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127. Caracóis de Vacanti

Dos erros de percepção às ilusões visuais, a estrutura do ouvido, vertigens e o rato com uma orelha nas costas.

   A capacidade de organizar, identificar e interpretar as informações recolhidas pelos sentidos do corpo de forma a representar e compreender o meio ambiente é chamada Percepção (do Latim perceptio), estudada no âmbito da Psicologia  Aplicada. Uma das habilidades da percepção é a capacidade de distinguir um objeto ou figura do fundo que o rodeia usando vários tipos de indicações (de natureza probabilística) como o tamanho relativo (geralmente as figuras são mais pequenas), a sua forma (as figuras tendem a ser convexas), o movimento (as figuras podem estar a mover-se sobre um fundo estático), a cor (as figuras podem ter cores distintas do fundo) ou a atribuição da linha de fronteira entre o fundo e a figura. Na base de muitos erros de percepção e diferenças de opinião surgem pelas maneiras como diferentes cérebros processam as informações probabilísticas que recebem. Em 1915, o psicólogo dinamarquês Edgar John Rubin (1886-1951) criou uma série de imagens para o seu livro em dois volumes Synsoplevede Figurer (Figuras Visuais) detalhando várias formas como as figuras e o fundo são processados pelo cérebro e como diferentes interpretações (ou ilusões) da mesma imagem surgem dependendo do que processado como figura ou como fundo.

   De entre os sentidos humanos, contam-se a Visão, Audição, Cheiro, Olfato ou o Gosto, os sentidos mais identificados. Há outros sentidos como o sentido da temperatura (termocepção), movimento (propriocepção), dor (nocicepção), equilíbrio (equilibriocepção), vibração (mecanorecepcão) e vários estímulos internos como os diferentes recetores químicos para detetar as concentrações de sal e dióxido de carbono no sangue ou a fome ou a sede. O sentido da Audição surge como respostas às informações recolhidas pelos Ouvidos, constituídos por 3 partes. Há o ouvido exterior (a parte protuberante feita de cartilagem e mais ou menos 2 centímetros do canal auditivo) que recebe e transmite as ondas sonoras para o interior, onde são convertidos em sinais que o cérebro interpreta. Há o ouvido médio, preenchido com ar e que contém os ossos mais pequenos do corpo humano, como o martelo, bigorna e estribo e as Trompas de Eustáquio, as estruturas que a Evolução adaptou das guelras do peixes nossos antepassados como se falou no artigo Tentilhões marcados. Há também o ouvido interno que inclui a cóclea, do Antigo Grego κοχλίας kōhlias, espiral ou casca de caracol, que transmite as informações auditivas para  o cébro e que tem a perilinfa, o líquido cujas movimentações permitem o sentido do equilíbrio.

   Mesmo de olhos fechados alguém que inclina a cabeça sente essa inclinação através do deslocamento desse líquido e o cérebro pode fazer os ajustes necessários para manter o equilíbrio do corpo. Quem sofre alguma patologia que lhe afecte o ouvido interno sente o mesmo tipo de tontura e indisposição de quem é transportado de carro e não consegue se manter direito. Há dois tipos de equilíbrio de que o cérebro recebe informações pelo ouvido interno: o equilíbrio estático (a orientação da cabeça em relação ao solo) e o equilíbrio dinâmico (a orientação da cabeça em relação ao movimento do corpo). Quando se está num carro em movimento, os sensores de equilíbrio estático no ouvido interno informam o cérebro de que o corpo está parado (em relação ao carro). Esta informação é corroborada pelos olhos. No entanto, os sensores de equilíbrio dinâmico sentem o movimento do carro e portanto informam o cérebro de que o corpo está em movimento.

   É esse conflito de informações com que o cérebro não consegue lidar e enquanto tenta gerir a crise envia sinais de alarme ao corpo. A parte mais sensível do corpo a esses sinais é infelizmente o estômago. Surge assim a indisposição ligada ao movimento. Quem conduz não sente o mesmo tipo de indisposição do passageiro pois o nível de conflito no condutor é menor uma vez que a sua mente está concentrada no movimento do carro. Assim as informações de que está estático são ignoradas pelo cérebro que está a gerir o controlo do movimento do carro. Poderá também explicar porque por vezes quem se encontra sentado nos bancos traseiros não se sente tão rapidamente enjoado. O passageiro dianteiro vê a estrada em movimento à sua frente, enquanto o passageiro traseiro verá principalmente o banco estático que se encontra à sua frente.

   Esta é também a razão pela qual quando se gira subitamente (ou continuadamente) o corpo se sente essa mesma indisposição no momento em que se pára. Apesar do corpo parar e os olhos informarem o cérebro de que está em repouso, o líquido do ouvido interno continua em movimento (como uma panela com água que se mexeu com a colher. Mesmo que se pare de mexer, a água continua em movimento durante algum tempo). Novamente o cérebro recebe informações contraditórias. Os olhos informam o cérebro de que não há movimento mas no ouvido interno os sensores de movimento dinâmico ainda recebem a informação de movimento (só que é só do líquido, mas não têm como distinguir as suas situações).

   O ouvido externo, conhecido como orelha, é constituído por cartilagem. Em 1997, o investigador norte-americano Charles Vacanti (nascido em 1950) era cirurgião pediátrico. Através de conversas com os seus colegas, constatou que um dos órgãos mas difíceis de reconstruir era a orelha. Ele e o seu irmão Joseph decidiram criar uma orelha nos laboratórios de Anestesiologia na Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard para abrir as portas à criação de órgãos para transplante. Para o fazerem, criaram um estrutura com a forma e tamanho de uma orelha com um material biocompatível e absorvível pelo corpo. Colocaram então algumas células vivas de cartilagem sobre a estrutura e colocaram numa incubadora. Depois das células de cartilagem crescerem e cobrirem a estrutura, retiraram-na da incubadora e colocaram-na debaixo da pele das costas do rato. Depois de verificarem que a orelha artificial estava viva dentro do rato, retiraram-na e o rato sobreviveu à experiência. Em 1999, a BBC soube da experiência e fizeram um documentário sobre técnicas de criação artificial de órgãos. Os irmãos Vacanti chamaram ao rato Euriculosaurus mas o mundo ficou a conhecê-lo como Rato de Vacanti.