2. Origens da Bandeira

   Os elementos que compõe a bandeira de Portugal explicados


A moderna bandeira de Portugal tem um conjunto de características que a diferencia de muitas outras: é uma bandeira retangular dividida desigualmente por uma área verde (dois quintos) e outra vermelha (três quintos), tendo a esfera armilar com o brasão português no centro da divisória. O brasão é constituído por uma faixa vermelha à volta com sete castelos e, no centro, uma área branca com cinco escudos azuis com cinco pontos brancos em cada.

   Muitas são as histórias, frequentemente incorretas de forma deliberada ou até inexistentes, para a origem das características da bandeira. O Estado Novo (regime ditatorial que vigorou de 1933 até 1974) foi pródigo em deturpações das verdadeiras origens mas não foi o único responsável.

República
do jornal “A República”, fundado em 1911

   A razão para as suas duas cores é erroneamente atribuída, desde o supracitado Estado Novo, como representando a esperança do povo português quanto ao futuro e o vermelho como símbolo do sangue dos portugueses que se sacrificaram pelo país. A verdade é que estas são simplesmente as cores do Partido Republicano que derrubou a Monarquia e instaurou a República em 1910, marcando a mudança de regime político com a mudança das cores monárquicas branco e azul (adotadas desde o início do reinado de D. Afonso Henriques e as cores do seu pai, o Conde D. Henrique, filho de Henrique e Síbila de Borgonha): o vermelho era a cor tradicional associada aos revolucionários republicanos ligados à Maçonaria e o verde era a cor nomeada por Auguste Comte como simbolizando as nações positivistas, já no terceiro estágio da evolução social ele proposta (a cor verde da Bandeira Brasileira tem a mesma origem, tendo sido adaptada da bandeira de D. Pedro após a independência).

Bandeira Liberal
Bandeira liberal

   A desigualdade no tamanho das cores foi estabelecida pelo Governo Liberal que se refugiu na Ilha Terceira (Açores) durante as Guerras Liberais, a guerra civil que dividiu Portugal entre 1828 e 1834, marcando a diferença com a bandeira do regime absolutista de D. Miguel, com fundo totalmente branco. Quando D. Maria II regressou ao trono após a derrota de D. Miguel, a divisão da bandeira em dois campos de cores distintas e a sua subsequente distribuição irregular foi mantida.

Brasão Portugal  A esfera armilar foi adotada por D. Manuel (1469-1521), representando os conhecimentos astronómicos essenciais aos Descobrimentos que marcaram o seu reinado.

   O brasão português, que figura nas bandeiras de Portugal desde D. Sancho I, tem cinco escudos azuis sobre um fundo branco com cinco círculos brancos. Apesar da ideia de que se tratam das “5 chagas de Cristo”, representando a inspiração divina que levou à vitória de D. Afonso Henriques na Batalha de Ourique em 1139 contra um exército mouro em superioridade numérica, esta foi criada apenas no século XIV (duzentos anos depois), tendo o número de bezantes (os pontos brancos, a moeda do Império Bizantino cuja capital foi saqueada durante a Quarta Cruzada) variado durante o reinado de D. Afonso Henriques e subsequentes reis. Os bezantes foram adotados pelo primeiro rei português como símbolo do seu estatuto como monarca, com direito a cunhar a sua própria moeda.

A faixa vermelha com sete castelos dourados faz parte do brasão português desde D. Afonso III (1210-1279). Este tornou-se Rei após o Papa Inocêncio IV ter decretado que o seu irmão mais velho, o Rei D. Sancho II, fosse destronado em 1248. Antes do decreto papal, D. Afonso III foi Conde de Bolonha após o seu primeiro casamento, região francesa de onde foi originário o Conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques. O número de castelos variou ao longo da história da bandeira, tendo sido definitivamente estabelecido apenas em 1485, pelo que a tradicional explicação que se tratava das sete fortificações mouras que D. Afonso III tomou após a conquista do Algarve carece de fundamento. Como D. Afonso III não era o primogénito, as regras da heráldica (disciplina que rege o simbolismo dos constituintes de um brasão) determinam que este tinha de incluir uma característica pessoal para marcar a diferença com o brasão dos seus antecessores. As ligações de D. Afonso III ao Reino de Castela terão marcado a sua escolha, vindo da sua mãe, Urraca de Castela (1187-1220), e ainda do seu segundo casamento com Beatriz de Castela (1242-1303) com quem casou em 1253. O brasão do Reino de Castela é constituído por um castelo dourado num fundo vermelho.

Castela
Brasão de Castela

   São estas as origens das principais características que definem a bandeira de Portugal, algumas delas bem diferentes o que a adulteração pela passagem do tempo, pelas mudanças políticas ou por deliberados motivos propagandistas definiram e são geralmente aceites mas carecidas de fundamentos históricos. Nem sempre a voz do povo é a voz da razão…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *