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154. Metal tantalizante

Há um filamento de metal que liga os modernos telemóveis a um metal raro extraído de África, à Mitologia grega, a uma garrafa do século XVIII, à primeira lâmpada elétrica comercializada,Angola ao Brasil, aos efeitos do colonialismo belga africano, ao país mais pobre do mundo detentor de imensas riquezas minerais, a um famoso livro de Ficção Científica, à Guerra de Tróia, às tartarugas, a uma peça de mobiliário, a uma taça impossível de encher, à origem de um verbo português, a uma região na Grécia e os Jogos Olímpicos.

   O século XXI começou inundado com tecnologia catapultada pela invenção do computador a meio do século XX. Falou-se na origem da palavra computador no artigo Pedras calculadoras. O primeiro computador, chamado Colossus, foi criado em 1943 para decifrar os códigos militares nazis durante a 2.ª Guerra Mundial. O primeiro computador eletrónico, chamado ENEIC, que ocupava uma sala inteira, era operado por 6 mulheres, pesava 30 toneladas, usava 200 quilowatts de energia elétrica. Continha mais de dezoito mil tubos de vácuo, mil e quinhentos relays e centenas de milhar de indutores, resistências e condensadores.

   Mas o século XXI surge imerso num mar tecnológico de telemóveis e smartphones, de cuja história e funcionamento se falou no artigo Avós digitais. O seu reduzido tamanho e capacidades têm tocado todos os aspetos das vidas de pessoas por todo o mundo. Os modernos smartphones são mais poderosos do que o computador da NASA (com o Programa Apollo) que levou 12 pessoas a pousar na Lua em 6 missões entre 1969 e 1972. O Computador de Orientação da Apollo (Apollo Guidance  Computer) usava um Sistema Operativo que permitia aos Astronautas introduzir substantivos e verbos para controlar o veículo espacial e tinha apenas 64 Kbytes de memória e uma velocidade de execução de 0,043 MHz, quando telemóveis modernos têm 64 Gbytes de memória (1 milhão de vezes mais) e 3 GHz (70 mil vezes mais). E uma pequena invenção do século XVIII tornou possível esse extremo de capacidades em tamanho reduzido, a Garrafa de Leyden. Dela surgiram as baterias elétricas atuais  e um pequeno dispositivo essencial para o funcionamento dos modernos telemóveis, o condensador.

   A Garrafa de Leyden foi uma ideia inicial criada pelo cientista alemão Georg Matthias Bose (1710-1761), professor na Universidade de Wittenberg, que descobriu que cargas elétricas podiam ser armazenadas num recipiente com água feito de vidro forrado com folha de estanho por dentro e por fora e ligado a um gerador de eletricidade estática. A ideia foi depois desenvolvida em 1745 pelo físico alemão Ewald Georg von Kleist (1700-1748) na Universidade de Leyden e em 1746 pelo holandês Pieter van Musschenbroek (1692-1761)  na mesma Universidade. O dispositivo foi assim designado por Garrafa de Leyden e podia armazenar cerca de 60 mil volts de eletricidade. Em 1748, o cientista estado-unidense Benjamin Franklin desenvolveu um sistema de onze painéis de vidro com folhas de estanho em ambos os lados e depois ligados entre si. Quando descreveu o seu dispositivo, comparou-o a uma bateria de canhões a disparar e este foi o primeiro uso da moderna palavra bateria elétrica. Os condensadores, uma pequena peça que armazena energia elétrica num campo elétrico, permitem manter uma rede eletrónica constante dentro de um dispositivo como um smartphone. O termo condensador foi primeiro usado pelo inventor italiano Alessandro Volta (1745-1825) em 1782, referindo-se à capacidade do dispositivo de armazenar uma maior quantidade de energia elétrica do que um acumulador simples.

   Os modernos condensadores, como os existentes nos telemóveis, são dezenas de vezes mais pequenos do que a original Garrafa de Leyden e utilizam um  elemento químico com o nome de Tântalo, que tem o símbolo químico Ta e o número atómico 73.  É raro (constitui  0,0002% da crosta terrestre), é duro com uma cor azul-acinzentada e é resistente à corrosão. A sua  baixa reatividade com outras substâncias torna-o ideal para equipamentos laboratoriais, como substituto de Platina (símbolo químico Pt e número atómico 78) e em condensadores para equipamentos eletrónicos como telemóveis, leitores de DVD, consolas de vídeo-jogos e computadores. O tântalo surge na natureza juntamente com o Nióbio (símbolo químico Nb e número atómico 41) na forma do minério Coltan (abreviatura de columbita-tantalita). O primeiro filamento usado comercialmente nas lâmpadas elétricas foi um filamento de tântalo entre 1905 e 1913. Mas não se ajustava ao uso com corrente alternada e foi substituído por filamentos de Tungsténio (símbolo químico W e número atómico 74). Falou-se de Watts e lâmpadas no artigo Cavalos e velas.  O Nióbio foi descoberto (inicialmente chamado Colúmbio) em 1801 pelo químico inglês Charles Hatchett (1765-1847) e o Tântalo em 1802 pelo químico  sueco AndersEkeberg (1767-1813).   São ambos metais raros. Dos cerca de 94 elementos diferentes que se podem encontrar na crosta terra, o nióbio é o 31.º (0,002%)  e o tântalo é o 52.º (0,0002%) em termos de abundância e podem ser encontrados em apenas 11 países. 91% do nióbio extraído provém do Brasil, menos de 7% vem do Canadá e menos de 1% da República Democrática do Congo. Quanto ao tântalo, metade de todo o minério extraído vem da República Democrática do Congo e outros 17% são extraídos ilegalmente por mineiros do Ruanda que atravessam a fronteira com o Congo para recolher o minério. Ambos os países são vizinhos da Tanzânia, de que se falou no artigo Costa persa.  Há dois países com Congo no seu nome: o mais pequeno, a norte, com 5 milhões de habitantes, a República do Congo (com capital em Brazzaville) e o maior, a sul com 92 millhões de habitantes, a República Democrática do Congo (com capital em Kinshsa). Em 1484, o explorador português Diogo Cão (1440-1486) foi o primeiro europeu a explorar a bacia do Rio Congo, o rio que separa os dois países (e separa também as duas capitais, distantes apenas 7 km). O rio é também chamado Rio Zaire, a adaptação portuguesa da palavra quikongo «nzere» que significa rio. A República do Congo tornou-se uma colónia francesa conhecida como Congo Francês e a República Democrática do Congo tornou-se uma colónia belga conhecida como Congo Belga (entre 1885, ano em que foi adquirida pelo rei belga Leopold  II até à sua independência em 1960, perto de 10 milhões de pessoas morreram vítimas da brutalidade da polícia que as obrigava a recolher borracha, em que até as mãos de crianças eram cortadas se não alcançassem a quota diária). Angola tem um exclave chamado Cabinda que era chamado Congo Português. A maior concentração de tântalo no Mundo é no sul da RD Congo e a segunda maior floresta tropical do mundo (depois da Amazónia, cuja origem do nome se falou em Decisões em Troia) é no norte da RD Congo. Apesar das suas riquezas minerais, na RD Congo 71% das pessoas vivem abaixo da linha de pobreza, menos de 2% das estradas são pavimentadas. As constantes lutas entre grupos militares (alimentadas pelo comércio de coltan e outros minérios) e a elevada corrupção política têm impedido a implantação de empresas para extrair minério, sendo a totalidade do tântalo exportado apanhado à mão pelos habitantes locais.

   Os nomes dos dois elementos tântalo e nióbio provêm da Mitologia Grega, da história do semideus Tântalo (filho do deus grego Zeus e da princesa Plota da Lídia, um antigo reino situado na atual Turquia com capital em Sárdis) e da sua filha Níobe. Tântalo era o governador da cidade de Tântalis (moderna cidade turca de Manisa), cidade da Lídia, reino vizinho da Média, de onde surgiu a palavra «mago» e de onde partiram os 3 Reis Magos como visto no artigo Os Medos dos Magos. Sendo filho de Zeus, Tântalo era frequentemente convidado para conviver com os deuses do Olimpo (comensal à mesa dos deuses juntamente com Sísifo. «Comensal» foi a palavra que inspirou o primeiro artigo do Cognosco em 2005) e era bem vindo na companhia de todos eles. Mas o convívio divino levou a que se esquecesse da sua condição de mortal e cometeu atos inaceitáveis. Roubou ambrósia do Monte Olimpo que levou aos seus amigos mortais para os impressionar. Também revelou aos seus amigos mortais segredos que tinha ouvido nas conversas entre os deuses. Roubou e escondeu o bode dourado de Zeus. Finalmente, convidou todos os deus do Olimpo para um banquete na sua casa, para o qual matou o seu filho Pélope, cortou-o em pedaços e cozinhou-o para lhes dar de comer.

   Ultrajados, os deuses recusaram-se a comer. A única deusa que não compreendeu imediatamente o que se passava foi Deméter, deusa da Agricultura, que comeu um pedaço pertencente ao ombro de Pélope. De acordo com o mito, Zeus ressuscitou Pélope e Deméter deu-lhe um ombro feito de marfim para substituir o pedaço que ela comeu. Tântalo foi morto por Zeus e enviado para o Tártaro, um dos infernos gregos. O nome das tartarugas em Português deriva de «besta do Tártaro», como visto no artigo Sabedoria matinal. No Tártaro, o castigo de Tântalo foi passar a eternidade em pé mergulhado até ao peito em água com um ramo de frutas sumarentas acima da sua cabeça. Sempre que se baixava para beber a água, esta descia abaixo do seu alcance e, sempre que levantava a cabeça para comer um dos frutos, estes subiam acima do seu alcance. Esta é a origem do verbo «tantalizar» em Português que tem o significado de despertar a cobiça de alguém e impedir a concretização desse desejo.

   O mito de Tântalo inspirou o nome que foi dado ao metal tântalo devido, como explicado pelo seu descobridor Anders Ekeberg, ao facto deste metal não  absorver facilmente ácidos. Também inspirou o (novo) nome do metal nióbio devido a estes metais se encontrarem juntos na Natureza no minério coltan e Níobe ser uma das filhas de Tântalo. Deu ainda o nome a uma taça impossível de encher porque se esvazia quando se enche acima de uma dada altura. É a Taça de Tântalo (também chamada Taça de Pitágoras). Há ainda um tipo de decantador de vinhos chamado Decantador Tântalo. Inventado em 1881, as rolhas das garrafas (geralmente 2 ou 3) estão presas a uma barra com fechadura para impedir que crianças ou criados de beberem. As garrafas são claramente visíveis mas o líquido permanece inalcançável.

   Tântalo teve 3 filhos: Níobe, Bróteas e Pélope (e talvez Dascilo).

   Níobe casou com o rei de Tebas de nome Anfião, de quem teve 7 filhas e 7 filhos. Em Tebas prestava-se culto à deusa Leto, deusa do anoitecer e mãe dos deuses Apolo e Átemis. Durante uma celebração à deusa, Níobe interrompeu as festividades dizendo que ela era mais digna de veneração do que Leto porque tinha mais filhos do que a deusa (que era sua tia na mitologia grega). Sentindo-se insultada, Leto enviou os seus dois filhos para matar os filhos de Níobe. Esta chorou dia e noite a morte dos filhos até que Zeus a transformou numa pedra (a que os turcos chamam Ağlayan Kaya ou "A pedra que chora") de onde jorra constantemente água no Monte Sípilo junto à cidade.

   Bróteas tornou-se um exímio caçador que se recusou prestar homenagem a Artemísia, deusa grega da caça. Como castigo, a deusa enlouqueceu-o e ele julgava-se invulnerável. Na sua loucura, atirou-se a uma fogueira para provar a sua invulnerabilidade e morreu. No Monte Sípilo existe um relevo esculpido na rocha com 8-10 metros de altura, de uma figura feminina aparentemente com as mãos nos seios e o rosto danificado pela erosão. A tradição nomeia Bróteas como o escultor desta estátua identificada com a mãe dos deuses Cibele mas evidências arqueológicas apontam para que se trate de uma deusa hitita esculpida mil anos antes.

   Pélope, após ter sido ressuscitado por Zeus, casou com a filha do rei da cidade de Olímpia, após o derrotar numa corrida de cavalos. Para comemorar a sua vitória, Pélope mandou organizar competições de corridas de cavalos que terão inspirado a realização dos Jogos Olímpicos séculos mais tarde na cidade. Pélope tornou-se rei de Pisa (na Grécia), distrito a que pertencia Olímpia.  A península onde a cidade se situa recebeu o nome de «Ilha de Pélope» ou Peloponeso. Foi erigido um templo a Pélope ao lado do Templo de Zeus (onde estava uma das 6 Maravilhas do Mundo  Antigo, a Estátua de Zeus) onde eram realizadas cerimónias subterrâneas em sua honra. Um dos filhos de Pélope foi Atreu, rei de Micenas que fundou a dinastia Atreides. Um dos filhos de Atreu foi Menelau, rei de Esparta e casado com Helena de Troia, e outro foi Agamemnon, rei de Micenas. Quando Helena foi levada para Troia por Páris como recompensa divina, isso deu início à Guerra de Troia, como visto no artigo Decisões em Troia. Os descendentes de Atreu (netos de Tântalo) são conhecidos como Atreides. Quando, em 1965, Frank Herbert (1920-1986) escreveu o livro Dune, deu o nome de Atreides a uma das famílias rivais do livro.