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140. Peixes caninos

A história que envolve o maior animal do mundo e o maior peixe do mundo, seleção natural, baleias e golfinhos, baleias azuis e tubarões brancos, os Orcs de Tolkien no inferno romano, o Pinóquio, Disney, peixes-cão e cações, tubarões no Mediterrâneo, o tubarão português. 

   Alguns dos animais mais impressionantes do mundo são baleias. Este é o nome informal dado a um conjunto de animais dentro dos Cetáceos (que inclui baleias, golfinhos e toninhas) agrupados dentro dos Artiodátilos, do Antigo Grego ἄρτιος ártios «par» e δάκτυλος dáktylos «dedo», que incluem animais como porcos, hipopótamos (o parente biológico vivo mais próximo dos cetáceos), camelos (de que se falou em Sabedoria noturna), lamas, alpacas, veados, girafas, antílopes, ovelhas, cabras e vacas. Os cetáceos variam de tamanho desde o 1 metro do golfinho Popoto Cephalorhynchus hectori maui da Nova Zelândia (de cujo nome se falou em Novas e demónios) até aos 25 metros da Baleia-azul Balaenoptera musculus (havendo registos de baleias-azuis com 32 metros), o maior animal no Mundo. O primeiro cetáceo foi o Maiacetus «Mãe-baleia», um animal semi-aquático surgido há cerca de 50 milhões de anos no moderno Paquistão, onde vários fósseis documentam a transição da terra para o mar dos Cetáceos.

   Esta variação tão grande de tamanho, em especial o enorme tamanho da baleia-azul, sugere a existência de pressões evolutivas (falou-se na longa História da Teoria da Evolução e da Seleção Natural em Tentilhões marcados). As pressões evolucionárias mais comuns são a procura de alimento (e.g. o alongamento do pescoço das girafas), competição sexual (e.g. o aumento da cauda dos pavões) e a defesa em relação a predadores (e.g. as cores vivas dos animais venenosos). As baleias podem ser divididas (e são) em dois tipos: as baleias sem dentes Mysticeti que filtram pequenos camarões e plâncton da água usando longos filamentos de queratina na boca e as baleias com dentes Odontoceti que se alimentam de outros mamíferos marinhos, peixes e lulas e usam ecolocalização. Dos dois, as maiores são as baleias sem dentes, como as baleias-azuis, que se alimentam de pequenos camarões (a grande exceção são os cachalotes Physeter macrocephalus que têm mais de 16 metros de comprimento e se alimentam de lulas gigantes no fundo dos oceanos).

   A pressão evolucionária para o aumento corporal pela procura de alimentos não se parece ter dado sobre as baleias. A pressão evolucionária para o aumento corporal pela fuga a predadores também não parece acontecer já que não têm predadores naturais que tenham sequer uma fração do seu tamanho. O maior animal que caça por vezes baleias é um familiar das baleias, a Orca que não deve ser chamada baleia assassina porque não é uma baleia mas a maior das 50 espécies de golfinhos. Marinheiros espanhóis do século 18 chamaram-lhes «Assassinas de baleias», por caçarem baleias comuns para lhes comerem a mandíbula inferior e a língua. As Orcas têm menos de 8 metros de comprimento e, apesar de caçarem em grupo, não perseguem baleias como fonte de alimento. O nome Orca vem do Latim Orcus, de origem etrusca, um dos deuses do Inferno. Da palavra latina veio a palavra italiana Orco, a palavra francesa Ogre e a palavra do antigo inglês Orc, as três significando «monstro do submundo».  Foi assim a inspiração para o nome dos Orcs nos livros de JRR Tolkien.

   Mas já houve um animal grande o suficiente para caçar e precisar de se alimentar de baleias. Foi um agora extinto tubarão: o Megalodonte Grande dente. Pensa-se que este tubarão seria parente do moderno Tubarão-branco e que poderia ser fisicamente semelhante já que os seus dentes também o são mas maiores. Esse enorme tubarão, o Megalodonte, existiu há mais de 1 milhão de anos e chegava a medir 15 metros. Surgem, nos registos fósseis, a partir de há 16 milhões de anos e desapareceram dos registos fósseis há 1,6 milhões de anos.

   Os tubarões são peixes cartilagíneos logo não têm espinhas. Não têm esqueleto pois todo o seu corpo é feito de cartilagem, o mesmo material de que é feito as orelhas humanas e que compõe o corpo de todos os tubarões e raias. A maioria dos peixes são ósseos,  os seus ossos são o que se chama as espinhas. Os tubarões surgiram há cerca de 420 milhões de anos e há atualmente cerca de 500 espécies reconhecidas, que variam de tamanho desde os 20 centímetros do Tubarão-lanterna anão Etmopterus perryi aos 12 metros do Tubarão-baleia Rhincodon typus e encontram-se em todos os oceanos.

   Até ao século 16, os tubarões eram conhecidos como peixes-cão. Em Português, são também designados por Cação, cuja origem se liga à palavra cão. Em Italiano, além da palavra mais vulgar Squalo para tubarão, são também conhecidos como Pescecane (literalmente peixe-cão). Na história original do Pinóquio, escrita em 1883 pelo italiano Carlo Collodi,  Pinóquio e Gepetto são engolidos por um grande tubarão (que é chamado pescecane no original italiano) e não por uma baleia (que só foi introduzida na história em 1940 no filme da Disney). Isto foi provavelmente inspirado nos muitos relatos de pescadores engolidos por tubarões-brancos residentes no Mar Mediterrâneo.  Não se costuma saber isto porque os tubarões são tímidos e não costumam deixar águas profundas. Há registos fotografados, recolhidos, filmados, de tubarões-brancos no Mediterrâneo a engolir inteiras as suas presas. Há até o registo de um pescador engolido por um perante o olhar impotente dos seus colegas, como na descrição bíblica do destino de Jonas.

   Quando um tubarão morre não deixa vestígios a longo prazo, pois a cartilagem não fossiliza, à excepção dos seus dentes, que são bem duros.

   Os dentes do Grande Tubarão Branco medem (os 3 mil dentes que tem na boca) mais ou menos 8 centímetros de comprimento. Os dentes do Megalodonte medem 18 centímetros de comprimento. A sua boca poderia abrir com uma largura de 1,80 metros e uma altura de 2,1 metros, suficiente para engolir até um Grande Tubarão Branco.

   Não há registos fósseis do megalodonte, mas a semelhança entre os dentes do Megalodonte e os do Tubarão Branco faz crer aos investigadores que seriam parecidos morfologicamente. Se serão ou não do mesmo Género de tubarões é matéria de discórdia. Os únicos animais que poderiam servir de alimento a tão grande predador marinho só podiam ser as baleias. Poderá ter-se dado uma corrida biológica ao maior tamanho: as baleias a aumentarem de tamanho para se protegerem do Megalodonte e o Megalodonte a aumentar de tamanho para as caçar, como a corrida biológica ao maior corredor entre as gazelas e as chitas: as gazelas a correrem mais velozmente para fugirem e as chitas a correrem mais rapidamente para as apanharem (numa versão muito simplista da Teoria da Evolução, mais lamarckiana do que darwinista). Eram tubarões, não há dúvida. A dúvida é se seriam de facto do Género do Tubarão-branco Carcharodon ou se constituiriam outro Género, Carcharocles. É impossível sabê-lo apenas com base nos dentes fósseis. Mas mesmo Megalodontes, de nome e aspeto.

   Há um tubarão conhecido como Carocho ou Tubarão português Centroscymnus coelolepis com 1,2 metros de comprimento que vive nas águas profundas do Atlântico em redor dos Açores a uma profundidade entre os 400 metros e os 2700 metros.