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91. Legião Laranja

   A Guerra das Laranjas, origem de “vai p’ró Maneta”, quem partiu de “armas e bagagens”, a origem de “guerrilha”, porque o Haiti e a República Dominicana dividem a mesma ilha mas falam línguas diferentes (Francês e Espanhol), a Legião Portuguesa que invadiu a Rússia, tudo ligado à História de Portugal e a um chapéu triangular.

   A laranja esteve presente em momentos importantes da História de Portugal, tendo tido um decisivo papel nos Descobrimentos Portugueses dos séculos 15 e 16, como visto no artigo Portugal: laranja mecânica. A tal ponto que, em muitas línguas, a palavra para a espécie laranja-doce (Citrus × sinensis)é alguma variação da palavra portugal. A outra espécie de laranja, a laranja-amarga, é a Citrus × aurantium.

   Um outro decisivo momento na História portuguesa (e também brasileira) liga a laranja à História de Portugal e à vida de um homem italiano mas nascido francês que foi Imperador da França por 10 anos e que teve profundo impacto na história europeia (e mundial). A sua influência ainda se sente hoje, desde o sistema métrico que usamos às leis que nos regem ao teorema matemático que tem o seu nome, à Pedra de Roseta que decifrou os hieróglifos egípcios, às repúblicas que surgiram depois dele. E sente-se também na evolução da língua portuguesa: como visto no artigo Palavras coloridas, foi depois do impacto dele que mudámos o nome da cor Marrom para Castanho (como é ainda no Português do Brasil e nas outras línguas latinas como o Romeno de que se falou em Quinta flor do Lácio), também surgiram as expressões “vai para o Maneta!” (com o significado de dar cabo de alguém ou de alguma coisa; destruir) ou ainda partir de “armas e bagagens” (com o significado de  levar coisas em excesso).

   Ele nasceu Napoleone na Casa Buonaparte em Ajacciona, ilha de Córsega, um ano depois desta ter sido cedida à França (como garantia do pagamento de dívidas) mas mudou depois o nome para o mais francês Napoléon Bonaparte. Teve de uma fulgurante carreira militar e coroou-se Imperador em 1804. Depois de derrotar por 4 vezes os exércitos combinados do resto da Europa e ter assinado o Tratado de Tilsit (1807), Napoleão tinha ainda o poderio naval da Inglaterra para derrotar e as dinastias reais de Espanha (Boubon) e de Portugal  (Bragança) para derrubar.

   Portugal tinha poucos anos antes estado em conflito com a França revolucionária. Quando o rei francês Luís XVI e a rainha Maria Antonieta foram guilhotinados em 1793 durante a Revolução Francesa, a Espanha declarou Guerra à França, inserida na guerra da Primeira Coligação em que as monarquias europeias se juntaram para derrubar a Revolução. Portugal não participou diretamente no conflito mas enviou uma divisão de 5 mil soldados para apoiar Espanha (o Exército Auxiliar à Coroa de Espanha).  Após algumas derrotas, a França reorganizou-se e derrotou todos os seus inimigos. A Espanha teve de ceder parte da ilha Hispaniola (de que se falou no artigo A vida num sopro) à França. Assim nasceram os dois países que ocupam a ilha, em que um que fala francês (oHaiti) e outro que fala espanhol (aRepública Dominicana).

    Mas, quando a Espanha fez a paz com a França (1795), Portugal não fez parte das negociações, permanecendo em estado de guerra com a França. Esta exigiu, como condições para a paz, que Portugal abandonasse a aliança com a Inglaterra, fechasse os portos portugueses aos navios ingleses, pagasse indemnizações de guerra e cedesse parte do norte do Brasil (o estado doAmapá) para ampliar a Guiana Francesa. O Príncipe Regente D. João ficou indeciso pois, por um lado, tinha a Marinha Inglesa a proteger a sua ligação às colónias e, por outro, a ameaça de guerra com a França (e com a Espanha, que se tinha tornado sua aliada) e a invasão (as tropas espanholas já se juntavam perto da fronteira portuguesa). Em 1801, a guerra foi declarada e as tropas espanholas invadiram facilmente Portugal. Olivença foi ocupada e cedida a Espanha no rápido acordo de paz que se seguiu. Portugal ficou estropiado desde então, como visto no artigo Olivença: Portugal esquecido. Após a vitória, o comandante espanhol Manuel de Godoy colheu algumas laranjas num campo nos arredores de Elvas, que enviou à rainha espanhola como sinal de vitória. Novamente esta fruta esteve presente num momento importante da História de Portugal e o conflito ficou conhecido como a Guerra das Laranjas.

   Cinco anos depois, em 1806, Napoleão decretou o Bloqueio Continental (tornado ainda mais  rigoroso em 1807) como resposta ao bloqueio naval que a Inglaterra exercia sobre os portos franceses e após a conquista de Gibraltar ter falhado. Este decreto proibia o acesso aos portos europeus de navios de mercadorias provenientes da Inglaterra ou das suas colónias (proibição que afetou mais a França e os seus aliados do que os ingleses) e a apreensão de todas as pessoas inglesas e as suas mercadorias. Os países europeus cederam à exigências francesas incluindo Portugal e a Rússia. Mas a costa russa era enorme e muito contrabando era feito sem que as autoridades o impedissem (o que justificou a desastrosa invasão da Rússia em 1812). E o príncipe regente de Portugal D. João (a sua mãe, era a rainha D. Maria I que, desde 1796, mostrava sinais de deterioração mental, agravada pela morte do marido e do filho mais velho) após a desastrosa Guerra das Laranjas, acedeu em fechar os portos portugueses ao comércio com a Inglaterra mas não prendeu os ingleses residentes em Portugal nem lhes confiscou os bens. Napoleão tinha assim um casus belli para declarar guerra a Portugal e um pretexto para mandar entrar em território espanhol o seu exército.

   O General francês Junot fui escolhido para liderar o exército francês na invasão de Portugal porque tinha sido diplomata em Lisboa em 1805 e conhecia um pouco mais do país. Em Novembro de 1807, entrou em Espanha pela cidade fronteiriça de Irun com um exército de 25 mil homens e dirigiu-se para Portugal. A coroa portuguesa, não tendo meios de defesa, reuniram os tesouros da coroa e, embarcando nos navios da Marinha Portuguesa, refugiaram-se no Brasil. Quando Junot entrou em Lisboa, já a família real tinha partido. Com ele tinham vindo vários generais, um dos quais o General Louis-Henri Loison (1771-1816). Loison serviu Napoleão em várias campanhas na Europa, tendo ganhado a reputação de bom líder militar mas cruel e tendo feito uma fortuna pessoal pilhando e destruindo. Em Fevereiro de 1806, estando a descansar em Veneza, a explosão de uma arma de fogo durante um caçada levou a que o seu braço esquerdo ficasse tão mutilado que teve de ser amputado. Mas recuperou a tempo de integrar a invasão de Portugal. Em Portugal, conquistou e ocupou Almeida, no distrito da Guarda e dirigiu-se para a Guarda. A cidade resistiu às investidas francesas e foi depois parcialmente pilhada e destruída pelas tropas de Loison. Dirigiu-se então a Elvas, onde as suas tropas derrotaram uma guarnição de tropas portuguesas e espanholas (nessa altura, as tropas francesas tinham já traído a sua aliada Espanha e as tropas espanholas lutavam ao lado das portuguesas) e pilharam a cidade e massacraram todos os seus habitantes. A crueldade de Loison ficou registada na expressão portuguesa “vai para o Maneta” com o sentido de desejar mal a alguém ou a alguma coisa.

   Após a conquista de Portugal, o exército português foi dissolvido e os  seus melhores soldados integrados na Legião Portuguesa. Esta era  composta por 9 000 soldados portugueses nomeadamente da Legião de Elite Ligeira. Criada por Napoleão, a Legião Portuguesa partiu para Salamanca em Abril 1808, atravessando a Espanha em direção à França. Durante o trajeto, metade dos legionários desertou e regressou a Portugal para integrar a Resistência Portuguesa contra a ocupação francesa. Ao serviço de Napoleão, a Legião Portuguesa de 4 500 soldados combateu na Alemanha, Áustria e Rússia, sofrendo pesadas baixas. Estiveram nas batalhas de Wagram (1809), Smolensk (1812), Vitebsk (1812) e Borodino (Moscovo). A Legião Portuguesa era bem considerada por Napoleão, que a chamava de “Legião Negra”.  Após a invasão da Rússia, apenas cerca de 1000 soldados da Legião sobreviveram e regressaram a Portugal.

   As tropas francesas, mais bem organizadas do que as portuguesas e as espanholas, não enfrentavam apenas o seu (mais fraco) poderio militar ou o exército inglês. Após a total ocupação de Portugal, tendo Lisboa e o Porto sido conquistadas e ocupadas, Junot instalou-se em Lisboa, foi nomeado Governador de Portugal e foi-lhe dado o título de Duque de Abrantes. Mas a população civil (e o mau estado das estradas do país) sabotaram os planos franceses e todos os seus movimentos militares eram permanentemente assediados por pequenos atos de destruição e incómodo. A “pequena guerra” que o povo se uniu para fazer frente à invasão francesa, unindo-se em pequenos e independentes grupos a encetar uma luta irregular contra forças regulares mais numerosas ficou conhecida como “guerrilha” em Português (e "guerrilla" em Espanhol) e integrou o vocabulário de várias línguas desde então.

   Mas o poder das tropas francesas teria de ser definitivamente derrotado por um exército regular e bem armado e organizado. Quando a força expedicionária britânica, liderada pelo general Arthur Wellesley (futuro Duque de Wellington) desembarcou, Junot foi derrotado na Batalha do Vimeiro a 21 de Agosto de 1808, tendo ficado isolado do contacto com a França. Somente a assinatura da Convenção de Sintra permitiu-lhe evitar a captura, levando, no entanto, com ele “as armas e bagagens” (assim referido no próprio texto da convenção) e a pilhagem que o exército francês conseguiu reunir. A forma final deste acordo permitiu que os franceses levassem consigo não só as suas armas e bagagens mas também uma quantidade indeterminada, mas certamente muito grande, de bens saqueados em Portugal. Com este acordo, os franceses ganharam tempo e voltariam a invadir Portugal um ano mais tarde (houve três invasões francesas: esta Primeira (1807), a Segunda (1808) e a Terceira (1810).

   O Teorema de Napoleão é um teorema matemático relacionado com Geometria que afirma que, se se formarem triângulos equiláteros nos lados de um triângulo com qualquer forma (equilátero, isósceles ou escaleno), sejam todos no interior ou todos no exterior, os ortocentros desses triângulos equiláteros formam um triângulo igualmente equilátero. Esse triângulo recebe o nome Triângulo de Napoleão. Apesar de Napoleão ter bastante interesse em Matemática, há dúvidas de que terá realmente ele a formulá-lo ou se apenas foi a ele dedicado.