35. Palavras coloridas

   A Língua Portuguesa é falada por 260 milhões de pessoas no Mundo. A maioria delas é oriunda do Brasil (77%), com mais de 200 mil milhões de habitantes. Portugal, a origem histórica da língua portuguesa, contribui com uns modestos 4% (um pouco menos de 11 milhões) para o número de pessoas que falam Português.

   Desde o Grito do Ipiranga, em 1822, que deu início à luta pela independência brasileira, a vertente americana da língua assumiu também a sua independência, tendo adquirido algumas diferenças em relação à norma europeia, falada em Portugal e nos outros países de língua oficial portuguesa (AngolaCabo VerdeGuiné-Bissau, Guiné Equatorial,  MoçambiqueSão Tomé e PríncipeTimor-Leste). A Guiné Equatorial, apesar de ter como língua oficial o Espanhol e não ter habitantes que falem Português, juntou-se à CPLP em 2014. Algumas dessas diferenças surgiram por incorporação de vocábulos das línguas dos povos nativos do Brasil (como a palavra “ananás”, que vem termo tupi “naná” que significa “excelente fruto”), outras vêm da adaptação mais ou menos direta de palavras das diversas línguas dos muitos povos que emigraram para o país. Estas diferenças são tidas geralmente como a maior fonte de inovação na língua portuguesa. Mas o facto é que a norma americana falada no Brasil tem também o papel de preservação de algumas formas tradicionais da língua portuguesa, por vezes de tal forma relegadas para segundo plano na norma europeia que parecem inovações brasileiras.

   Uma dessas diferenças é a palavra “Marrom”, usada no Brasil para a cor castanha. Para quem fala a norma europeia, parece tão natural chamar a cor de “castanho” como chamar “cor-de-laranja” ou “cor-de-rosa” (a cor-de-castanha terá perdido o “cor-de” devido à excessiva aliteração em “c”): há uma correspondência direta entre o nome da cor e uma espécie botânica facilmente reconhecida. De onde terão inventado então os brasileiros o nome “Marrom” para a cor? Uma rápida análise a algumas línguas europeias descendentes do Latim responde a esta questão: em Catalão é “Marró”;  em Castelhano é “Marrón”; em Francês é “Marron”; em Galego é “Marrón”; em Italiano é “Marrone”; em Daco-Romeno (Moldavo/Romeno) é “Maro” (mesmo em Basco, uma língua não-latina, é ”Marroi”). Ou seja, no Brasil,  preservou-se o nome tradicional da cor; em Portugal mudou-se a forma como é designada, talvez como reação às invasões francesas no início do século 19. Para além de terem consequências políticas (a introdução dos ideais republicanos em Portugal, a independência brasileira, a perda da cidade portuguesa de “Olivença), houve consequências linguísticas (como a introdução das expressões “para inglês ver”, “ir para o maneta”, “de armas e bagagens” e a extinção, em Portugal, do nome de sonoridade francesa “Marrom” para a cor).

   Vários processos históricos deram o seu contributo para o nome das cores na língua portuguesa. Muitas vêm diretamente do nome em Latim, como Verde, de “viridis” ou Cinzento,  do latim “cinis”, que significa cinzas mas algumas têm origens mais curiosas:

   Amarelo, vem do baixo-Latim que se falava na península ibérica “amarellus”, diminutivo do Latim “amarus”, que significa “amargo”por ser a cor da bílis oxidada, produzida no fígado, de que se falou no artigo Espíritos Espirituosos;

Preto virá do latim “pressus”, que significa “apertado, denso, comprimido”, de “premere” (apertar, espremer) já que contém todas as outras cores;

Branco vem do germânico (mas não do Alemão padrão que é weiß) “blank”, que significava “claro, branco”;

Vermelho vem do latim “vermis” (verme), por se extrair o corante com essa cor da fêmea do inseto Kermes vermilio. A palavra “kermes” vem do árabe/persa “quirmiz” para vermelho, por sua vez vindo do sânscrito “kṛmi-ja” que significa “vindo de um inseto”; a palavra “carmim” para a cor tem a mesma origem; “encarnado” vem de ser a cor da carne;

Azul vem da pedra semi-preciosa lápis-lazuli. Lapisem Latim, significa pedra (o objeto para escrever tem esse nome devido à pedra grafite com que se escreve). Lazuli vem do Árabe lājaward, importado do Persa (Irãolājavard, que é o seu nome na língua persa  e a região de onde era minado no Afeganistão. O lapis-lazúli é também conhecido como safira. No século XIX, uma versão sintética do pigmento azul e a produção e o uso da variedade natural quase cessou, embora diversas companhias ainda a produzam e alguns pintores ainda sejam atraídos pelo seu brilho e pela sua história romântica.

Cor-de-laranja vem do sânscrito “narang”, o nome da fruta. É curioso lembrar que, em muitas línguas, o nome da fruta “laranja” é Portugal,  como visto no artigo Portugal: laranja mecânica. Não é uma simples coincidência linguística, foram os portugueses que introduziram na Europa a variedade doce da laranja.

  • Árabe: al-Burtuqal «البرتقال»
  • Búlgaro: Portokal «портокал»;
  • Etíope: Birtukan «birtukan»;
  • Georgiano: Phortokhali «ფორთოხალი»;
  • Grego: Portokali «πορτοκάλι»;
  • Italiano (alguns dialectos): Portogallo ou Purtualle «Portogallo»;
  • Persa: Porteghal «پرتقال»
  • Moldavo/Romeno: Portocala «Portocală»;
  • Turco: Portakal «Portakal».

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