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112. Gansos de borracha

A curiosa forma como se ligam o Titã Prometeu, o Fígado humano, Línguas Latinas, Patê de Fígado, Figos, Vespas, Buda, Látex, Borracha e Chicletes.

   De acordo com a Mitologia Grega, o Titã Prometeu criou os Seres Humanos (mas apenas os do sexo masculino) a partir do barro (e a Deusa Deméter deu-lhes vida). Mas todas as qualidades tinham já sido dadas aos animais e a Humanidade era comparativamente fraca. Por isso, Prometeu ofereceu-lhes o fogo de Zeus. Esta oferta (nalguns mitos foi apenas uma devolução) irritou profundamente Zeus. Como castigo aos Homens por terem aceitado o fogo, Zeus castigou-os enviando-lhes Pandora, a recentemente criada primeira mulher (como referido no artigo Caixa de Pandora). E agrilhoou Prometeu às montanhas no Cáucaso onde todos os dias uma águia lhe comia o fígado (que surgia regenerado todas as manhãs).

   A escolha do fígado como alvo do castigo divino não é um simples acaso e deriva das suas dimensões e importantes funções. O fígado é o maior órgão interno do corpo humano (e o segundo maior de todo o corpo, após a pele), pesa entre 1,44 kg e 1,66 kg (cerca de 2,5% do peso total) e tem um comprimento de cerca de 15 cm (por comparação, o cérebro pesa entre 1,3 kg e 1,4 kg ou 2% do peso total do corpo, com uma largura de 14 cm e um comprimento de 17 cm). A enorme dimensão do fígado reflete o seu crucial papel em manter o equilíbrio químico do corpo e satisfazer as suas necessidades metabólicas. O fígado é responsável por cerca de 500 diferentes funções no corpo, como produzir a bílis (que é armazenada depois na vesícula biliar) para digerir gorduras, regular os níveis químicos do sangue, sintetizar proteínas, filtrar as substâncias tóxicas no sangue resultantes dos processos celulares ou processar os nutrientes presentes no sangue para serem usados noutras partes do corpo. Possui também a capacidade de se regenerar após lesões de curta duração ou doenças. No entanto, lesões repetidas e de longa duração (como as resultantes do consumo excessivo de álcool) podem tornar as lesões irreversíveis e impedi-lo de realizar as suas muitas vitais funções. Para Platão e muitos fisiologistas durante séculos, o fígado era a fonte das emoções negativas (raiva, inveja, cobiça) devido a produzir um dos quatro humores ou «líquidos corporais» (sangue no coraçãofleuma nos pulmõesfel no fígado e bílis negra no baço) que regulam  a saúde física e emocional das pessoas como descrito pela «Teoria Humoral».

   Em Grego Clássico, nome deste importante órgão era hepar «ἧπαρ», o que deu origem à raíz hept «ἡπατ» para processos biológicos referentes ao fígado (como células hepáticas ou cirroses hepáticas). Em Grego moderno, fígado é sykóti «συκώτι». Em Latim Clássico, fígado era chamado «iecur», do Indo-Europeu *Hyékʷr̥ (que também deu origem ao Grego Clássico ἧπαρ - hêpar, Sânscrito यकृत् - yákṛt ou o Persa جگر‎ - jegar). Mas, nas línguas modernas derivadas do Latim, essa origem clássica perdeu-se e surgem designações como Fígado (Português); Ficat (Romeno); Foie (Francês); Fígado (Galego); Fegato (Italiano); Fetge (Catalão)  ou Hígado (Castelhano).

   A origem desta alteração revela-se na História de uma especialidade culinária francesa chamada Foie gras («fígado gordo» em Francês), feita com fígado de ganso ou pato. Já há mais de 5 mil anos (cerca de 2500 Antes da Era Corrente), os Antigos Egípcios notaram que os gansos e patos que tinham domesticado comiam de forma compulsiva como preparação para o voo migratório que faziam antes da domesticação. Como resultado, o fígado destas aves engordava e sofria significativas alterações e os patês feitos com eles ficavam mais suaves e apetecíveis. Aproveitando esse impulso anual, os Antigos Egípcios começaram a alimentar à força as suas aves duas semanas antes de as matarem. A prática espalhou-se então pelo Mediterrâneo, primeiro para os Antigos Gregos e destes para os Romanos. Terá sido um gastrónomo romano, de nome  Marco Gávio Apício (século I), quem primeiro usou o método de engordar os gansos com figos secos para tornar os seus fígados mais saborosos, produzindo assim «iecur ficatum» ou «fígados (engordados) com figos», do nome em Latim «ficus» para figos. Esta preparação tornou-se muito apreciada por todo o Império Romano e o fígado passou a estar diretamente relacionado com esta prática. À medida que o tempo ia passando, a  expressão perdeu o «iecur» original e o órgão passou a ser designado apenas como «ficatum». Quando o Império se dissolveu, as línguas que resultaram do Latim conservaram esta designação derivada do fruto. E assim figo deu origem a fígado.

   Nas línguas latinas (as 5 principais podíamos designar por PEFIR = Português, Espanhol, Francês, Italiano, Romeno), o fruto conserva ainda a designação latina: Figo (Português); Higo (Castelhano); Figue (Francês); Fico (Italiano); Ficus (Latim) mas é Smochină em Romeno, derivado da palavra das Línguas Eslavas Meridionais vizinhas (sérvio, o croata, o bósnio e o montenegrino) para o fruto smokvina. Como visto no artigo Quinta Flor do Lácio, apesar de ser uma língua latina, sofreu algumas influências dos povos eslavos vizinhos, como o Português teve do Árabe em palavras como Azeite (Oleum em Latim e زيتون «zaytun» em Árabe ). 

   O Figo que é consumido por seres humanos é o fruto da Ficus carica, originária do Médio Oriente e consumida desde a Idade das Pedra. Uma planta produz flores femininas (que produz o figo que consumimos) e outra flores simultaneamente masculinas e femininas (que produzem caprifigos, do latim capri - cabra, por serem dadas de comer a estes animais), em ambos os casos encerrados dentro de um recetáculo designado por sicónio (da palavra grega para figo «sykon») que as isola do mundo exterior. A fertilização é feita por uma vespa especializada (Blastophaga psenes) que se reproduz unicamente dentro deste figo (há cerca de 755 espécies de figueiras no mundo, cada uma com uma vespa especializada apenas nela). A vespa põe os ovos nos sicónios hermafroditas (caprifigos) mas não nos femininos (aqueles consumidos por seres humanos). Quando as larvas se desenvolvem nos caprifigos, saem e polinizam os sicónios femininos de outra árvore. Após entrarem nos figos e fazerem a polinização, as minúsculas vespas morrem e uma enzima no figo (a Ficina) dissolve e absorve a vespa para o figo.

   As diferentes espécies de Figueiras são conhecidas por produzirem Látex, uma substância (diferente da Seiva) que a planta produz como mecanismo de defesa quando o seu tronco é ferido. É assim que é extraída a borracha da Ficus elastica (e também o látex Chicle da Sapota zapotilla, com que se fazem as pastilhas elásticas designadas por Chicles em Espanha e Chicletes em Portugal e no Brasil). Há outras espécies de Figos importantes para os seres humanos: foi debaixo de uma figueira (Ficus religiosa) que Buda atingiu o nirvana (a árvore é assim sagrada para o Hinduísmo e para o Budismo).