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106. Sabedoria matinal

As diferenças e semelhanças entre vários animais que têm o mesmo nome mas são diferentes ou têm nomes iguais sendo diferentes. Desta vez, rãs e sapos; cágados e tartarugas (e a sua ligação ao inferno grego e à placa bacteriana); pombas e rolas; cobras e serpentes e víboras e cascavéis; crocodilos e jacarés e caimões e gaviais.

   No artigo Sabedoria noturna, falou-se em alguns animais que partilham características comuns mas têm nomes diferentes ou que têm nomes semelhantes mas têm características diferentes: caracol e lesma, lebre e coelho, porco-espinho e ouriço-caixeiro, camelo e dromedário e mocho e coruja. Mas há ainda outros animais que, em Português, se enquadram nesta lista.

   Há as rãs e os sapos que são animais anfíbios pertencentes à ordem Anura (do Antigo Grego an «sem» e oura «cauda»). A distinção entre os dois não tem bases na taxonomia científica mas é usual, no folclore popular (palavra que vem das línguas germânicas folk "povo" e lore "conhecimento"), que os sapos sejam associados com pele seca com verrugas ( apesar de ser só aparência de verrugas, pois têm um tamanho fixo e não são provocadas por infeções), hábitos terrestres e pernas pequenas e curtas. Já as rãs são pensadas como tendo a peles húmidas e coloridas (indicadores de produzirem veneno, produzidas por algumas espécies em glândulas especiais que só têm efeito quando em contacto direto), com locais húmidos (como perto de rios ou florestas tropicais  como a Amazónia, cujo nome deriva das mitológicas Amazonas como visto no artigoDecisões em Troia) e, apesar de terem pulmões, a sua respiração ser feita principalmente feita através da pele. Mas as diferenças entre rãs e sapos não são suficientes para serem nomeados de forma diferente.

   Também nesta lista encontramos os cágados e as tartarugas (e, no Brasil, também as jabutis), que têm um aspeto semelhante. A distinção entre estes nomes também não tem uma base científica, todos são da ordem dos Testudíneos (do Latim testudo para tartaruga), que são répteis caracterizados por terem uma cobertura grossa sobre as costas feita de osso ou cartilagem que se desenvolve a partir das costelas e que funciona como escudo. No discurso informal, cágados são tartarugas pequenas, com membranas nas patas e pequenas garras e de água doce que correspondem, em Portugal, aos membros de duas espécies: o cágado-mediterrânico e o cágado-de-carapaça-estriada. Todas as outras tartarugas (a maioria das quais marinhas) são chamadas coletivamente de tartarugas (no Brasil, as jabutis são duas espécies de tartarugas da América do Sul exclusivamente terrestres). As ilhas Galápagos, onde Darwin formulou a sua Teoria da Evolução, recebeu esse nome porque, em Castelhano, galapago é outro nome para tartaruga de água doce ou cágado em Português. Apesar da sua base no Latim, na maioria das línguas latinas, o nome destes animais não deriva do Latim testudo. O Romeno (de que se falou no artigo Quinta Flor do Lácio) é o que melhor conservou a origem clássica: ţestoasă. Já em Italiano, há também a distinção entre tartarughe (tartaruga de água doce) e testuggine (tartaruga marinha). Em Castelhano é tortuga; em Galego tartaruga (no artigo Dias primos, falou-se porque há uma relação tão próxima entre o Português e o Galego);  em Francês é tortue. A origem da palavra tartaruga não é clara, sendo a origem mais consensual a de que vem da expressão latina bestia tartaruca ou «besta do Tártaro», que se refere simultaneamente ao Inferno na mitologia grega (Τάρταρος «Tartaros») e à região na Ásia desde o Mar Negro até ao Oceano Pacífico, chamada de Tártaro ou Tartária desde a Idade Média até ao século XX, uma terra que inspirava assombro e medo aos povos europeus. O tártaro dentário (o endurecimento da placa bacteriana sobre os dentes) recebeu esse nome devido ao seu aspeto rochoso e desagradável, semelhante à descrição do Inferno mitológico grego. O molho tártaro (feito com maionese e cebolas ) recebeu esse nome por se pensar ser originário dessa (enorme) região. Curiosamente, em Alemão, tartaruga é Schildkröte, que é literalmente «sapo com escudo» e, em Ucraniano e Russo, tartaruga é черепаха «cherepakha», semelhante à palavra «carapaça» em Português, cuja origem pode estar ligada ao Antigo Grego κάραβος (kárabos, “besouro ou carocha”).

   Outros animais que, sendo semelhantes, recebem nomes diferentes são as pombas e as rolas. Ambos os nomes têm a ver com as aves do género Columba (a palavra é do latim para "pombo" e "rola"). A etimologia vem do Antigo Grego κόλυμβος «kolumbos» (que significa "mergulhador", de κολυμβάω «kolumbao» mergulhar), devido ao movimento das suas asas em voo que se assemelham aos braços de um mergulhador. A palavra pombo vem diretamente de outra palavra em latim para a mesma ave palumbu (que originou a palavra «porumbel» em Romeno e «paloma» em Castelhano). Mas, em Francês, é «colombe» como a palavra latina derivada do grego mas, em Italiano, é piccione palavra de origem onomatopaica (como o perro em Castelhano de que se falou no artigo Sabedoria noturna), descrevendo o piar dessas aves. O som frequente que elas fazem deu também origem à onomatopeia Rola. O pombo comum tem adicionalmente o nome livia (do Latim livor «azulado»). Os Columbídeos tendem a ter pernas curtas, bicos pequenos, cabeças pequenas em comparação com o corpo e abanam a cabeça quando andam para manter o ângulo de visão fixo. As diferenças entre pombos e rolas costumam estar ligadas ao tamanho da ave (os pombos maiores do que as rolas) e à coloração (rolas com uma plumagem mais clara) mas não há consistência no uso destes nomes, havendo rolas maiores do que pombos e  pombos de cor mais clara do que algumas rolas.

   Outra fonte de confusão é as cobras, serpentes,  víboras e cascavéis.  Todas estas designações referem-se a répteis carnívoros longos e sem pernas (ainda que algumas espécies conservem  garras vestigiais ao lado dos órgãos sexuais para auxiliarem na cópula) que produzem ou não veneno. Pertencem à subordem Serpentes dos répteis (a outra subordem é a dos lagartos), possuindo a pele coberta de escamas (que se transformaram em penas quando os dinossauros se tornaram nas modernas aves). Por causa da forma do seu corpo, órgãos que surgem em pares (como os rins) não ficam lado a lado mas um em frente do outro e apenas um dos pulmões é utilizado. Do Indo-Europeu *serp- «rastejar», veio a palavra em Latim serpens “rastejar” e o Antigo Grego hérpō (ἕρπω) “rastejo”. A doença viral herpes é assim chamada porque provoca lesões na pele que se assemelham ao rasto ou à mordedura de uma serpente. Em Português, as serpentes recebem também o nome de cobra, de outra palavra em Latim colubra. Aquando dos Descobrimentos portugueses, os navegadores portugueses descobriram as serpentes asiáticas, nomeadamente as Najas, venenosas (na verdade, são peçonhentas, uma vez que injetam as toxinas que produzem no interior do animal que estão a atacar, ao contrário dos animais apenas venenosos como algumas espécies de rã) e com uma dobra no pescoço (capelo) que alargam quando estão em modo agressivo com duas marcas semelhantes a olhos. A palavra cobra era comum em Portugal e, para as distinguir das restantes, foram chamadas de cobras-capelo. A designação passou para outras línguas europeias para todas as serpentes peçonhentas, e não apenas às Najas. Mesmo línguas não europeias adotaram a designação portuguesa: em Árabe surgiu الكوبرا «alkūbrā» (outra das poucas palavras em Árabe que derivam de uma palavra portuguesa, como a laranja de que se falou no artigo Laranja mecânica), em persa کبری «kobrā», em Turco «kobra»,  em hebraico קוברה נחש «qōbrāh».  Outra família de cobras peçonhentas são as víboras, que vem do Latim vipera, vindo da mesma raíz que vivus e de parere, porque, apesar de porem ovos como os restantes répteis, estes desenvolvem-se no interior da progenitora e nascem já formados, ao  contrário da maioria das outras serpentes. Dentro das víboras, há ainda a sub-família das cascavéis, que possuem um chocalho característico na cauda. Então o termo geral é serpente (subgrupo). Dentro das serpentes, um quarto das espécies são peçonhentas, o que inclui as cobras(-capelo) e ainda as víboras. Dentro das víboras, há ainda as cascavéis. Um estudioso das serpentes é também um herpatologista.

   Outros répteis que parecem ter vários nomes apesar de parecerem iguais são os crocodilos, os jacarés (ou caimões) e os gaviais. A família dos crocodilos inclui cerca de 25 espécies de répteis (crocodilos, jacarés e gaviais), que surgiram juntamente com os dinossauros (o que os torna assim os parentes biológicos atuais  mais próximos das aves). A palavra “crocodilo” vem do Grego Clássico κροκόδιλος «crocodilos», composta pelas palavras krokè «pedras» e  drilos «verme», como descrito pelo Historiador Heródoto. Destes três animais, o gavial (da palavra hindu para crocodilo घड़ियाल «ghadiyaal») é o que mais facilmente  se identifica devido ao seu focinho muito estreito. Os jacarés (ou aligátores) são muito parecidos com os crocodilos mas com uma cabeça mais curta e larga e pelas membranas interdigitais nas patas traseiras. A palavra “jacaré” vem da língua Tupi «îakaré» e “aligátor” provavelmente da expressão espanhola “el lagarto”, que os exploradores espanhóis descobriram no continente americano. Os crocodilos têm sempre um dente saído da boca quando esta está fechada. Os jacarés têm também uma maior tolerância à água salgada do  que os jacarés,  por terem uma glândula especializada para filtrar o sal, da mesma forma que outros répteis marinhos (que está presente nos crocodilos mas não é funcional nos jacarés). Nos outros répteis de água salgada, essas glândulas estão na cabeça. Como o fenómeno das “lágrimas de crocodilo” há cerca de 800 anos que se encontra registado, sempre se pensou que as glândulas salinas do crocodilo estivessem na cabeça. junto aos olhos. Mas as maiores concentrações de sal nos crocodilos foi encontrada na língua.  A expressão “lágrimas de crocodilo”, com o sentido de emoção fingida, falsa ou hipócrita, surge devido às excreções de sal que também ocorrem nos olhos dos crocodilos.