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131. Vândalo civilizado

Desde a Suécia à Polónia, à França, à Península Ibérica e ao Norte de África: a história do povo que vandalizou o Império Romano mas que o preservou, que deu nome a um reino de Espanha, que é associado a pilhagens e destruições mas que não foram mais do que os seus contemporâneos.

   A definição da palavra portuguesa «vândalo»: pessoa que danifica deliberadamente bens públicos ou privados, como monumentos históricos, obras de arte ou de valor. E esta palavra está firmemente implantada no léxico de muitas línguas europeias, tanto de origem latina (Castelhano: vándalo; Francês: vandale; Italiano: vandalo; Romeno: vandal), como germânica (Alemão: vandale; Dinamarquês: vandaale; Inglês/Sueco: vandal), eslava (Russo/Búlgaro/Ucraniano: вандал «vandal»; Polaco: wandal; Eslovaco: vandalský) ou mesmo urálica (Finlandês: vandaali; Húngaro: vandál). A semelhança do mesmo termo em línguas de origens tão diferentes aponta para uma origem comum, talvez ligada à outra definição para a palavra «vândalo»: povo germânico que, por volta do século V, invadiu e devastou a Hispânia e o Norte da África, onde fundou um reino.

   Será merecedor de tão pesada definição este povo? Em artigos anteriores como Polimático Possidónio, verificou-se que que o uso corrente que se dá de «Possidónio» não faz jus à grande pessoa que foi o filósofo Possidónio, figura maior do Estoicismo. Também, em Viver antes de morrer, se verificou que a História do Marechal La Palisse em nada corresponde ao uso caricatural que se faz do seu nome. Este povo era originário de Vendel, na Suécia e imigrou para a região da atual Polónia, na Silésia, no século 2 AEC. Ao lado da fronteira portuguesa existe toda uma vasta região cujo nome se deve a este povo.

   Quando Júlio César (100-44) entrou na Gália (moderna França) fê-lo para ajudar os Gauleses contra as investidas militares dos povos Germânicos. Repeliu-os mas acabou por ficar na Gália e, após longas campanhas militares, conquistou-a. Em 52 AEC, derrotou Vercingetórix, líder gaulês, e toda a região ficou controlada. Entretanto, aproveitando a ausência de César, os seus adversários políticos em Roma começaram a conspirar contra ele. Foi quando proferiu a célebre frase «Os dados estão lançados» como referido no artigo Dados combinados. Ao lado da Gália estendia-se a vasta região conhecida pelos romanos como Germânia. Esta era habitada por vários povos diferentes, chamados conjuntamente de Germânicos pelos romanos.

   A altura média dos povos na altura eram bem diferentes, a julgar pelos seus esqueletos entretanto encontrados. Os povos eslavos tinham uma média de alturas de cerca de 1,65m; os Romanos cerca de 1,67m; os povos iberos cerca de 1,70m; os povos celtas cerca de 1,75m e os povos germânicos cerca de 1,78m. A diferença de alturas (cerca de 10 centímetros) assustava os soldados romanos quando enfrentavam povos germânicos e era preciso incentivos psicológicos para manter os povos germânicos sossegados e os soldados romanos tranquilos. César, para mostrar a capacidade das suas legiões, mandou construir uma ponte de madeira a atravessar o rio Reno. A ponte, com perto de 400 metros de comprimento e 8 metros de largura, demorou 10 dias a ser feita e atravessa o rio Reno (algures entre as modernas cidades de Andernach e Neuwied) num ponto com perto de 9 metros de profundidade e fortes correntes. César atravessou a ponte, demonstrou o poderio militar romano e a sua capacidade de ir onde quisesse e voltou para trás, destruindo a ponte. A demonstração de César revelou-se bastante eficaz e, durante os 600 anos seguintes, os povos germânicos mantiveram-se na sua área e não atravessaram a fronteira romana.

   No século 4, os Hunos, vindos da Ásia, irromperam na Europa. Os povos germânicos (Godos, Francos, Anglos, Saxões, Vândalos) atravessaram o rio Reno, no século 5, para escaparem aos exércitos hunos. Os Godos dividiram-se em dois ramos (Ostrogodos e Visigodos), os Francos ocuparam a Gália (que viria a adoptar o seu nome, vindo a ser conhecida como França), os Anglos e os Saxões ocupam a Bretanha, os Vândalos  em atacaram as desmoralizadas legiões romanas, no rio Danúbio, instalando-se, após um tratado de paz com os Romanos, na Dácia (Roménia e Moldávia, como visto no artigo Quinta Flor do Lácio) e Hungria. Mas as pressões hunas prosseguiam e os Vândalos, no ano 400, juntamente com os seus aliados, os Alanos (do moderno Irão) e os Suevos (outro povo germânico) penetraram mais profundamente no território romano. Os três povos chegaram à Gália, dominada já pelos Francos, e encontraram enorme resistência. Através de várias batalhas e terríveis devastações pelas terras por onde passavam, chegaram aos Pirinéus, a cordilheira montanhosa que separa a Gália da Ibéria.

   No sentido de os apaziguar, os Romanos deram-lhes «permissão» para se estabelecerem na península ibérica: os Suevos ficaram com o parte do Noroeste da Península (Galiza e norte de Portugal), os Alanos com a Lusitânia, os Vândalos ficaram com o sul da península, os Visigodos, que chegaram depois, estabeleceram-se no sul da Gália e nordeste da península (os Visigodos derrotaram depois os Alanos e entregaram a coroa alana ao Rei Vândalo). A região que os Vândalos ocuparam, na atual Espanha, era conhecida como Vandaluzia. Os Árabes, muitos séculos depois, chamaram à península Al-Andaluz, como chamaram à parte ocidental (correspondendo mais ou menos à antiga  LusitâniaAl-Garb. De Al-Andaluz (a anterior Vandaluzia sem o «V») veio o nome Andaluzia, nome da região espanhola e de Al-Garb veio o português Algarve.

   O uso do termo «vândalo» surgiu historicamente como consequência da entrada dos Vândalos na cidade de Roma. Os Vândalos atravessaram a Gália, instalaram-se na Península Ibérica. Após chegarem à Península, não se limitaram a cruzar os braços e a saborear os frutos das suas vitórias contra os Romanos e outros povos. Em 429, aproveitando distúrbios políticos no Império Romano (do Ocidente), cruzaram o Estreito de Gibraltar e atacaram as províncias romanas do Norte de África, que foram atravessando e conquistando até chegarem às muralhas de Hippo Regius (Annaba, cidade o norte da Argélia onde séculos depois parte da compensação da Primeira Guerra Mundial da Áustria-Hungria para Portugal se fundou, como visto no artigo Grande Gripe), cidade a que fizeram um cerco de 1 ano. Finalmente um acordo de paz foi feito com os Romanos, em 435, que os Vândalos quebraram 4 anos depois, em 439, quando conquistaram a cidade de Cartago e formaram o Reino Vândalo e Alano no Norte de África.

   Com base no Norte de África e nas ilhas Baleares, Sicília, Córsega e Sardenha, principiaram uma era de pirataria e pilhagem no Mar Mediterrâneo. Até 453, ano da morte de Átila o Huno, os Romanos pouco fizeram para combater a frota vândala que pilhava as cidade costeiras do Império Romano do Oriente e do Ocidente. Mas, a partir desse ano, com a ameaça huna diminuída, os Romanos decidiram prestar mais atenção aos piratas vândalos que lhes assolavam a costa. Longe do poderio militar romano de outrora, o Imperador Valentiniano III (419-455) ofereceu a mão da sua filha de 5 anos Eudócia em casamento ao filho Huneric (que já era casado) do rei vândalo mas um usurpador de nome Petrónio Máximo assassinou o imperador romano para se apoderar do trono. A imperatriz enviou então um pedido de ajuda ao filho do rei vândalo e, como resposta ao pedido, a frota vândala aproximou-se da costa italiana e tomou a cidade de Roma, em 455. Partiram então, com a Imperatriz e as suas duas filhas (Eudócia e Placida) com inúmeros tesouros romanos, incluindo os despojos do Templo de Jerusalém e regressaram a Cartago. O clima político com o Império Romano do Oriente, único sobrevivente do império romano, situado no Mediterrâneo oeste, com capital em Constantinopla (actual cidade de Istambul, na Turquia, mas não a sua capital, que é Ancara) estabilizou-se, exceptuando as tensões religiosas decorrentes do facto dos Vândalos serem Cristãos Arianos e os Bizantinos (nome porque passarem a ser conhecidos os romanos do oriente) serem Cristãos Ortodoxos.

   Então, em 477, com 88 anos, morreu o rei Vândalo Geiseric (389-477), que tinha sido coroado quando os Vândalos entraram no Norte de África. O Reino Vândalo foi progressivamente declinando de poder e influência. Quando os Muçulmanos do Norte de África (conhecidos como Mouros) venceram militarmente as tropas vândalas, o Imperador Bizantino Justiniano I (482-565) declarou guerra aos Vândalos, argumentando que estes não protegiam os Cristãos Ortodoxos do Reino dos exércitos infiéis dos Mouros. Os Bizantinos tomaram Cartago, em 533, e um ano depois, em 534, vencerem finalmente os Vândalos, tornando novamente o Norte de África uma província romana. O império bizantino foi sendo progressivamente conquistado pelos Muçulmanos até à queda de Constantinopla, em 1453. Falou-se na diferença entre Árabes, Muçulmanos, Mouros, Sarracenos no artigo Península de Ismael.

   Apesar do termo «vandalismo» remeter para violência desmedida, o que é certo é que os Vândalos foram até bastante civilizados quando entraram em Roma a pedido da Imperatriz, apenas levaram tesouros e não há quaisquer evidências de que tenham tocado numa única casa ou monumento romanos. Na verdade, Roma foi saqueada pelo menos 7 vezes ao longo da sua História: em 387 pelos Gauleses, que saquearam a cidade; em 410 pelos Visigodos, que saquearam a cidade durante 3 dias; em 455 pelos Vândalos, que levaram os tesouros da cidade; em 546 pelos Ostrogodos, que a saquearam e escravizaram a sua população; em 846 pelos Árabes, que saquearam a Basílica de São Pedro; em 1084 pelos Normandos, que incendiaram a cidade, destruindo ruínas romanas; em 1527 pelas tropas Imperador espanhol Carlos V, que mataram todas as tropas da cidade e pilharam e destruíram todos os edifícios religiosos.

   Os Vândalos foram até bastante civilizados e ruínas de povoações vândalas mostra que tinham edifícios de traço romano, que contribuíram para preservar numa época tumultuosa. Mas, no início do século XIX, em França, o bispo Henri Grégoire idealizava a Época Clássica e Godos e Visigodos foram apontados como inimigos e destruidores da Civilização. Injustamente, tendo em conta a profunda influência que os Vândalos e outros povos germânicos tiveram na criação da cultura europeia. É de salientar que a História Europeia, desde a queda do Império Romano do Ocidente, foi escrita pelos povos Germânicos e seus descendentes (a Península Ibérica foi depois conquistada e influenciada pelos Mouros e a Europa do Norte pelos Víquingues). Os cristãos que fizeram a Reconquista Cristã, reconquistando aos Mouros a Península Ibérica, eram descendentes dos povos germânicos e as populações dos países europeus descendem dos povos germânicos. Ser Europeu significa ser Germânico!