36. Dupla negação

   Usa-se correntemente expressões como: «Não vi nada», «Não vi ninguém». São expressões formuladas com a intenção de serem negativas. No entanto, usa-se uma dupla negativa na expressão, situação que, em termos lógicos, anula a negativa e a torna afirmativa. Se alguém diz «Não vi tudo», sabe-se que ficou algo por ver. Pela mesma razão, se se diz «Não vi nada», é porque algo foi visto (teria de se dizer «Vi nada», tal como se diz «Vi tudo»).

   Este paradoxo de se pretender falar na negativa, formando uma dupla negativa (que é equivalente a uma afirmativa) permeia as línguas de origem latina. Em Português diz-se «Eu não vejo nada», em Espanhol «Yo no veo nada», em Francês «Je ne vois rien», em Italiano «Io non vedo niente», em Moldavo/Romeno «Nu văd nimic». No entanto, tal construção de dupla negativa é inexistente nas línguas germânicas: o equivalente inglês é «I didn’t see anything», que é literalmente «Não vi coisa alguma». É incorreto dizer «I didn’t see nothing». No alemão, a situação é igual: «Ich sehe nichts». Nas línguas eslavas, como o Russo ou o Ucraniano ou o Polaco, a dupla negativa também funciona como negativa: «Nikogo nie widziałem» significa «Não vi ninguém» em Polaco. 

  Há alguns exemplos do uso da dupla negativa em Latim. Mas os Romanos usavam-na como equivalente a uma afirmação dando-lhe maior ênfase: «Non indignus» – muito digno; «Non nescius» – muito competente; «Nemo non videt» – todos vêem. E a posição da partícula non na frase afectava o significado que poderia ter assim dois significados (ambos graus diferentes de afirmação). Non antes de uma palavra negativa significa algum; (Non nemo vidit – Vi alguns); non depois de uma palavra negativa significa todo; (Nemo non vidit – Vi todos). Assim, a frase Nemo non mortalis est é «Todos (os Homens) são mortais»; Non nemo pauper est é «Alguns (Homens) são pobres». (O adjectivo latino pauper é usado no superlativo absoluto sintético português de pobre «paupérrimo»). Na altura em que o Latim era a língua mais viva da Europa, havia duas classes de Latim, uma para cada classe dentro da sociedade romana. Havia o Alto Latim, falado pelos oradores, pelos políticos, pelos pensadores. Havia o Baixo Latim (ou Latim Vulgar), falado pelos membros da classe mais humilde e, no sistema sem educação obrigatória romano, sem instrução. Quem falava o Alto Latim preocupava-se com a forma como se expressava, com a preservação da correcta construção gramatical e pelo adequado uso semântico. Quem falava o Baixo Latim preocupava-se meramente em que outros o entendessem, sem preocupação pela pureza da língua.

   As línguas românicas (Espanhol, Francês, Italiano, Moldavo/Romeno, Português) derivam todas do Baixo Latim. Pode entender-se assim facilmente como uma distorção no uso da dupla negação se pode ter disseminado pelas línguas românicas modernas. De reforço da afirmativa (numa construção de inegável valor lógico) passou-se para o reforço da negativa (numa construção que ignorava subtilezas e apenas se preocupava com o significado imediato). Mas a evolução das línguas segue o sentido da sobre-simplificação, o que pode destruir formas gramaticais e semânticas de claro valor estético e lógico. O uso da dupla negativa em Português é geralmente evitável («Não vi coisa alguma», «Nada fiz», «Não fiz coisa alguma», «Nada sei», «Sei coisa nenhuma»,…). Mas o uso popular tem legitimado a dupla negativa como negativa (e não como afirmativa) em Português.

   A inconsciência dos processos lógicos da estruturação do pensamento humano pode conduzir a aparentes paradoxos, fruto apenas da incorrecta utilização da lógica. Por exemplo, a célebre frase cartesiana «Penso logo existo» não é logicamente equivalente a «As batatas não pensam logo não existem» A negação de implicações inverte o sentido das implicações. «Penso, logo existo» é logicamente equivalente a «As batatas não existem logo não pensam», na correta negação lógica da implicação. Esta é a famosa “lógica da batata”…

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