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72. Tripla lição

   Esta é a bandeira do México, com 123 milhões e 518 mil habitantes é o 11.º país mais populoso o mundo e o Brasil é quinto (5.º), com cerca de 207 milhões e Portugal é o octagésimo-sexto (86.º) com cerca de 10 milhões e um terço. Ver o artigo Termos ordinais para mais sobre como ler estes números ordinais. Tem três faixas verticais (verde, branca e vermelha) e, no seu centro, há uma águia pousada num  cacto a comer uma cobra. Este símbolo liga o país ao seu passado como uma civilização criativa e brutal, eficiente e sanguinária,  admirável e temerável: os Aztecas (que usavam o nome Mexica para se referirem a si mesmos).

   Corria o século XII DC. Na Europa, Portugal torna-se independente e são lançadas as 2.ª e 3.ª Cruzadas para libertar a Terra Santa. Na Ásia, Gengis Khan controla o maior império terrestre da História. No Médio Oriente, Saladino resiste aos cruzados e ao Rei Ricardo Coração de Leão.

   Na América Central, no século XII, um grupo de nómadas percorria a paisagem alimentando-se de vermes e cobras ou roubando comida aos povos com que se cruzava. Eram um grupo rejeitado pelos demais, pelos seus hábitos bárbaros, incivilizados e que percorria terra alheia sem local para chamar lar. Em 1325, o chefe do bando nómada recebe uma mensagem diretamente da maior das suas divindades, o Deus da Guerra e do Sol Huitzilopochtli, dizendo-lhe que deveriam dirigir-se a umas ilhas pantanosas no meio de um lago próximo. Lá encontrariam o refúgio que procuravam, a Terra Prometida que há muito a divindade lhes prometera. Deveriam lá procurar por uma águia, pousada sobre um cato, a comer uma cobra. Onde a encontrassem, construiriam a sua cidade e honrariam o Deus da Guerra e do Sol com sacrifícios humanos. Ao chegarem ao lago Texcoco, viram uma série de ilhas pantanosas. Numa delas, havia um cato, com uma águia a devorar uma cobra. Tinham chegado à sua Terra Prometida. Na ilha fundaram uma cidade, a que deram o nome do seu chefe Tenoch. A cidade tornou-se Tenochtitlána cidade de Tenoch»). O deus da Guerra e do Sol por quem matariam pessoas chamava-se Huitzilopochtli. O povo era os Aztecas (que deriva do nome do local de onde partiram para a sua busca da Terra Prometida, a ilha de Aztlam «Local Branco»).

   A cidade teve um início humilde, perdida no meio de uma ilha pantanosa no meio de um lago. Os Aztecas trabalharam arduamente, adoptaram as técnicas agrícolas dos seus vizinhos Maias (a construção de terraços sobre as águas, cobertas por terra e em seguida cultivadas) e cresceram militarmente. No século XV DC, na América Central, os Aztecas já se tornaram uma potência militar na região e, sob a chefia de Moctezuma I (geralmente referido como Montezuma I) firmaram alianças com os seus poderosos vizinhos, das cidades de Texcoco e os Tlacoplan. Formou-se a Tríplice Aliança. Os Aztecas recebiam agora tributos das nações que conquistavam e os prisioneiros de guerra eram usados nos seus rituais de sangue em honra de Huitzilopochtli. De um bando nómada e incivilizado, os Aztecas cresceram para se tornarem uma potência militar, um centro de cultura e civilização.

   As suas realizações culturais foram imensas: em termos matemáticos , usavam um sistema numérico de base 20, sem 0. Os algarismos (de 1 a 9) representavam-se pelo número de pontos respectivos, 20 por uma bandeira, 400 (20×20) por uma pena e 8 000 (20×20×20) por um saco (que representava um saco contendo 8 000 grãos de cacau). (sobre o chocolate, ver o artigo A comida dos deuses); em termos mitológicos os Aztecas acreditavam que os Deuses tinham criado a Humanidade a partir do milho. Após várias tentativas infrutíferas (que resultaram nos macacos, já que não havia primatas no continente), os Deuses finalmente conseguiram criar o Ser Humano; as suas proezas arquitetónicas são lendárias, como as suas famosas pirâmides. O facto de serem pirâmides em nada os liga aos Egípcios: a pirâmide é simplesmente a forma mais lógica de erigir grandes construções sem os alicerces de betão armado modernos, comoTemplo de Kukulcán.                                                        

   A 21 de Abril de 1519 (5.ª feira) 11 galeões espanhóis, sob o comando de Hernán Cortés, chegaram à costa marítima do império azteca com 550 homens e 16 cavalos. Estes poucos homens viriam a conquistar o formidável império dos Aztecas. Houve, pelos menos, três variáveis que foram imprescindíveis para essa derrota de uma civilização de cariz militarista com milhares de guerreiros habituados à luta às mãos de tão poucos: a questão médica costuma ser a mais referida: os espanhóis trouxeram consigo a varíola, doença desconhecida para os Aztecas. Após uma primeira tentativa falhada de conquistarem a cidade de Tenochtitlán, os Espanhóis voltaram a tentar. Desta vez foram bem sucedidos, pois tinham sucumbido à doença milhões de Aztecas e os sobreviventes poucas forças tinham para lutar. Dos 25 milhões de Aztecas que existiam quando os Espanhóis chegaram, apenas 1,2 milhões existiam cem anos depois da conquista. Também a questão do desconhecimento: os Aztecas nunca tinham visto cavalos e a imagem de um homem montado era-lhes assustadora. Imaginavam que se tratava de uma única besta gigante, com 4 patas e corpo de homem. A pólvora e os cavalos eram desconhecidos dos Aztecas e ajudaram à sua derrota. O terror infligido pelos «homens-besta» e pelo barulho da pólvora e a capacidade de matar «à distância» apavoraram os guerreiros aztecas. A colónia espanhola viria mais tarde a conquistar a sua independência e usaria, na sua bandeira, a mesma imagem que conduziu os Aztecas até ao lago Texcoco. O império azteca tornar-se-ia o México e a cidade de Tenochtitlán foi destruída e sobre ela os espanhóis erigiram a Cidade do México.

   O mais curioso neste desconhecimento sobre os cavalos, por partes dos «naturais» da América, é que o ser humano conviveu com cavalos quando primeiro chegou à América. Os cavalos surgiram na América e só depois colonizaram outros continentes.    O choque dos Aztecas ao verem um animal que desconheciam, tendo os cavalos sido tão abundantes no continente prende-se com a sua extinção, juntamente com outros animais, antes de surgirem civilizações nas Américas. Há 60 milhões de anos, nas Grandes Planícies americanas evoluiu o pequeno Hyracotherium ou Eohippus, antepassado de todos os cavalos modernos, com uns modestos 20 centímetros de altura. Há entre 17 mil e 11 mil anos, quando o homo sapiens chegou ao Norte da Ásia, encontrou uma faixa de terra, o agora conhecido como Estreito de Bering. Na altura, vivia-se uma Glaciação e o nível do mar era mais baixo do que o actual (havia muita água congelada). O ser humano atravessou essa ponte (e terá partido de jangada atravessando o Pacífico) e encontrou uma nova terra. Foram esses primeiros povos que descobriram a América. O continente que descobriram era rico em fauna e flora. Existiam mamutes, bisontes, preguiças terrestres, 5 espécies de cavalos (incluindo uma de zebras), 2 tipos de camelos (também os camelos surgiram primeiro na América), o conhecido tigre dentes-de-sabre e o maior mamífero carnívoro terrestre que alguma vez existiu, o urso de focinho curto. Os camelos surgiram na América e, há 3 milhões de anos migraram para a Ásia e para a África e extinguiram-se na América, como o Cavalo. Os camelos norte-americanos eram mais altos do que os atuais camelos, medindo mais de 2 metros de altura e tendo um peso de 600 kg. Apenas uns parentes seus, as lamas, subsistiram na América do Sul, onde eram e ainda são usados como animais de carga. E todos os dromedários, que têm uma bossa, são camelos mas nem todos os camelos são dromedários: o camelo da Báctria é  o único camelo que tem duas bossas.

   Pouco tempo após a chegada dos seres humanos os grandes mamíferos do continente extinguiram-se (pensa-se que em parte devido às caçadas humanas) e com eles morreram os seus predadores. Algumas gerações após a chegada do Homem à América, tudo o que restava dos fantásticos animais que os seus antepassados caçavam não passavam de histórias e pinturas. Aperceberam-se do terrível papel que desempenharam nesse desaparecimento e alteraram a sua forma de se relacionarem com a Natureza. Durante os 12 mil anos seguintes não houve mais extinções em massa na América. Até à chegada dos europeus. Após a colonização europeia da América, em apenas 60 anos mataram-se milhões de bisontes (Bison bison bison). Esta espécie, que foi o único herbívoro de grandes dimensões que sobreviveu à chegada do Ser Humano à América, era extremamente abundante e, no entanto, foi levado até perto da extinção por caçadores europeus. Se alguns rancheiros, mais conscienciosos, não tivessem mantido, nas suas terras, alguns grupos de bisontes, a espécie teria desaparecido. Em 1853 só existiam 500 búfalos selvagens.

   Apesar da tradicional imagem dos índios norte-americanos a lutar montados a cavalo, esses cavalos são os descendentes dos animais deixados ou fugidos aos espanhóis. O cavalo, como espécie, não existiu na América durante milhares de anos, até que os Europeus inadvertidamente os trouxeram de novo para casa. Os índios (que devem a sua designação colectiva ao engano cometido por Colombo ao achar que tinha chegado à Índia) devem ser admirados pelo facto de terem aprendido a lição dos seus antepassados e não só por respeitarem a natureza. Afinal foram os seus antepassados que causaram a maior extinção em massa desde o fim dos dinossáurios… A maior façanha dos índios norte-americanos foi fazer algo que a maioria das pessoas actualmente se recusa a fazer: aprender com os erros da sua História e não os voltar a cometer.