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142. Primos inter primos

Das galáxias às pessoas, do grande ao pequeno, como se insere o Ser Humano na Natureza, o pequeno lugar que ocupamos no vasto Universo, macacos sem cauda, porque Aristócles era chamado Platão, Plutão, o primo de Darwin que alimentou a praga racista mas contribuiu para a Matemática e para a Ciência, porque temos unhas e não garras, a Frenologia e a viagem às Galápagos.  

   Algures no Universo gira, em torno do seu próprio centro, a nossa galáxia. É mais uma entre uma miríade de outras galáxias, com um diâmetro de 100 mil anos-luz de diâmetro e 3 mil anos-luz de espessura (o que é ainda assim maior do que a maioria das outras galáxias do universo visível), com uma idade de 13 mil e 600 milhões de anos (cerca de 100 milhões de anos menos do que o Universo) e com a forma de uma espiral com vários braços. Pertence a um grupo local de galáxias a que pertencem mais de 54 outras galáxias (a maioria 10 vezes mais pequenas) e todas giram em torno do centro do seu próprio grupo. As inúmeras estrelas que a compõem (perto de 400 mil milhões) nascem, giram em torno do centro galáctico e morrem. Não é possível fotografar a galáxia estando dentro dela mas pensa-se que a sua forma é semelhante à da galáxia UGC 12158 na constelação de Pégaso.

   Uma normal estrela, a meio da sua vida de 10 mil milhões de anos, na ponta de um dos braços (no Braço de Órion), a 26 mil anos-luz do centro (245 mil biliões, 973 biliões, 738 mil milhões e 530 milhões de quilómetros) e ao longo de 250 milhões de anos (a 13 mil e 200 quilómetros/hora), executa o seu bailado cósmico de homenagem ao suserano buraco negro do centro galáctico a cerca de 27 mil anos-luz da Terra. A nossa galáxia é chamada de Via Láctea e tem em seu redor duas galáxias chamadas Nuvens de Magalhães de que se falou no artigo Galões pacíficos. A estrela é o Sol que tem oito planetas que giram em seu redor. Plutão foi despromovido, em 2006, pela União Astronómica Internacional (IAU), devido ao seu tamanho, forma e mesmo origem, à categoria de planeta-anão.

   O quinto maior planeta, o terceiro, que se formou há 4 mil milhões e 600 milhões de anos, foi palco de vários acontecimentos incríveis ao longo da sua História: quando tinha 67 milhões de anos, um corpo astronómico (conhecido como «Theia»), com o tamanho aproximado de Marte, chocou contra ela. Os detritos libertados reuniram-se num anel à volta do planeta, como visto no artigo Cabeça na Lua. Ao longo de cerca de 6 milhões de anos, os detritos reuniram-se para formar a Lua (o seu único satélite); quando o planeta tinha 600 milhões de anos, surgiram, na sua superfície, moléculas com a capacidade de fazerem cópias de si mesmas. Foi o início da Vida e essas moléculas foram-se multiplicando e diversificando.

   Hoje há mais de 14 milhões de espécies de seres vivos no Mundo (embora menos de um quinto tenha sido classificada e recebido um nome), entre seres microscópicos (a vasta maioria), plantas e animais. Novas evidências mostram que, quando a Terra tinha já 4 mil milhões e 535 milhões de anos de existência surgiu um grupo de mamíferos que viria a dominar o Mundo, os Primatas. As características que os distinguiam (e ainda distinguem) dos restantes mamíferos incluem terem cinco dedos em cada membro, terem unhas em vez de garras, terem os olhos virados para a frente (visão binocular e tridimensional), verem a cores e terem polegares oponíveis. Em muitos primatas e marsupiais tanto o hálux (do latim hallex ou hallux, dedo grande do pé) como o polegar (do latim pollex, dedo grande da mão) são oponíveis. O Coala, um marsupial australiano, tem dois dedos oponíveis aos outros três, tanto nas mãos como nos pés.

   À medida que a tectónica das placas afastava os continentes, os Primatas encontraram-se espalhados pelo Mundo, evoluindo muitas vezes de formas diferentes. Encontram-se, hoje em dia, divididos em Estrepessirrínios (do grego «strepho»+«rhis» que significa nariz encurvado) e os Haplorrínios (do grego «haplos»+«rhis» que significa nariz simples). Desde há 40 milhões de anos, os Haplorrínios encontram-se divididos nos Platirrínios (do grego «platos»+«rhis» que significa nariz largo) e os Catarrínios (do grego «catos»+«rhis» que significa nariz estreito), representados apenas pelos Macacos do Novo Mundo (ou seja, do Continente Americano). Como o seu nome indica, têm narizes largos com as narinas viradas para fora. que incluem três famílias, os Cercopitecídeos (os Macacos do Velho Mundo, ou seja, África, Ásia e Europa), os Hilobatídeos (os Gibões) e os Hominídeos (os Orangotangos, os Gorilas, os Chimpanzés e os Seres Humanos). O nome do filósofo Platão era Aristócles, o nome do seu avô. Recebeu a sua alcunha devido às suas costas que eram largas, «platos» em grego.

   Esta classificação científica é algo que seria absolutamente surpreendente há pouco mais de dois séculos. A simples noção de que o ser humano faz parte de uma vasta família e de que todos os seres vivos estão ligados a um ancestral comum é uma ideia tão incrível que muitas pessoas continuam teimosamente a rejeitá-la. Mas a Teoria da Selecção Natural e da Evolução Biológica já há muito deixaram o campo incerto de meras possibilidades e encontram-se firmemente implantadas nas certezas do conhecimento humano. Tudo começou na Inglaterra, principiava o século XIX. A 225 quilómetros a noroeste de Londres, na cidade de Shrewsbury, nasceu, em 1809, Charles Darwin. Neste ano nasceram também Louis Braille, Edgar Allan Poe e Felix Mendelssohn Bartholdy.

   Desde pequeno que mostrou interesse em observar o Mundo à sua volta, fazendo coleções de seixos, conchas, moedas, ovos de pássaros, flores e insectos. Preocupado com a sua natureza contemplativa, o seu pai, Robert Waring Darwin, quando Charles chegou à idade apropriada, inscreveu-o, em 1825, no curso de Medicina na Universidade de Edimburgo, na Escócia, a 360 quilómetros para Norte. Quando Darwin nasceu, a França de Napoleão estava no seu período de expansão continental e beligerância com o Reino Unido. Em 1807, começaram as 3 Invasões Francesas do território português, de que se falou no artigo Legião laranjaCharles Darwin era neto do poeta, médico e biólogo inglês Erasmus Darwin (1731-1802) e primo do matemático e antropólogo inglês Francis Galton (1822-1911), que foi o criador da infame teoria da Eugenia que serviu de base pseudo-científica ao racismo nos EUA e na Alemanha Nazi. Criou também o primeiro mapa atmosférico, o conceito de Correlação e a Caixa de Galton, que ilustra a célebre Curva de Gauss de que se falou no artigo Curva previdente.

 Enquanto esteve na Universidade, Darwin foi exposto à teoria de Lamarck (de nome Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet, cavaleiro de Lamarck), de que os caracteres fisiológicos adquiridos pelos progenitores são passados à descendência (por exemplo, de acordo com o Lamarckismo, se alguém é praticante de culturismo e tem, por isso, bícepes muito desenvolvidos, os seus filhos terão os mesmo músculos, devido ao pai e não a exercício físico), como se falou no artigo Tentilhões marcados. O avô de Darwin, Erasmus Darwin, tinha, nos seus escritos desenvolvido uma teoria semelhante, aprofundado depois por Lamarck. Enquanto isso, as aulas de Medicina iam incomodando o sensível Darwin, uma vez que as lições e as experiências eram conduzidas em seres humanos vivos, numa altura em que a anestesia era inexistente. Numa dada altura, foi conduzida uma operação sobre uma criança. Darwin abandonou a sala de operações a meio, incapaz de suportar os gritos da criança, gritos esses que o perseguiriam durante anos.

   Apenas 2 anos após o ingresso na Universidade (em 1827), o pai da Darwin, convencido de que o seu filho não tinha inclinação nem vocação para ser médico (como ele próprio era), retirou-o do curso de Medicina e inscreveu-o num curso de Belas Artes na Universidade de Cambridge. O objectivo era que o filho se tornasse clérigo, vindo a usufruir do bem-estar económico da classe sacerdotal. Mas, para Darwin, o Colégio de Cristo (parte da Universidade de Cambridge) funcionou como umas férias pagas de 3 anos que foram, segundo o próprio Darwin, «lamentavelmente desperdiçados a rezar, beber, cantar, namorar e jogar às cartas.» Mas estes 3 anos foram igualmente proveitosos, tendo Darwin travado conhecimento (e amizade) com o professor de Botânica John Stevens Henslow.

   Foi Henslow quem o introduziu a Robert Fitzroy, capitão do navio Beagle. A primeira impressão de Fitzroy em relação a Charles Darwin não foi das melhores. Fitzroy olhou para o jovem Darwin, de 22 anos, e achou, pela forma do seu nariz, que este não tinha nem a mentalidade nem a energia necessárias para se ser um bom cientista.  Na altura, estava na moda a Frenologia, a pseudo-ciência que defende que a personalidade e o caráter de uma pessoa podem ser avaliados pela forma exterior do crânio. Esta pseudo-ciência foi fundada pelo fisiologista alemão Franz Joseph Gall (1758-1828), na sua obra de 1796 «A Anatomia e Fisiologia do Sistema Nervoso em geral e do Cérebro em particular». Gall defendia que o cérebro é a sede da inteligência e dos sentimentos, que o cérebro é constituído por 27 «órgãos», cada um responsável por um traço de personalidade (o colaborador de Gall, Johann Spurzheim, alargou a lista depois para 37) e ainda que a forma do crânio se adapta às formas dos «órgãos» mentais que se situam abaixo dele. Estudando então a forma e tamanho do crânio, seria possível avaliar a personalidade e a inteligência do indivíduo. Mas a Frenologia desde a sua origem foi construída como uma pseudo-ciência: em vez de se recolher dados e sobre eles formular uma teoria, foi construída deturpando alguns dados e inventando outros, de modo a que se encaixassem na teoria. Mas, tal como a pseudo-ciência Astrologia foi a origem da ciência Astronomia ou que a pseudo-ciência Alquimia deu origem à ciência Química, a Frenologia veio a dar origem à ciência Neurologia. E, pela primeira vez no mundo moderno, o cérebro foi identificado como a sede da mente…

   Com os dados que recolheu na viagem do Beagle, Darwin pode formular a sua Teoria de Evolução. Em 1859, com 50 anos, publicou o seu livro «Sobre a Origem das Espécies pela Selecção Natural». Mas Darwin teve o cuidado de deixar de fora a espécie humana nesse primeiro livro, antecipando sérias controvérsias com a sociedade da altura. Foi apenas em 1871, quando publicou o seu livro «A Ascendência do Homem», que Darwin abordou o sensível tema das semelhanças anatómicas e comportamentais do ser humano e dos grandes símios (chimpanzés, gorilas e orangotangos). Nele, mais uma vez reunindo provas factuais, mostrou que a diferença entre o ser humano e os (na altura?) intitulados «animais inferiores» são uns curtos passos. Desde que foi publicado, o livro foi alvo de diversos ataques, tanto honestos como difamatórios. A ideia de que «o Homem descende do Macaco» nunca foi defendida por Darwin.

Na verdade, e tendo em conta as inúmeras semelhanças, são na verdade primos genéticos do Homem, descendentes de um ser que antecedeu ambos. Esta ideia enferma ainda de uma outra concepção profundamente errada, e a que a Língua Portuguesa (na sua vertente popular) tem dado alento e sustento. Como explicado em cima, a vasta família direta do Ser Humano é a ordem biológica «Primatas» (do latim «primas» que significa excelente, nobre, o primeiro), devido à sua semelhança com os Seres Humanos. Dentro da ordem primata há duas subordens, os «Estrepessirrínios» (chamados também prossímios) e os Haplorrínios, que incluem os Társios e os Símios. É dentro desta última (a infraordem dos Símios) que estão incluídos os macacos, os gibões e os símios superiores. São três infraordens bem diferentes, cada uma com as suas características e descendem todos de um mesmo primata (que não era obviamente um macaco, que só surgiram depois). Há 58 milhões de anos, os Haplorrínios dividiram-se em 2 ramos, os Társios e os Símios. Há 40 milhões de anos, os Símios do continente americano separaram-se dos Símios dos continentes europeu, africano e asiático. Há 25 milhões de anos, separaram-se os grandes símios dos restantes símios. Daqui decorrem as quatro divisões dos primatas do Mundo actualmente existentes: prossímios (como os lémures de Madagáscar), os társios, os macacos (do Novo e do Velho Mundo), os gibões e os grandes símios. Os seres humanos fazem parte destes últimos, juntamente com os chimpanzés, gorilas e orangotangos.

   Durante muito tempo, os Hominídeos eram vistos como o conjunto dos antepassados já extintos do Ser Humano (Australopitecus, Parantopos e Homos). Mas, desde meados do século XX, esta categorização foi revista. Neste momento, os Hominídeos incluem todos os Grandes Símios (Humanos e os seus antepassados, Chimpanzés, Gorilas e Orangotangos). Uma característica visual permite distinguir os Hominídeos (os grandes símios) dos restantes primatas (apesar de não ser absolutamente correcta em termos científicos, á um bom auxiliar contudo) é a ausência de cauda. A maioria dos primatas possui caudas, algumas maiores outras pequenas. Geralmente só os hominídeos (os grandes símios, como nós) não têm cauda, possuindo o Osso do Cóccix, no fundo da coluna vertebral. Ou seja, longe de sermos descendentes dos macacos somos seus primos. É já muito conhecida a semelhança genética entre os Seres Humanos e os Chimpanzés remete mais para uma relação de irmãos do que para uma relação entre primos. Aliás, de entre todos os grandes símios, não há nenhum mais próximo dos chimpanzés do que os humanos, como visto no artigo Energia evolutiva. Formamos uma tribo à parte (no sentido biológico do termo), os Homininos. Os demais grandes símios pertencem a tribos diferentes. Apenas o Macaco-de-Gibraltar (Macaca sylvanus) é um macaco sem cauda.

   Há ainda incorrectas traduções do inglês «ape» (que se refere à superfamília Hominoidea, que inclui Gibões, Orangotangos, Gorilas, Chimpanzés e Humanos) para «macaco», que pertencem a famílias diferentes e incluem os Macacos do Novo Mundo e os Macacos do Velho Mundo. O livro de Pierre Boulle La planète des singes (1963) que inspirou o filme «Planet of the Apes» não podia ter pior tradução do que «Planeta dos Macacos». É aqui que a Língua Portuguesa falha, ao nível popular. Não há termo adequado, na linguagem popular, que corresponda a «ape» além de «Grande símio». Mas não é certamente «macaco»…

   Neste pequeno planeta, girando à volta de um normal sol, de uma normal galáxia, recusamos estender a mão a quem nos é mais próximo, tanto outras pessoas como os nossos irmãos e primos genéticos. Somos ainda uma espécie infantil, que surgiu há apenas 300 mil anos, comparados com os 4 milhões de anos que a Vida tem neste planeta. E o ritmo a que destruímos o nosso quarto de dormir e atiramos papa para o chão é assustador. Tantas violências familiares e linguísticas são de pôr os cabelos em pé a qualquer um, como a este Macaco Careca (Macaca arctoides) bebé…  E como pode alguém honesta e imparcialmente olhar para os bebés dos quatro grandes símios e não ver quão próximos todos somos?! Como muitas vezes acontece, a verdade vem das crianças…  No título «Primeiros entre os primeiros»