37. Visão iridescente

   A variabilidade genética entre quaisquer duas pessoas no mundo (mesmo que  geograficamente distantes) é de apenas cerca de 0,1%, enquanto num grupo selvagem de chimpanzés (Pan troglodytes) ou de bonobos (Pan paniscus) é cerca de 12 vezes maior ou 1,2%. As diferenças genéticas entre gorilas (Gorilla gorilla) é ainda maior, cerca de 16 vezes maior ou 1,6%. Uma família de gorilas tem mais diferenças genéticas do que todos os seres humanos do planeta combinados!

   A questão da diferença da cor dos olhos entre pessoas tem sido muito usada na errada tentativa de catalogar e separar artificialmente o todo homogéneo que é a Humanidade. Mas, tal como na pele, é apenas aparente a diferença entre olhos azuis, verdes ou castanhos. Há apenas dois pigmentos/cores diferentes envolvidos na cor dos olhos: melanina (castanho) e luteína (amarelo). Todos os olhos humanos são castanhos, não havendo pigmentos nem de cor azul nem de cor verde nos olhos. O processo pelo qual os olhos aparentemente têm essas cores é semelhante ao processo pelo qual o céu por vezes parece azul ou preto ou cinzento: a refração da luz (ou seria apenas escuro como à noite).

   A íris tem duas camadas, separadas pelo estroma. A cor dos olhos forma-se por 3 processos: a quantidade de melanina ou luteína nas camadas na base e na superfície da íris , a quantidade de melanina ou luteína no estroma e as condições de luz. Todos os olhos têm melanina mas nem todos têm luteína. Olhos azuis têm pouca ou nenhuma melanina na superfície da íris e a luz entra dispersa-se no estroma, atinge a base da íris e sai. A luz refletida parece azul tal como o céu quando as partículas mais  pequenas do que o comprimento de onda refrata a luz (a Dispersão de Rayleigh). Nos olhos cinzentos, há um pouco de melanina no estroma, o que dispersa a luz um pouco (mais do que nos azuis) e os olhos parecem cinzentos. Nos olhos verdes, há uma pequena quantidade de luteína na superfície da íris e a luz entra, dispersa-se no estroma, atinge a base da íris e sai azul misturado com o tom mais amarelo da luteína, o que dá a aparência de verde. Quando a quantidade de luteína na íris é maior, o amarelo sobrepõe-se ao azul é os olhos parecem cor de mel. Os olhos castanhos têm melanina em ambas as camadas da íris, pelo que a refração da luz não se nota tanto e mais luz é absorvida. Quanto mais melanina, mais luz é absorvida e mais escuros parecem os olhos (mas não chegam  ser pretos, apenas castanho mais escuro). Outras tonalidades de olhos, como olhos de cor de avelã ou azuis-esverdeados devem-se diferentes concentrações de melanina e luteína. As pessoas afetadas com Albinismo parecem ter olhos vermelhos por causa ada ausência de melanina e só o vermelho dos vasos sanguíneos nos olhos se vê. Sobre a origem do nome das cores em português, ver o artigo Palavras coloridas.

   Em termos genéticos, a cor dos olhos é determinada por cerca de 16 genes diferentes, tornando-se impossível determinar com certeza a cor dos olhos de uma criança apenas pela cor dos olhos dos progenitores. Como visto no artigo Compatibilidades, algo semelhante acontece com o fator Rh dos tipos sanguíneos.

   A 4 de Abril de 1968, o ativista e defensor dos direitos humanos Martin Luther King Jr. foi assassinado. Quando os alunos pequenos (cerca de 10 anos) da professora Jane Elliott lhe perguntaram porquê (viviam num estado maioritariamente branco), ela encenou com eles uma experiência social. No primeiro dia, ela decretou que os alunos com olhos azuis eram superiores aos outros (que eram obrigados a usar um colar castanho), tinham mais regalias, eram chamados inteligentes (ao contrário dos “colares castanhos” que eram chamados de burros). Tinham de brincar separados, comer separados e não podiam falar com o outro grupo. Os “superiores” tornaram-se arrogantes e desagradáveis com o “inferiores”. Os “superiores” tinham melhores notas, respondiam a mais perguntas e com mais confiança. Os “inferiores” tornaram-se tímidos e subservientes, tinham piores notas e mesmo no recreio não brincavam. Passado uma semana, a professora inverteu o exercício, tornando as crianças de olhos castanhos “superiores”. Tudo o que anteriormente tinham sido inverteu-se e os “olhos castanhos” tornaram-se confiantes e bem-sucedidos e os “olhos azuis” tímidos, inseguros e não brincavam. No fim, pediu a cada aluno que escrevessem sobre a sua experiência.

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