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96. Vitória pírrica

   Vitórias pírricas, desde a Guerra de Tróia, ao herói grego Aquiles, aos seus descendentes Alexandre Magno e Pirro, o tesouro de Tróia em Moscovo, elefantes de guerra em Itália e o fim na cidade grega de Esparta. 

   A origem de algumas das expressões que se utilizam na Língua Portuguesa pode ser traçada até a uma personalidade ou acontecimento histórico específicos. Algumas foram já abordadas no Cognosco (ver a categoria Palavras e Expressões). Há uma outra expressão que se usa que é vitória pírrica, utilizada para se referir a uma vitória obtida com grandes custos e cujo resultado final quase parece uma derrota. Está ligada a Pirro, primo de Alexandre Magno (de que se falou em Grande Saber) e que foi o primeiro general (62 anos antes de Aníbal Barca o fazer na Segunda Guerra Púnica) a levar Elefantes de Guerra para a península itálica para grande surpresa das legiões romanas. A História de Pirro começa com a Guerra de Tróia e termina em Esparta (de que se falou em Lacónica Língua), quando morreu nas ruas da cidade a tentar conter uma rebelião.

   A «Guerra de Tróia» foi relatada por Homero na obra Ilíada (que recebeu esse nome por causa de uma cidade situada perto da localização da desaparecida Tróia, a cidade de Ilium). A vitória grega e a destruição da cidade (após 10 anos de cerco) motivaram a criação de muitos mitos. Um deles liga a fundação de Roma à destruição de Tróia. Após esta, refugiados da cidade destruída abrigaram-se na costa ocidental da Itália. O seu líder era Eneias, filho de um mortal e da deusa Afrodite. São famosos dois descendentes de Eneias, Rómulo e Remo, que fundaram a cidade (tudo isto é relatado na «Eneida» do romano Vergílio, que assim deu uma origem de ascendência divina, ligada à Deusa Afrodite, à majestosa capital).

   Outro mito ligado à incendiada Tróia refere o destino de um dos vitoriosos gregos e antepassado de Alexandre Magno e Pirro, o herói grego Aquiles. Uma antiga profecia relatava que Aquiles morreria numa batalha em Tróia (o que aconteceu na mitologia grega). Para procurar fugir a esse destino, Aquiles refugiou-se, anos antes da guerra ter começado, na ilha grega de Esquiro Σκύρος, na corte do rei Licomedes, disfarçado de mulher, com o nome Pirra. Nos anos que lá passou teve um romance com a princesa Deidameia. Desse romance nasceu um filho a quem foi dado o nome de Neoptolemeu, chamado de Pirro (devido ao nome feminino que o seu pai Aquiles tinha usado), que viria também a entrar na guerra de Tróia. Após a vitória grega, Neoptolemeu matou o rei troiano Príamo e escravizou Andrómaca (a ex-mulher do herói troiano Heitor, filho de Príamo e morto por Aquiles). Partiu então para a Grécia e tornou-se rei de Epiro, um reino na costa ocidental grega. Andrómaca e Neoptlomeu tiveram um filho de nome Alexandre Molosso que viria depois também a ser rei de Epiro (em 370 AEC). Entretanto, no reino vizinho da Macedónia, governava Alexandre II da Macedónia (370AEC-368AEC). Uma das irmãs de Alexandre II chamava-se Olímpia, princesa de Epiro, que casou com Filipe da Macedónia (irmão mais novo de Alexandre I da Macedónia) e foi mãe de Alexandre o Grande (nascido em 356 AEC).

   Um sobrinho de Olímpia, primo de Alexandre e neto de Molosso (e, por isso, também bisneto de Aquiles) foi Pirro (318AEC-272AEC). Na altura, Roma era ainda uma república, ocupada em unificar a península itálica. Quando Pirro tinha 2 anos o seu pai foi destronado; mais tarde Pirro foi chamado de volta para se tornar rei de Epiro mas foi destronado quando tinha 17 anos; numa série de reviravoltas, Pirro foi feito refém de Ptolomeu (o general macedónico de Alexandre que se tornou governante do Egipto e cuja dinastia teria como última representante a última faraó do Egipto, Cleópatra), casou com a filha adoptiva deste de nome Antígona e restaurou o reino de Epiro em 297 AEC.

   Em 281 AEC, a cidade de grega de Tarento, na costa oriental de Itália, ficou sob ameaça dos exércitos romanos, que procuravam unificar toda a península. Preocupados, os Tarentinos pediram ajuda aos seus irmãos gregos. Suplicaram a Pirro que os ajudasse a defenderem-se dos ameaçantes romanos. Pensando em conquistas militares e territoriais na Itália, Pirro concordou em combater ao lado de Tarento. Aliando-se ao rei da Macedónia desembarcou na Itália em 280 AEC, à frente de um exército de 25 500 homens e 19 elefantes de guerra. (Foi com Pirro que pela primeira vez a Itália Romana foi atacada por elefantes de guerra. Foi inspirado em Pirro que Aníbal, na 2ª Guerra Púnica, levou elefantes das colónias cartaginenses na Hispânia até à Itália, atravessando os Alpes. Para Aníbal, Pirro era o 2º maior general da História, sendo para ele o maior o famoso primo de Pirro, Alexandre o Grande.)

   Pela primeira vez as legiões romanas enfrentariam as falanges gregas. Nesse mesmo ano, derrotou os Romanos na Batalha de Heracleia devido à sua superior cavalaria e aos seus elefantes de guerra. Morreram 7 mil soldados romanos e 4 mil soldados de Pirro. Após a vitória, ofereceu aos romanos um tratado de paz, rejeitado por estes. Pirro acampou para passar o Inverno e, no ano seguinte (279 AEC), avançou para a região romana vizinha da Apúlia. Enfrentou então o exército romano perto de Asculum (atual Ascoli Satriano). Os exércitos eram numericamente semelhantes (40 mil em cada lado) e os Epirenses tinham os seus 19 elefantes de guerra e os Romanos 300 dispositivos anti-elefantes (carros equipados com longas pontas afiadas e puxados por bois para ferirem os elefantes, potes inflamáveis para os assustarem e tropas especiais para atingirem os elefantes na tromba com lanças para os afastarem). A batalha durou 2 dias, durante os quais os dois exércitos se defrontaram. No fim, tinham morrido 6 mil soldados romanos e 3 500 soldados de Pirro (incluindo muitos dos seus aliados e amigos).

       Foi uma vitória grega a muito custo. Foi após esta batalha que Pirro declarou «Mais uma vitória destas e estamos perdidos!». Foi depois para a ilha da Sicília, a pedido da cidades gregas na ilha, para enfrentar os exércitos cartaginenses. Pirro venceu e foi declarado Rei da Sicília. Lutou e venceu várias vezes Cartago, tendo instalado uma ditadura militar na ilha. Descontentes com Pirro (apesar das suas vitórias contra Cartago), expulsaram-no da ilha. Tentou mais uma vez uma invasão à Itália romana em 275 AEC, mas os romanos tinham reunido já um exército muito maior do que o de Pirro e ele foi derrotado na Batalha de Benevento. Derrotado, voltou à Grécia, conquistou militarmente a Macedónia e depois atacou Esparta a pedido de um pretendente ao trono espartano. Enfrentou grande resistência e, ao entrar na cidade de Argos, foi morto nas estreitas ruas da cidade. Épiro existe ainda, como região da Grécia, e a histórica Epiro de Pirro encontra-se entre a Albânia (a sul do país) e a Grécia.

   Foi o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann que descobriu as ruínas da cidade de Tróia na década de 1870. Até então considerava-se que Tróia era apenas uma fábula, um mito. Mas Schliemann sempre acreditou na sua existência. Seguindo algumas descrições geográficas contidas na Ilíada sobre os terrenos envolventes da cidade e, contra a opinião de todos, partiu para a Turquia (na altura parte do Império Otomano). Foi lá que encontrou as ruínas de uma cidade que identificou como a Tróia de Homero e um tesouro, em ouro, a que chamou o «tesouro de Príamo» e levou para a Alemanha. Este tesouro encontra-se agora no Museu Pushkin, em Moscovo: foi levado pelas tropas soviéticas após a 2.ª Guerra Mundial. Mas no local onde existiu de facto Tróia há ruínas de 7 cidades, cada uma construída sobre a anterior. Schliemann descobriu o «seu» tesouro em Tróia II, uma cidade que investigadores posteriores identificaram como sendo da idade do bronze e portanto muito anterior à cidade homérica. A Tróia relatada na Ilíada será no nível VI ou VIIa, entre 1 300 AEC e 1 200 AEC. Um outro dos mais famosos equívocos de Schliemann é a máscara de ouro a que deu o nome de «Máscara de Agamémnon». Descobriu-a em Micenas em 1876 e erradamente pensou tratar-se da máscara funerária do rei grego que conduziu os gregos na Batalha de Tróia. Mas, de acordo com modernos investigadores, a máscara data de entre 1550 AEC e 1500 AEC, antes sequer do nascimento do famoso rei. Mas o nome ficou, apesar de incorreto.