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100. Erro crasso

  Da Etimologia de palavras em Português até ao erro do homem mais rico de Roma, amigo de Júlio César, ao lendário Espártaco, até a uma morte por ouro e a legião romana perdida na China.

   A Etimologia (parte da gramática que trata da origem e formação das palavras) das palavras em qualquer língua pode ser bastante complicada, muitas vezes nublada por acasos históricos e mesmo pela incorporação de termos de minorias étnicas de que pode nem haver referências. A incorporação pelo calão de termos usados por uma minoria no seio de uma sociedade ou país é um fenómeno comum. Em Português temos, como exemplo, os termos «gajo» e «gaja», derivado de «gadjo», o termo cigano para quem não pertence à sua etnia. Para mais sobre a origem da mais antiga etnia a viver em Portugal, desde o século XIV ver o artigo Egipcianos errantes.

   Mas existem também pilares linguísticos importantes que definem uma língua. Em Português, o principal pilar para a sua origem é, como todas as restantes línguas românicas, o (Baixo) Latim. Dos Celtiberos (em que se incluíam os Lusitanos) ficaram, entre outras, palavras como «abóbora», baía», «barro», «bezerro», «cama», «esquerda», «manteiga», «sapo»; dos Fenícios ficou «saco»; dos Celtas, entre outras, «bico», «brio», «bruxa», «camisa», «cerveja», carro», «carvalho», «picar»; dos povos germânicos que ocuparam a Península no fim do Império Romano ficaram, entre outras, palavras como «barão», «branco», «espora», «estaca», «guerra», «roubar», «guardar», «guia», «lasca», «tampa», «trégua», «vantagem» e mesmo a nossa interjeição «ufa!»; dos Árabes ficaram perto de 1 000 palavras, a maioria (mas não todas) começadas por «al» (o artigo definido na língua árabe) como «aldeia», «alface», «armazém», «azeite», «azar», «açúcar», «garrafa», «jarra», «limão», entre outras. As mais curiosas serão talvez o «oxalá» (da expressão árabe que significa «Assim queira Alá») e «salamaleque» (da expressão árabe  que significa «Que a paz esteja contigo»).

   Os Descobrimentos portugueses trouxeram-nos também muitas palavras novas como «banana» (da língua Wolof do Norte de África, como visto no artigo Guerra de sabores), «ananás» dos Tupi do Brasil, «chá» da China, «corja» e «manga» do Sudoeste Asiático ou «catana» do Japão. A maioria das palavras portuguesas é porém derivada de alguma palavra latina (no século XIII, dois séculos antes dos Descobrimentos, pelo menos 80% dos vocábulos portugueses eram de origem latina). Há também algumas formas gramaticais estranhas, como o uso da dupla negativa como reforço da negativa (e não como reforço da afirmativa, como era usada no Latim Erudito, como visto no artigo Dupla negação), que são comuns a todas as línguas românicas (mas não as germânicas, como o Alemão ou o Inglês) e mesmo a sobrevivência das declinações em latim nas palavras «comigo» (em vez «com eu»), «contigo» (em vez «com tu»), connosco (em vez de «com nós») e convosco (em vez de «com vós»).

   Mas há a expressão «erro crasso», cuja origem alguns ligam a um putativo general romano que terá feito um enorme erro militar. Antes de se procurar uma explicação deste teor (que se encontra nos mais inusitados locais de pesquisa), convirá talvez pegar num dicionário de Latim e procurar por uma palavra que possa estar na génese do «crasso» português. E encontram-se estas palavras, com raíz «crassus» (feminino «crassa», neutro «crassum») com estes significados: denso, sólido, consistente, espesso, gordo, concentrado (líquido),  túrgido, pesado (tempo atmosférico), lodoso (figurativamente), grosseiro, estúpido, maçador, fleumático. Então quem terá sido este tal general romano a quem erradamente se atribui a origem da expressão devido a algum erro militar grosseiro que terá feito? Perto de 20 romanos de renome tinham o sobrenome «Crasso» (em Latim Crassius), a maioria descendente do cônsul romano do século 3 AEC de nome Públio Licínio Crasso. Um dos seus descendentes, Marco Licínio Crasso, nascido um século depois (ou seja, no século 2 AEC), é o nome geralmente ligado à errónea origem da expressão «erro crasso». Nascido em Roma, em 114 AEC e morto em 53 AEC em Carras (antiga cidade na atual Turquia, perto da fronteira com a Síria e modernamente Harã), Marco Licínio Crasso foi, no seu tempo, o romano mais rico de todos, com uma fortuna calculada em perto de 200 milhões de sestércios.

   O sestércio era uma antiga moeda romana, usada até ao século 3. No tempo de Crasso, era uma pequena moeda de prata. É difícil avaliar a quanto equivaleria, em moeda atual, um sestércio, até porque a economia romana teve altos e baixos ao longo da sua História e o sestércio era uma unidade monetária cujo valor dependia do preço do material de que era feito. Modernamente, o dinheiro é fiat (expressão em latim que significa «que assim seja feito», ligado a um decreto ou decisão legislativa). Entre o século 19 e a Primeira Guerra Mundial, cada moeda ou nota em circulação correspondia e podia ser substituída pela quantidade de ouro que representava (padrão-ouro). Depois da guerra, grande parte das reservas de ouro nacionais tinha sido gasta e muitos países abandonaram o padrão-ouro, valendo o dinheiro o valor que cada governo estipulava. Um sestércio poderia corresponder (em 2017) a entre 0,22 euros (cerca de 0,85 reais) e 5,16 euros (cerca de 19,87 reais). O valor de 200 milhões de  sestércios na altura de Crasso podia assim equivaler a entre 44 mil milhões de euros (cerca de 170 mil milhões de reais) e 1,2 biliões de euros (cerca de 5 biliões de reais). Em 2017 e de acordo com a revista Forbes, a 6 pessoas mais ricas do mundo são Bill Gates (Microsoft) com 86 mil milhões de dólares, Warren Buffett com 75,6 mil milhões de dólares, Jeff Bezos (Amazon) com 72,8 mil milhões de dólares, Amancio Ortega (Zara, Massimo Dutti) com 71,3 mil milhões de dólares e Mark Zuckerberg (Facebook) com 56 mil milhões de dólares. Independentemente dos cálculos feitos, era sem dúvida alguém muito abastado, com uma fortuna feita em parte de herança, mineração, comércio escravo, posse de terras e capaz de suportar financeiramente enormes exércitos, o que fez ao longo da sua vida.

   No ano 82 AEC, Crasso mostrou o seu valor como general ao comandar vitoriosamente as suas tropas e pondo fim à Segunda Guerra Civil Romana, dando assim vitória decisiva a Sila, contra a forças de Mário. Um dos comandantes de Mário, de nome Quinto Sertório, escapou para o Norte de África. Foi depois convidado para liderar os povos hispânicos, voltando para a Península Ibérica, tomando controlo de toda a Península e liderando os povos hispânicos (incluindo os Lusitanos que o tinham convidado) na sua revolta. Pompeu, general romano da fação de Sila como Crasso, foi enviado para a península para o combater. Entretanto estalou, entre 73 AEC e 71 AEC, a 3.ª Revolta dos Escravos em Roma, liderada pelo gladiador Espártaco. Vários comandantes romanos (cerca de 11) comandaram legiões para porem fim à revolta mas sem sucesso. Em 71 AEC, quando se encontrava o exército de Espártaco no Sul de Itália, um dos comandantes de Sila, Marco Crasso, liderou 8 legiões romanas, algumas delas pagas diretamente do seu bolso, para o derrotar (entre 40 mil e 50 mil soldados romanos foram conduzidos para enfrentarem os cerca de 120 mil escravos revoltosos: homens mas também mulheres, crianças e idosos). Crasso perseguiu Espártaco, eventualmente enfrentando-o e derrotando-o. 6 mil escravos foram capturados e crucificados ao longo da estrada para Roma, tendo Espártaco morrido nesta batalha.

   Em 60 AEC, onze anos depois da derrota de Espártaco, Crasso integrou o 1.º Triunvirato Romano, com o seu protegido César (custeou-lhe muitas das suas decisivas campanhas militares) e com Pompeu. Nos primeiros cinco anos, Pompeu governou a Hispânia e a Síria, cargo depois ocupado por Crasso. A província romana da Síria era uma grande fonte de riqueza, podendo ter tornado Crasso ainda mais rico do que já era. Mas, 18 anos depois da sua última vitória militar contra Espártaco e perante as continuadas vitórias de César e Pompeu, Crasso procurou alcançar mais uma vitória militar, atravessando o rio Eufrates, em 53 AEC, para invadir o Reino de Pártia (também conhecido como Império Arsácida), no norte da moderna Turquia. No entanto, o seu exército de 43 mil soldados, foi emboscado no deserto por uma força de 10 mil soldados de Pártia a cavalo (mil deles cavaleiros com armadura, um pouco ao estilo dos posteriores cavaleiros medievais). Organizando os seus legionários para se protegerem com os escudos, Crasso esperou que a chuva de setas lançadas pelos Partos terminasse. Mas o calor e a barragem de setas venceram primeiro os Romanos e, quando os cavaleiros armados Partos investiram contra a formação romana, esta cedeu. Crasso recuou, deixando para trás milhares de mortos e feridos, incluindo o seu próprio filho. O príncipe Surena, líder dos Partos, ofereceu então a Crasso um tratado de paz que este aceitou, sob pressão das suas tropas e a tristeza pela morte do seu filho. Dirigindo-se ao acampamento parto para as negociações, Crasso foi capturado e morto, alegadamente através de ouro derretido despejado na sua garganta. Um fim, a ser verdade, muito apropriado para um homem que conduziu a sua vida através da fortuna que acumulou.

   Tendo em conta os feitos militares de Crasso, tanto na Guerra Civil como na vitória contra Espártaco, Crasso não terá sido um comandante excessivamente inábil. Homem impiedoso nas Guerra e nos Negócios, acumulou fortuna e vitórias militares. O seu único grande erro militar causou-lhe a morte mas seguramente não deu o nome à expressão «erro crasso». Alguns Legionários romanos poderão até ter sobrevivido à batalha, sido capturados pelos Partos e enviados para protegerem as fronteiras do Império Parto com a China. Após a batalha, tropas chinesas capturaram tropas partas que usavam a formação de tartaruga romana e deram-lhes o nome de Li-jian (que soa bastante a Legião). Na antiga aldeia chinesa de Liqian (na moderna vila chinesa de Zhelaizhai), há chineses com cabelos louros, olhos claros e narizes europeus, alegadamente descendentes dos legionários romanos das tropas de Crasso mas não foram encontrados vestígios de objetos romanos na região que apoiassem essa teoria.  Teste genéticos feitos em 2005 revelaram que  56% do ADN de alguns residentes de Zhelaizhai podiam ser classificados como europeus. Estudos posteriores verificaram que as evidências genéticas não condizem com a teoria dos “Legionários perdidos de Crasso”  e que os habitantes da vila pertencem à etnia Han da China.