33. Guerra de Sabores

   Uma das frutas mais consumidas e apreciadas a nível mundial é a banana. De acordo com a página ChartsBin,  todos os anos, em Portugal, cada pessoa consome 12,5 kg (em média) de bananas, um valor elevado comparado com outros países. Na nossa vizinha Espanha consome-se 7,3 kg por pessoa, no Brasil 31,1 kg, no Equador uns estonteantes 101,5 kg, nas Filipinas 55,6 kg e em Itália 9,8 kg (como na maioria dos outros países europeus). Este valor registou um significativo aumento desde os modestos 3,1 kg de 1961, como se pode verificar na seguinte tabela:

   A banana foi domesticado, há 6500 anos, na Nova Guiné (ilha-nação a norte da Austrália). Tinha enormes sementes, tamanho pequeno e pouco sabor. Todas estas características não se associam geralmente à banana, devido a domesticação e seleção pelos seres humanos. Mas a banana tem uma longa história que envolve mutações, transformações, extinções em massa, responsabilidade por guerras e mesmo extremismo religioso.

   A palavra “banana” teve origem na África ocidental  na língua Wolof (Senegal, Gâmbia e Mauritânia, de onde vieram os Mouros, como visto em Península de Ismael) e foi introduzida a partir do Português nas outras línguas europeias. Esta baga (que é a classificação botânica da banana) começou a sua existência como o cruzamento infértil entre duas espécies de bananas selvagens (Musa acuminataMusa balbisiana) entretanto extintas e sobre as quais pouco se sabe. Deste cruzamento surgiram várias variedades, ainda que a variedade mais comercial e vendida neste momento (a Cavendish) leve a que geralmente se pense na banana como uma fruta homogénea, igual em todo o mundo e que sempre teve o mesmo aspeto sem sementes e de cor amarela e a caber confortavelmente na palma da mão (há até quem ache que a banana só pode ser uma criação divina por se ajustar tão bem às mãos humanas).

   Mas há milhares de variedades de banana no Sudoeste asiático onde surgiu inicialmente. Nos países dessa região, há bananas com sabores, aspetos, tamanhos e finalidades diferentes. Algumas têm meio quilo cada banana (como a Pisang Tanduk), outras   são duras e achatadas (como a Pisang Kepok), outas são pequenas e muito doces (como a Pisang mas), algumas sabem a maçã (como a Banana Goldfinger), algumas servem apenas de comida para amimais, outras fritam-se, algumas são enormes

   Mas a variedade mais consumida a nível mundial é a Cavendish. Esta surgiu o Reino Unido, nos jardins dos Duques de Devonshire (cujo nome de família é Cavendish) em 1830. Inicialmente foi criada como planta ornamental e, em 1840, os Duques ofereceram dois vasos com a sua banana a um missionário chamado John Williams para levar para o Oceano Pacífico para as ilhas de Samoa. Só uma sobreviveu à viagem mas deu origem a plantações de Cavendish nas ilhas e por todo o Pacífico (Williams foi depois morto por nativos). Mas só um século mais tarde se tornou a mais consumida variedade no mundo, graças a uma doença que ameaça agora também a sua extinção.

  A variedade  mais consumida no mundo até 1950 era a Gros Michael, uma variedade parecida com a Cavendish mas mais doce, maior e menos sensível a grandes viagens. Mas todas as bananas comerciais são clones da mesma (não têm sementes) e surgiu, em 1920, um fungo (Fusarium oxysporumi) que exterminou a quase totalidade das plantações de banana do mundo. A Cavendish, ainda que mais pequena e menos saborosa, era imune ao fungo que destruiu a Gros Michael. Rapidamente os produtores de banana plantaram e venderam a Cavendish. Mas, em 1992, uma variedade do fungo surgiu a que a Cavendish não é imune. Muitas plantações na Indonésia, Austrália e todo o Sudoeste Asiático já foram destruídas. Ainda não foi encontrada uma variedade de banana que tenha um aspeto e sabor parecidos e que seja imune ao vírus. A banana que tanta pessoas apreciam e consomem pode brevemente se extinguir e não há ainda substitutos como a Cavendish que substituiu a Gros  Michael.

  A Gros Michael não está completamente extinta, há ainda partes do mundo onde o fungo não existe. Mas não pode ser cultivada comercialmente como antes porque o fungo ainda está  no solo. Quem já provou, confirma que tem um sabor mais doce e intenso do que a Cavendish. O sabor é igual ao dos doces e das pastilhas com sabor a banana. Há quem defenda que as fórmulas nunca foram atualizadas e que estamos a provar a Gros Michael quando colocamos um doce com sabor artificial a banana na boca…

    Entre o fim da Guerra Hispano-Americana (em que a Espanha cedeu Cuba, Puerto Rico e as Filipinas aos EUA) em 1898 e até 1934, uma série de conflitos militares, criados pelos EUA, abalou o continente sul-americano. As motivações americanas foram em grande medida económicas. Foram mais tarde chamadas “Guerras das Bananas” por estas serem a principal exportação da região e que o EUA queriam manter o controlo (tabaco e açúcar também motivaram a guerra mas é mais engraçado chamar-lhe Guerra das Bananas). A esfera de influência dos EUA estava a aumentar (económica, política e militar) bem como a necessidade que sentiam de proteger e controlar o Canal do Panamá (aberto em 1914).

   As bananas ainda têm vestígios das sementes que outrora faziam nascer bananeiras. Hoje em dia, retira-se um ramo de bananeira (que é classificada como uma erva e não como uma árvore), planta-se num solo favorável e um ambiente quente e surgem raízes e da planta que nasce surgem bananas que são clones dos milhões de outras bananas no mundo. No centro das bananas, aquelas zonas escuras são o que resta das sementes.

   Em termos de fonte de potássio (geralmente uma razão dada para consumir bananas), por cada 100 gramas, o feijão-branco tem 561 mg de potássio, o espinafre tem 558 mg, a batata (com pele) tem 535 mg, o abacate 485 mg,  a abóbora-menina tem 437 mg, o cogumelo branco tem 396 mg, e finalmente a banana tem 358 mg. A banana não é a maior fonte de potássio (essa é o feijão-branco) tal como as laranjas e os limões não são as maiores fontes de vitamina C (as amoras têm 4 vezes mais vitamina C, como visto em Influência astral). 

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