32. A Comida dos Deuses

Onde surgiu o cacau, como se tornou o chocolate que agora se consome, onde é produzido.

   A Theobroma cacao é uma das árvores mais simpáticas do mundo pois não é excessivamente alta (entre 4 e 8 metros) com folhagem perene (no Inverno não perde as folhas e estas são sempre verdes); surgiu inicialmente na América do Sul mas é agora plantada em qualquer zona tropical do mundo (tornou-se mundialmente conhecida após a sua introdução, na América Central, pelos povos pré-colombianos e os Espanhóis a terem levado para a Europa sequiosa de novidades de outros Mundos); produz grandes frutos (em média 25 centímetros de comprimento e 10 centímetros de largura) laranjas quando maduros e com meio quilo de peso. No seu interior há sensivelmente 50 sementes, cada uma contendo uma elevada quantidade de gordura vegetal e contendo Teobromina (o mesmo nome que a árvore que a produz), uma metilxantina da mesma família que a Cafeína. A etimologia da palavra é grega, sendo composta por duas palavras: Theo «Deus» e Broma «Comida». A Teobromina, e mais especificamente o fruto que a produz, é a Comida dos deuses e assim era conhecida e apreciada pelos Maias e pelos Aztecas.

   Fala-se do Cacau e do produto por excelência feito dele, o Chocolate. São as propriedades químicas da Teobromina e da sua família química que conferem ao chocolate as suas muito apreciadas qualidades estimulantes e elevadoras do espírito (claro que, para quem consome muito chocolate este efeito não é sentido, da mesma forma que quem bebe muito café não sente os efeitos estimulantes da cafeína). Mas, apesar de pertencerem à mesma família e terem algumas propriedades comuns, a Teobromina e a Cafeína são diferentes no modo de actuação: a Teobromina é um estimulante suave com efeitos prolongados enquanto a Cafeína é um estimulante forte com efeitos breves.

   A Cafeína é uma trimetilxantina, enquanto a Teobromina é uma dimetilxantina. Isto significa que, em vez de ter 3 grupos metilos na sua composição química, só tem 2. O grupo metilo é um composto químico formado por um carbono e 3 hidrogénios que só existe ligado a uma molécula (só por si o CH₃ não é estável, apenas o CH₄, o metano). A diferença num grupo metilo explica algumas das diferenças entre as duas. No organismo a Cafeína (trimetilxantina) é inicialmente decomposta, pelo fígado, em 3 dimetilxantinas (sendo uma delas a teobromina). Um dos seus efeitos menos conhecido mas mais importante prende-se com a sua toxicidade para animais como os cavalos, cães, papagaios, roedores e gatos (em especial os gatinhos). Há quem, num gesto com boas intenções, dê, aos seus animais, chocolates. Fazem-no correndo o sério mas inconsciente risco de os matarem. Estes animais não conseguem metabolizar a Teobromina, pelo que esta permanece no seu organismo por quase um dia inteiro podendo provocar ataques cardíacos, hemorragia interna e morte. Por exemplo, para um cão com 20 quilogramas de peso, com 250 gramas de chocolate de leite têm distúrbios intestinais; com 500 gramas de chocolate de leite têm taquicardia (batimentos irregulares do coração); O chocolate negro tem 50% mais teobromina do que o chocolate de leite, pelo que é mais perigoso para os animais de estimação.  Mas também têm benefícios para a saúde humana: o chocolate contém anti-oxidantes que ajudam a prevenir o envelhecimento prematuro e o cancro e a contribuir para o bom funcionamento do coração. Já se falou no etanol no artigo Toques espirituosos das propriedades benéficas para o coração do vinho tinto, devido ao seu teor de flavonóides (os anti-oxidantes) mas o chocolate tem mais flavonóides do que o vinho tinto. Se conduzir não beba, coma um chocolate.

   As primeiras evidências históricas do consumo de chocolate vêm de antes de 500 AC na América Central. Os Maias, inventores do zero, astrónomos, construtores exímios com apenas ferramentas de pedra, descobriram o cacau na cordilheira dos Andes, na América do Sul, e levaram-no para a América Central. Os Aztecas não eram originários da América Central. A grande potência meso-americana eram os Maias, mas a sua civilização decresceu de importância e desapareceu antes do ano 1000 CE, antes da chegada dos Espanhóis em 1519. Os Aztecas assumiram algumas das tradições maias, sendo uma delas o consumo de uma bebida feita com sementes de cacau (sementes de cacau dissolvidos em água). Os Aztecas chamavam a essa bebida xocolatl, das palavras aztecas xocolli «amargo» e atl «água». O chocolate não era adoçado com açúcar (como se faz modernamente) e era dissolvido em água (daí o seu nome de «água amarga»). Esta bebida era muito apreciada pelas suas propriedades estimulantes (fornecidas pela teobromina) quer pelos Maias quer depois pelos Aztecas, que a tomavam ritualmente antes de uma guerra. Ao xocolatl eram, por vezes, adicionados pimentos picantes. O chocolate não só não era tomado doce como era tomado picanteFalou-se no sabor picante no artigo Boca a arder.

   Quando Colombo chegou à América levou, aos reis espanhóis, algumas sementes de cacau mas a bebida de que era feito não ficou conhecida na Europa imediatamente. Só mais tarde chegou ao «velho» continente, porque a bebida azteca era amarga e diferente dos gostos adocicados dos europeus. Só aos poucos começou a ser apreciada, da mesma forma que na América Central. Somente em 1585 foi enviado o primeiro carregamento de chocolate para a Europa. Os Europeus também a bebiam como «chá de café» (água quente com grãos de cacau muito dissolvidos) mas substituíram o pimento picante por baunilha e acrescentaram açúcar e leite para disfarçar o sabor amargo da bebida. No século XVII, Turinby Doret criou o primeiro chocolate sólido, em 1819 Cailler criou a primeira fábrica de chocolate suíço e em 1828 Van Houten inventou um processo pelo qual o sabor amargo era retirado ao chocolate. Mas foi o inglês Joseph Fry que, em 1847, criou a primeira barra de chocolate e pouco depois o mesmo fizeram os irmãos Cadbury (cujo nome dispensa apresentações). Finalmente, em 1867, os suíços Daniel Peter e Henri Nestlé criaram o primeiro chocolate de leite.

   Curiosamente, tendo em conta a sua origem sul-americana, a Theobroma cacao é agora principalmente plantada em África. 40 % da produção mundial vem da Costa do Marfim (este país africano tem muitas ligações ao passado dourado de Portugal), o Gana (também em África) produz 15%, a Indonésia (entre a Ásia e a Austrália, também com fortes ligações à História portuguesa) produz outros 15% e os restantes 30% dividem-se por alguns outros países (Brasil, Nigéria, Camarões,…).

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