ineficazes, outros que na verdade agravam os efeitos da ressaca e outros até potencialmente perigosos.

cone   Os efeitos do álcool no organismo, que dependem sempre da massa corporal de quem bebe e também do seu grau de habituação ao álcool, são sensivelmente entre 0,3-1,2 gramas por litro o indivíduo torna-se progressivamente mais irresponsável, o tempo de reacção mais curto, incapacidade de se concentração, impulsividade imprudente, descoordenação motora; entre 0,9-2,5 g/L o indivíduo torna-se sonolento, dificuldade de entendimento e de memorização de acontecimentos e/ou factos, tempos de reacção extremamente lentos; descoordenação motora e desequilíbrios; visão desfocada, entorpecimento dos sentidos corporais; entre 1,8-3 g/L confusão mental, incapacidade de localização espacial, tonturas e gaguez, estados emocionais alterados e exagerados, sentidos corporais muito afectados, insensibilidade à dor, náusea e vómitos; entre 2,5-4 g/L movimentos descoordenados, momentos de inconsciência, possível coma, confusão quanto ao espaço onde estão e à passagem do tempo, sério risco de morte devido ao envenenamento por álcool ou por asfixia provocada pelo vómito; entre 3,5-5 g/L estado de inconsciência, reflexos inexistentes, respiração e batida do coração lenta, geralmente a morte; mais de 5 g/L falha do Sistema Nervoso Central e consequente morte.

al_maca   Há também, claro, os efeitos benéficos associados ao consumo moderado de etanol, onde estão incluídos a diminuição do risco de enfarte do miocárdio e o aumento dos níveis de colesterol lipo-proteico de alta densidade (HDL, o colesterol benéfico). Mas ninguém deve iniciar o consumo de álcool pelos seus benefícios. Uma alimentação saudável e exercício adequado produzirão o mesmo efeito, sem o risco de desenvolver um vício.
Uma das razões pelas quais médicos aconselham a bebida moderada de vinho tinto é a presença, neste, de anti-oxidantes. Mas os anti-oxidantes do vinho podem ser obtidos de outras fontes não-alcoólicas. A maioria dos legumes (de que se falou em Legume de Ouro), maçãs, bagas, melões, uvas, pêras, ameixas, morangos, bróculos, couves, cebolas, salsas, chocolates, chá verde e azeite são fontes alternativas dos mesmos anti-oxidantes que o vinho tinto. Por isso pode-se perfeitamente dispensar o consumo de vinho tinto por razões de saúde, pois muitos outros produtos têm tanto ou mais anti-oxidantes. Mas também é preciso não esquecer que um grama de etanol tem mais calorias (7 Cal) do que um grama de açúcar (4 Cal), como visto no artigo Calorias desmedidas.

toasting   Uma questão curiosa sobre as bebidas alcoólicas é a origem do ritual de tocar com os copos quando se faz um brinde (o vulgo «tchim-tchim»). Pensa-se que este costume terá surgido na Idade Média, quando se acreditava que as bebidas alcoólicas tinham «espíritos» no seu interior. Estes espíritos eram responsáveis pelos efeitos negativos da ingestão do álcool, como a ressaca e a bebedeira. É devido a essa ancestral crença que, ainda hoje, as bebidas alcoólicas são referidas como «bebidas espirituosas». Como igualmente se acreditava que sons vibratórios, como os sinos, afugentavam os espíritos, bater com os copos serviria para os afastar e eliminar os seus efeitos maléficos. Mas não há qualquer caso de alguém que deixou de ter uma ressaca por ter batido o seu copo noutro antes de beber…

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